A era da modernidade líquida em que vivemos — um mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível — é fatal para nossa capacidade de amar, seja esse amor direcionado ao próximo, nosso parceiro ou a nós mesmos.”

– Amor Liquido, Zygmunt Bauman

Olá, querido.

Hoje, mais um dia da semana que começa, logo vai embora e eu vou continuar aqui angustiada.

Não gosto de ter que chegar ao ponto de ter que escrever para você, pois ainda temos uma relação, mas como você nunca me deixa expressar nada, a única alternativa que me restou foi escrever.

Eu tenho algumas coisas para te dizer e eu preciso que você leia/escute porque estou prestes a morrer com tantas feridas e situações mal resolvidas.

Querido, você já se colocou no meu lugar alguma vez? No meu lugar de mulher preta, que sofre com o machismo, (com o seu machismo), com a insegurança e o medo de ser abandonada, machucada mais uma vez. Já se colocou? Creio que não.

Queria ver se fosse você no meu lugar, tendo que lidar com as questões que eu lido internamente e ainda a depressão batendo na minha porta todo dia, ter um filho de um homem que desapareceu para criar sozinha.

Eu não te pedi para estar comigo, mas você insiste tanto que precisa dessa relação, que agora eu não posso mais me calar.

Queria ver como você iria se sentir, se eu fizesse o que você faz, dissesse o que você diz, colocasse a cabeça no travesseiro e dormisse tranquilamente, enquanto você estivesse morrendo todo dia um pouco mais.

Queria ver mesmo, se tivesse sido você que tivesse saído de um relacionamento onde a agressão era recorrente. De outro que a auto-estima era esmagada e outro e outro… Se fosse você a pessoa que foi trocada, com a desculpa – Eu não estou preparado, me desculpe -, E na semana seguinte aparecesse com outra pessoa.

Não existe delícia em ser quem eu me tornei depois de tantas pedras no caminho. E quando nos conhecemos eu enxerguei em você tanto amor e tanto tato, empatia e cuidado, que não pude acreditar que aquilo estava realmente acontecendo em minha vida, era bom de mais. Eu achei que você era minha cura. Até poderia ter sido, mas você é egoísta demais.

Eu ajudei você a se tornar o cara querido nos espaços de militância que você é hoje.

E você parece não fazer a mínima. Meu bem, eu fiz sua cama…

Mas o tempo vem passando depressa, junto a ele chegam às modernidades, uma delas a tão falada liberdade de se relacionar.

É difícil lidar com modernidade das relações, pessoas que querem estar juntas e ao mesmo tempo ligadas emocionalmente, sexualmente ou nem tanto, a outras. Você não percebeu que não dá conta disso?

Eu não dou conta disso, também. Mas, quem liga, quando tudo que se sonha é ter liberdade, não é mesmo?

E ainda bate no peito cheio de razão quando eu tento argumentar!

Sua pseudo liberdade te cegou, tampou seus ouvidos, inclusive. Você não me escuta e eu não falarei mais.

Antes de finalizar, se você puder me mostre em qual livro está escrito que relacionamento aprisiona, por favor. Eu adoraria saber, porque do jeito que você fala, deve existir uma bíblia sagrada dos relacionamentos.

O que torna as relações tão frágeis? Deve ser a falta delicadeza que a gente lida com a nossa própria vida e esquece que o mundo não gira somente em torno de nós. Quando se assume uma relação, torna-se responsável pela vida do outro também.

Observe o que você vem fez…

Olha meu bem, hoje é mais um dia da semana que começa e sinto que não vou mais terminar angustiada. Vou direcionar esse amor especialmente a mim.

Essa é uma carta fictícia escrita com base em várias histórias que leio, escuto e que já vivenciei. Mas poderia ser real e escrita por qualquer uma de nós. Qual quer semelhança com a realidade, não é mera coincidência.

Imagem destacada: ModeloTayse Cardoso. Foto de Esther Mendes. Originalmente publicada no site Noo.