* Aviso de Gatilho : Relato de Estupro

 

 

 

Eu, mulher, negra, estudante desta universidade venho através deste, fazer um manifesto. No dia 16 de outubro (sexta-feira passada) durante a festa de Halloween que ocorreu no gramado da UENF sofri uma violência.

Sim, fui violentada, pois ao sair do banheiro de tal festa fui abordada por um indivíduo que se aproximou de mim e antes que pudesse perceber tive meu vestido puxado e levemente rasgado. Com isso, meus seios ficaram totalmente expostos e antes de manifestar tamanho susto, outros camaradas (amigos, brother, machos, violentadores de mulher, seja lá o que forem) também se aproximaram e eu entrei em desespero.

Eles manifestavam sorrisos de canto de boca e a famosa olhadinha para trás do tipo, “será que alguém ta vendo” e vieram os cinco homens “tiraram” uma com a minha cara, insinuando que a brincadeira só estava começando e foi aí que começou um festival de abusos sonoros, de piadinhas descabidas com meu corpo, minha cor e meu vestido em um tom de “a gente tá brincando, mas estamos te levando para o “bosque”.

Eu, totalmente desconcertada, sem entender tudo que estava acontecendo, acuada e com medo, fiquei paralisada… me senti desamparada porque olhava para os lados e ninguém percebia o que estava acontecendo, pelo fato do som estar alto e as pessoas entretidas com a festa.

Neste momento comecei a esbravejar, a tentar me defender e os “caras” começam a rir da minha cara, querendo me expor ao ridículo: “sua louca, você acha que alguém aqui quer mesmo pegar você…Como se a gente quisesse uma preta assim, a gente não precisa disso”. Outros rapazes próximos percebem a situação, mas o contexto foi dado como normal, com “os caras” falando para os outros rapazes que se aproximaram ao me escutar gritando, que a louca, histérica ali estava de gracinha, ou seja, ninguém me defendeu e nem eu mesma conseguir me defender, porque naquele momento só pensei em sair dali. Ir embora era o que eu mais queria.

Durante esse processo todo senti tanto medo que urinei na roupa. Chorando, sem entender o que tinha acontecido, fui embora da festa!

Três dias se passaram e a tristeza ao lembrar sobre o ocorrido, a sensação de nojo pelo que passei e o aperto no coração fez com que eu desabafasse com algumas pessoas.

Com isso, percebi que sim caro(a)s colegas desta Universidade EU SOFRI UM ESTUPRO

22/jan/2014 –  Delito tipificado no artigo 213 do Código Penal, consiste no constrangimento (tolhimento da liberdade, emprego de força ou coação) a alguém (pessoa humana), mediante emprego de violência ou grave ameaça, à conjunção carnal (cópula entre pênis e vagina) ou na prática (forma comissiva) de outro ato libidinoso (qualquer ação que propicie o prazer sexual, como, por exemplo, o sexo oral ou anal, ou o beijo lascivo), assim como na permissão que com ele se pratique (forma passiva) outro ato libidinoso. O crime de estupro e o atentado violento ao pudor foram unificados pela Lei nº 12.015/09 para a figura do artigo 213, que se tornou um tipo misto alternativo. Sendo assim, é crime único de estupro, a prática da conjunção carnal e/ou outro ato libidinoso, contra a mesma vítima, no mesmo contexto. Fundamentação: Artigos 213 e 234-A do Código Penal Artigo 1º, inciso V, da Lei nº 8.072/90.

Demorei muito para entender e perceber o que aconteceu comigo. Isso se dá ao fato que eu mesma como muitas de vocês, que já passaram por alguma situação de violência, se culpam e se escondem de tais atos. As desculpas por parte dos homens são as mais diversas:

  • Eles estavam bêbados não sabiam o que faziam – Mas isso não é desculpa para violentar uma mulher.
  • Era só brincadeira – Violentar alguém não é brincadeira!
  • Mas a minha roupa era ousada – Dane-se, meu corpo minhas regras, NINGUÉM pode me tocar por conta disso.

“Andar em um espaço público não torna o meu corpo público”

Entender essas violências como algo normal, só legitima a cultura do estupro, que ainda é extremamente normatizada. – Que eu (mulher) sou louca e histérica e levei isso muito a sério – Não podemos normatizar violência!!! A culpa é sempre da vítima, seja pela roupa, por andar sozinha, por ser livre! A mulher, quando reage a agressão é sempre taxada de louca, histérica e isso não é de hoje. A cultura do patriarcado reforça que a mulher tem que ser submissa e se sofreu alguma agressão é porque fez por onde. Por ser cultural, reproduzimos atitudes e discurso como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Hoje com maior discernimento do que ocorreu posso dizer não, eu não sou louca, histérica e fui violentada de forma machista e racista! Por isso, apesar de me doer muito falar sobre isso, por meio desse manifesto, desse grito de uma mulher negra, quero deixar registrado minha tristeza e repúdio ao ocorrido. É uma forma de fazer todos nós e principalmente os homens, repensarmos nossas atitudes, antes de reproduzir uma cantada idiota, uma passada de mão na “mina” numa festa, das piadas escrotas com mulheres no círculo de amizade heteronormativas, dentre outras atitudes que só reforçam a cultura da opressão sobre as mulheres. O fato de não me expor também é devido a vítima muitas vezes sentir medo, vergonha e esses são os sentimentos que tenho agora além da força para escrever essa carta. Esse manifesto é para que todas as mulheres que já foram e são assediados, violentadas fisicamente, verbalmente e na sociedade em geral… vocês não estão sozinhas! Nós mulheres somos como as águas, crescemos quando nos encontramos! Não me calarei diante desse absurdo! Gritamos não por histeria e sim para colocar para fora toda a opressão que vivemos!

 

“Além disso, o seguinte: sou negra e mulher. Isso não significa que eu sou a mulata gostosa, a doméstica escrava ou a mãe preta de bom coração. Escreve isso aí, esse é o meu recado para mulher preta brasileira. Na boa”

Lélia Gonzalez