se não se pode dever a alma a ninguém
por que um dia se deveu a liberdade a brancos, como vocês, como seus pais e avós?
avós donos de escravos, que disseminaram o racismo e o ódio contra negros
que davam a liberdade por cartas de alforria em agradecimento aos bons serviços prestados, quanta generosidade!
(mas só depois da morte do seu dono)
que compravam escravos sem nome
objetos perfeitamente descritos em sua serventia e função
função de servir, de apanhar, de morrer, de dar de mamar, de fazer todo o trabalho sujo que as madames sinhás e os senhores de engenho diziam ser dignos demais para fazer

hoje seus netos nos vêem
com nome, com liberdade – arrancada com os dentes, de luta em luta
construindo sua própria função dentro da sociedade
e não aceitando passivamente o porão

chegamos às universidades e não chegamos quietos
não precisamos falar nada para fazer barulho
nossa cor ecoa nos corredores acadêmicos gritando
AQUI TEM SANGUE NEGRO

resolvemos então falar
nossa pele já fala por nós, mas também queremos falar
falar sobre o que sofremos, falar sobre o que sentimos, falar sobre o que acontecia no porão
enquanto os gatos no andar de cima faziam a festa
queríamos contar como é ser o rato perseguido
cuja única saída para sobreviver era se esconder em uma toca e de lá não sair
até acreditar ser lá o seu lugar

queríamos contar que descobrimos que lá não é nosso lugar
mas o barulho não é cômodo
“quem tirou os ratos do porão?
por que fazem tanto barulho?
estão querendo nos dominar!
não devemos nada!
estávamos apenas dançando inocentemente enquanto eles sofriam nos porões
continuaram lá porque queriam
tinham preguiça de ver o mundo lá fora
vagabundos!
o que podemos ter a ver com isso?”

de certo não tem passado essa gente felina
esqueceu dos seus avós
estuprando minhas antepassadas
abandonando seus filhos
vendendo-os junto com a mãe para ganhar mais dinheiro

os mais bonzinhos até nos deixam beber o mesmo leite que eles
mas não a mesma quantidade, se não seria privilégio!
nos elogiam porque somos ratos com alma de gato
nos dizem ratos bonitos e exóticos, porém nada comparados a um gato perfeitamente padronizado
nos dizem até “ratos da família”
e se gabam de defender a igualdade entre espécies
enquanto apenas nos escondem no porão de forma mais sutil

os filhos sem nome hoje têm nome
têm voz
sabem do seu papel e da sua força
saíram dos porões e dizem “vocês nos devem até a alma”
mas os gatos têm razão quando dizem que não nos devem a alma

nos devem muito mais

nos devem o sangue, o suor, o leite, as mãos calejadas, os pés machucados por não poder usar sapato, as chagas nas costas das chibatas dos castigos, os cabelos caídos na tentativa incessante de buscar um cabelo-liso-de-sinhá, os prendedores de roupa colocados no nariz na tentativa de afiná-lo, o pó de arroz colocado em demasia na esperança de clarear-se o tom da pele, a calvice prematura de tanto puxar os cabelos para amarrá-los e esconder as origens, a identidade e o reflexo do espelho negados que tanto nos doíam

nos devem a liberdade que nos tiraram e nunca nos devolveram

entramos na casa grande e sentamos na sala de estar
sirvam o chá.