A produção brasiliense Das Raízes às Pontas, documentário curta-metragem dirigido por Flora Egécia, será exibido pela primeira vez no Cine Brasília no próximo dia 17. O evento terá também uma exposição com obras de diversos artistas que colaboraram com a produção, além de uma Feira Afro, tudo ao som de Deejay LM e DJ Donna.

O documentário apresenta as experiências pessoais e as transformações de pessoas com diferentes perfis que de alguma forma se reaproximaram da sua origem. Os entrevistados, dos mais diversos perfis, falam sobre o papel do cabelo crespo como elemento do tornar-se negro e como ato político contra imposições estéticas.

Making of Entrevista Sheron Menezzes_Foto Ana Luiza Lima-2

Questionar os padrões de beleza, que são impostos cada vez mais cedo, além de tratar a afirmação do cabelo crespo como um dos elementos fundamentais da identidade negra são a principal temática do filme, que também avalia a aplicação da Lei 10.639/03 que regulamenta o ensino da História Afro-Brasileira e Africana nas escolas brasileiras.

Concebido pelo Estúdio Cajuína e produzido em parceria com a Leni Audiovisual, o documentário surgiu de diversas experiências da equipe. Débora Morais, uma das roteiristas, é professora da rede pública de ensino do Distrito Federal e sugeriu pautar a questão da construção da identidade, passando pela infância e com ênfase no cabelo crespo. A diretora Flora Egécia é mulher e negra, e viu no filme uma oportunidade de dar voz a um movimento crescente de afirmação e resgate da cultura afro-brasileira, já que possui um posicionamento político e artístico sobre o tema. Na equipe do filme encontramos outras histórias e o desejo em comum de mudar a perspectiva social.

Entrevistada Melina Marques_Foto Janine Moraes

A produção teve financiamento parcial do FAC – Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal e sua conclusão foi possível graças à campanha bem-sucedida de financiamento coletivo no Catarse, que contou com colaboração de diversos parceiros de Brasília, entre empresários e artistas.

O filme também será exibido em festivais de audiovisual pelo país e distribuído nas escolas públicas do Distrito Federal, além de estarem previstas palestras exclusivas para educadores.

O Blogueiras Negras teve a oportunidade de bater um papo com a diretora Flora Egécia sobre o filme, sobre ser mulher negra e as expectativas em torno do filme. Acompanhe.

Flora Egécia

Blogueiras Negras :  Como tornou-se diretora de cinema?

Flora Egécia: Me formei em Desenho Industrial e também estudei fotografia durante a graduação. Alguns anos após minha formatura desenvolvemos – eu e meu sócios do Estúdio Cajuína – um projeto documental sobre moradias improvisadas, durante um ano, que se transformaria em uma exposição fotográfica, o inEspaço. Durante a pesquisa e produção das fotografias, nós fizemos um registro audiovisual de todas as entrevistas e esse material se transformou em um documentário, que foi bem aceito e teve uma boa repercussão. Após essa experiência fiquei mais interessada em trabalhar com cinema, passei a pesquisar mais sobre documentário e nesse mesmo período surgiu a ideia de fazer o Das Raízes às Pontas, há 3 anos.

BN:  Como analisa as atuais políticas culturais para o audiovisual no Brasil? E como a população negra está incluída nessas políticas?

FE: Nos últimos anos, aumentaram significativamente a quantidade de editais e oportunidades nessa área, a variedade de verba e formato tem colaborado inclusive com o cinema independente. Não considero que chegamos ao ideal, mas a ampliação desse financiamento é visível. Porém, assim como a nossa presença em todas as etapas das produções audiovisuais, as políticas que visam equilibrar esse acesso ainda são poucas. O cinema ainda é majoritariamente masculino e branco. Recentemente pudemos acompanhar o Edital Curta Afirmativo, que chegou a ser suspenso, e ficou claro os obstáculos enfrentados para aplicar essas políticas. No caso do Curta Afirmativo a premiação era de 100 mil reais, um valor baixo para uma produção cinematográfica, portanto além de mais editais precisamos também de valores mais condizentes com o custo de fazer um filme.

BN:  Como foi a experiência de trabalhar com meninas e mulheres negras que nunca haviam sido estrelas de um filme?

FE: Apenas duas entrevistadas já estavam habituadas a esse tipo de exposição, a cantora Ellen Oléria e a atriz Sheron Menezzes, para as demais era uma novidade e me emocionou muito a doação de cada uma para o filme. Apesar de conhecer várias pessoas que se enquadravam nos perfis que eu buscava, optei por convidar personagens que não fizessem parte do meu círculos íntimos, pois estava disposta a conhecer histórias e opiniões que não necessariamente fossem condizentes a minha. E as histórias que ouvi se cruzavam constantemente com a minha, seja a sensação de insegurança ou de empoderamento… A experiência mais marcante, sem dúvida, foi com a Luiza, que tem 12 anos e é a entrevistada mais jovem. Ela tem, hoje, uma relação tão positiva com sua identidade que nem eu, nem as demais entrevistadas tínhamos nessa idade. Penso que talvez eu não tenha até hoje, esse processo de empoderamento e reconexão com a nossa origem cultural é algo vivido 24 horas por dia, de forma intensa. A nossa ideia é com o filme colaborar com uma mudança que resulte em várias Luizas na próxima geração.

BN: Que caminhos Flora Egécia sugere para que mais mulheres negras ocupem o campo do audiovisual em situação de liderança?

FE: Estou no início da minha carreira audiovisual e me relacionar com outras diretoras negras acrescentou à minha experiência, essa união é importante. Nós temos que assumir um lugar de fala potente, construir as histórias e não reproduzi-las, essa é a posição dos diretores e diretoras audiovisuais. Também precisamos exaltar e relembrar os diretores e diretoras negras que já faziam cinema no último século, eles não são devidamente reconhecidos e precisam ir além do nosso circulo de ativismo, precisamos trazê-los conosco.

BN :  Quais os pontos mais marcantes nos depoimentos destas meninas e mulheres sobre sua relação com o cabelo crespo diante de um cenário tão racista, como é o cenário brasileiro?

FE : Acredito que seja a naturalização desses processos de embraquecimento desde a infância quando geralmente sofrem seu primeiro alisamento. A mascaração do cabelo natural se torna algo tão natural e necessário quanto tomar banho. E nesse contexto a “naturalização” nunca teve um sentido tão negativo, vem acompanhado de muita insegurança e medo, destruindo nossa autoestima. Esse estímulo sempre é externo, ninguém nasce convicto de que tem um cabelo certo ou errado. Outro ponto que foi marcante e que deve ser discutido é que dentre os cabelos crespos e do sistema racista em que vivemos existe o cabelo com a textura menos desejada ou aquela que não “forma cacho” e a maioria das nossas (escassas) referências na mídia ainda são de mulheres com traços finos, com a pele clara e um cabelo considerado ideal dentre as possibilidades de fios crespos e cacheados. Esse cenário torna ainda mais difícil a compreensão de cada uma de nós em relação ao nosso corpo.

Serviço

Lançamento – Da Raiz as Pontas
17 de Novembro – Cine Brasilia
EQS 106/107 – Asa Sul,Brasília – DF,70345-400