Desde o dia 19, está acontecendo no Caixa Belas Artes a mostra AFROFUTURISMO: CINEMA E MÚSICA EM UMA DIÁSPORA INTERGALÁCTICA”, que exibirá 21 filmes (entre longas e curtas-metragens) que abordam a diáspora negra pelo mundo à fora. O projeto tem patrocínio da CAIXA e do Governo Federal. As sessões acontecem até dia 02 de dezembro.
Os documentários, ficções e filmes experimentais da mostra combinam elementos de ficção científica histórica, fantasia, afro urbanidade e realismo fantástico, com cosmologias não-ocidentais. A proposta lança luz sobre a diáspora África-América, no passado e no futuro.

O Afrofuturismo é uma manifestação artística que teve início na metade do século XX. Embora tenha começado a se desenvolver no campo musical, existem artistas do cinema, da literatura, da fotografia e das artes visuais que se inspiram na estética e no conceito do movimento.  

Culturalmente, o termo aparece pela primeira vez nos anos 90, usado pelo teórico Mark Dery, incluindo as propostas de diversos artistas que trabalhavam questões afroamericanas pelas lentes da ficção cientifica e da tecnologia, não apenas no campo musical. Dessa forma, podemos destacar a produção literária de escritores como Samuel R. Delany e Octavia Butler, assim como os trabalhos de artistas visuais como Rammellzee e Cauleen Smith, na consolidação estética do movimento. Na música, os destaques ficam para nomes como Lee “Scratch” Perry e seu dub lunático e o jazz interplanetário de Sun Ra e sua “Arkestra”.

O objetivo da Mostra Afrofuturismo é exibir filmes que contem a história do movimento e, ao mesmo tempo, apresentar produções que estética e conceitualmente se inspiram nas propostas afrofuturistas.

Cena do filme “Ornette: Feito na América”, 1985

 

Conversamos com a curadora da mostra, Kênia Freitas – jornalista, professora e pesquisadora de Comunicação. Atualmente, pós-doutoranda de Comunicação, na Universidade Católica de Brasília. Formada em Comunicação Social, jornalismo na UFES. Mestrado é em Multimeios na Unicamp. Doutorado em Comunicação e Cultura na UFRJ. E mulher negra – para saber mais sobre a mostra e sobre o movimento Afrofuturista, relativamente novo aqui no Brasil.

A afrofuturismo brasileiro surge em dois longas-metragens, “Bom dia, eternidade”, uma ficção hiperrealista sobre o cotidiano fantástico de uma família negra paulista, e “Branco Sai, Preto Fica”, filme que mistura elementos do documentário e da ficção científica para reescrever um evento trágico de brutalidade policial em Ceilândia (DF).
Além dos longas, quatro curtas marcam a presença brasileira na mostra: “Quintal”,“Beatitude”, “Rapsódia” e “Yansan”.

BN:Como o Afrofuturismo não é maciçamente conhecido no Brasil, podes explicar às pessoas o conceito do movimento e qual é a intenção da Mostra?
K:O Afrofuturismo é um movimento estético, político e crítico plural e multifacetado. A característica em comum das obras afrofuturistas é uma narrativa alternativa e fantástica para as experiências das populações negra no passado, no presente e no futuro. Ou seja, é um movimento que parte das realidade históricas e sociais e propõe fabulações, releituras, reinvenções. Tanto com o objetivo de reinterpretar o passado, quanto o de fantasiar o futuro. Na construção dessas narrativas, as obras afrofuturistas misturam elementos da ficção científica, do hiper-realismo e da fantasia, das diversas mitologias de origem africana. É a partir desse definição que estamos propondo a mostra.
A intenção da mostra Afrofuturismo é exibir filmes que contem a história do movimento. Para isso, iremos exibir filmes que retratam a vida e obra de figuras que são consideradas precursoras do movimento, como os músicos Sun Ra e Lee Scratch Perry e o escritor Samuel R. Delany.
E, ao mesmo tempo, a mostra apresentará produções mais recentes que estética e conceitualmente se inspiram nas propostas afrofuturistas.

BN:Qual foi a sua preocupação na curadoria dos filmes? Além da temática afrofuturista, algo mais guiou suas escolhas?
K:Em se tratando de um movimento muito plural e de manifestações artísticas bastante diversas entre si, a maior preocupação foi a de tentar equilibrar na programação esses muitos afrofuturismos. Assim, houve a preocupação de trazer filmes de décadas diversas – começamos no início dos anos 1970 e temos na programação também filmes lançados ainda em nesse ano de 2015.
Em relação a essa produção mais recente (feita de 2010 para cá), me interessava muito exibir os filmes de diretores e diretoras negras que estão participando ativamente das discussões e da construção do Afrofuturismo como um potencial estético e político – como a France Bodomo, de “Afronautas”; Nosa Igbinedion, de “Oyá: a ascensão dos Superorixás” e Wanuri Kahiu, de Pumzi.
E, apesar da maioria dos filmes ser de origem norte-americana, procuramos sempre que possível programar filmes de outros países. Temos assim, um curta-metragem da Nigéria (Oyá: a ascensão dos Superorixás) e outro do Kenya (Pumzi), além do longa-metragem Crumbs, uma co-produção entre a Espanha e a Etiópia. E, claro, temos nossos representantes afrofuturistas brasileiros. Oslongas-metragens, “Bom dia, eternidade”, uma ficção hiperrealista sobre o cotidiano fantástico de uma família negra paulista, e “Branco Sai, Preto Fica”, filme que mistura elementos do documentário e da ficção científica para reescrever um evento trágico de brutalidade policial em Ceilândia (DF). Além dos dois longas, quatro curtas marcam a presença brasileira na mostra: “Quintal”, “Beatitude”,“Rapsódia” e “Yansan”.

 

BN:O movimento afrofuturista ainda é pouco conhecido aqui no Brasil. Quanto aos filmes, houve uma atenção especial para que eles expressassem o movimento?
K:Sim. Sendo um movimento bastante diverso em suas obras e amplo em sua definição, uma das preocupações, como já dissemos, foi a de equilibrar abordagens diversas. Inclusive tentando ir além do campo audiovisual. Até porque se hoje em dia, existe uma produção cinematográfica que é assumidamente afrofuturista, até algumas décadas as maiores expressões afrofuturistas estavam na literatura e, sobretudo, na música.
Por isso a proposta de uma viagem intergaláctica não apenas no cinema, mas também no campo musical. Sun Ra, Lee “Scratch” Perry e Ornette Coleman são os nomes apresentados em alguns dos títulos da mostra.

BN:Vemos, por exemplo, que muitos são protagonizado por homens, houve preocupação com as questões das mulheres ou a forma em que estão retratadas nos filmes?
K:Dos 21 filmes programados temos apenas seis dirigidos por mulheres – o que mais do que uma opção da curadoria, diz muito sobre como o cinema ainda é predominantemente feito por homens e tendo homens como protagonistas.
Desses seis filmes dirigidos por mulheres, cinco são protagonizados por mulheres negras. E são um dos poucos do escopo geral com as mulheres negras como heroínas e protagonistas isoladas. O que diz bastante do que acontece quando temos mais mulheres produzindo e dirigindo filmes. Passamos de musas à heroínas.
Assim, ao mesmo tempo que senti a necessidade de passar por toda a história do movimento e tentar equilibrar filmes diversos em um panorama mais amplo, é um prazer especial exibir esses filmes femininos e feministas, destacando o protagonismo das mulheres negras.

BN:Há algum filme que acredita expressar de forma mais determinante o que é o movimento? Por que?
K:Os filmes são bastante diversos entre si e desde o início essa é a proposta da curadoria: não utilizar a definição de Afrofuturismo como um conceito fechado ou um ponto final. E sim, pensar o movimento como uma possibilidade de abertura, como um local de partida para outras reflexões. A questão do Afrofuturismo é a de como é possível imaginar de outras formas as narrativas dos afrodescendentes? Como propor futuros alternativos para presentes que ainda são marcados pela violência e a opressão econômica e social? A fantasia, a ficção cientifica, as mitologias ancestrais, são todas formas de criação de mundos e realidades e diante de sociedades ainda predominantemente marcadas pelas desigualdades raciais, reivindicar esse local de fala e criação do novo me parece o grande mérito do movimento. Assim, é muito difícil destacar apenas um dos filmes como a expressão mais determinante do movimento.


BN:Qual a maior aposta da Mostra?
K:Estamos muito felizes de termos conseguido trazer o Space Is The Place para ser exibido em película. O filme é uma co-criação do genial Sun Ra e traz de forma muito exemplar o Afrofuturismo do músico. A narrativa mistura muitas estéticas diferentes e é a história do viajante interplanetário Sun Ra e sua arkestra na tentativa de resgatar os negros norte-americanos de sua condição marginalizada no planeta Terra. É um filme da década de 1970 e que fala diretamente com a geração que é a herdeira das lutas dos anos 1960. E apesar, das conquistas e das lutas da década anterior, Ra aponta para a necessidade de mais, para um futuro intergaláctico. Enfim, é um dos filmes que considero imperdíveis na programação.

BN:Sobre as produções cinematográficas negras no Brasil, sobretudo lideradas por mulheres negras, quais as perspectivas? Existe algum crescimento de nossa atuação neste campo? Caso não haja, a que você atribui e o que sugeres como política pública para aumentar nossa participação como produtoras cinematográficas?
K:Claro que houveram avanços. Mas a perspectiva ainda é muito pouco animadora. São ainda poucas as mulheres negras produzindo, escrevendo, dirigindo ou pesquisando cinema no Brasil – se compararmos com a representação de outros segmentos nesse mesmo campo.
O cinema é uma arte ainda de produção elitizada. Mesmo com as muitas transformações e barateamentos no campo, continua sendo algo caro de se produzir e que também depende de todo um esquema de distribuição. Não se dá para ignorar isso. Eu acredito que a luta por mais representatividade das mulheres negras passa pela conquista dessas formas de produção e financiamento: os editais, os projetos, as oficinas, entre outros.

 

Programação:

Quinta-feira, 19 de novembro
16h – Sessão de curtas 1: Afronautas (Afronauts), Pumzi (Pumzi), Quintal, Robôs de Brixton (Robots of Brixton)
18h30 – Polymath: a vida e as opiniões de Samuel R. Delany (DVD / 2007 / 75min / 16anos) e Orquídea (DVD / 1971 / 32min / 18 anos)

Sexta-feira, 20 de novembro
16h – Sessão de curtas 2: Beatitude,  Oyá: a ascensão dos Superorixás (Oya: Rise of the Suporisha), Rapsódia para um homem negro, Yansan
18h30 – Branco Sai, Preto Fica (DCP / 2014 / 93min/ 12 anos)

Sábado, 21 de novembro
16h – Drylongso (Digital / 1998 / 86min / 12 anos)
18h30 – Space Is The Place (35mm / 1974 / 85min / 18 anos)

Domingo, 22 de novembro
16hBom dia, eternidade (DVD / 2010 / 98min / 10 anos)
18h30 – Crumbs (DCP / 2015 / 68min / 18 anos)

Segunda-feira, 23 de novembro
16h – Polymath: a vida e as opiniões de Samuel R. Delany (DVD / 2007 / 75min / 16anos) e Orquídea (DVD / 1971 / 32min / 18 anos)
18h30 – Sessão de curtas 1: Afronautas (Afronauts), Pumzi (Pumzi), Quintal, Robôs de Brixton (Robots of Brixton)

Terça-feira, 24 de novembro
16h – Sessão de curtas 2: Beatitude,  Oyá: a ascensão dos Superorixás (Oya: Rise of the Suporisha), Rapsódia para um homem negro, Yansan
18h30 – Bom dia, eternidade (DVD / 2010 / 98min / 10 anos)

Quarta-feira, 25 de novembro
16h – Crumbs (DCP / 2015 / 68min / 18 anos)
18h30 – Branco Sai, Preto Fica (DCP / 2014 / 93min / 12 anos)

Quinta-feira, 26 de novembro
16h – Drylongso (Digital / 1998 / 86min / 12 anos)
18h30 – Sun Ra: A Joyful Noise (Digital / 1980 / 60min / Livre)

Sexta-feira, 27 de novembro
16h – Ornette: Feito na América (Digital / 1985 / 85min / 12 anos)
18h30 – Upsetter: A vida e a música de Lee Scratch Perry (Blu-ray / 2008 / 95min / 18 anos)

Sábado, 28 de novembro
16h – Sun Ra: A Joyful Noise (Digital / 1980 / 60min / Livre)
18h30 – PALESTRA: AFROFUTURISMO NO BRASIL (entrada gratuita com retirada de senha no local)
23h30 – Space Is The Place (35mm / 1974 / 85min / 18 anos)

Domingo, 29 de novembro
16h – Upsetter: A vida e a música de Lee Scratch Perry (Blu-ray / 2008 / 95min / 18 anos)
18h30 – Uma supersimplicação da sua beleza (Blu-ray / 2012 / 84min / Livre)

Segunda-feira, 30 de novembro
16h – Nascidas em chamas (DVD / 1983 / 80min / 18 anos)
18h30 – Bem-vindo ao Terrordome (DVD / 1995 / 90min / 18 anos)

Terça-feira, 01 de dezembro
16h – Uma supersimplicação da sua beleza (Blu-ray / 2012 / 84min / Livre)
18h30 – Ornette: Feito na América (Digital / 1985 / 85min / 12 anos)

Quarta-feira, 02 de dezembro
16h – Bem vindo ao Terrordome (DVD / 1995 / 90min / 18 anos)
18h30 – Nascidas em chamas (DVD / 1983 / 80min / 18 anos)

Serviço:
Onde:
Caixa Belas Artes – Sala Aleijadinho – Rua da Consolação, 2423, Consolação
Quando: De 19 de novembro a 2 de dezembro. 16h (todos os dias), 18h30 (todos os dias) e 23h30 (aos sábados)
Quanto: R$ 14 (Inteira) e R$ 7 (Meia). Para assistir a todos os filmes da mostra, R$ 40
Bilheteria: Das 13h até 20 minutos após o início da última sessão.
Para mais informações:  (11) 2894-5781