Quando falamos sobre educação, é importante analisar que historicamente temas como gênero, diversidade, raça e feminismo, entre outros, não fazem parte do currículo escolar e geralmente são silenciados nos bancos escolares. No entanto, esse silenciamento tem consequências na formação das crianças e jovens, que muitas vezes têm de lidar sozinhos com questões pertinentes à construção de sua identidade e difíceis de compreender e lidar sem acompanhamento.

É importante reconhecer que muitos de nós internalizamos o machismo e o reproduzimos cotidianamente muitas vezes sem perceber, contribuindo para a manutenção da superioridade masculina e da subalternidade feminina. Ensinamos às meninas que elas devem se adequar a um padrão socialmente imposto enquanto muitas vezes afrouxamos as regras no caso dos meninos e entendemos alguns de seus comportamentos não como problemáticos, mas como “naturais”. Porém é importante pensar em como o conceito de masculino e feminino é socialmente construído.

Na sociedade temos papéis pré-estabelecidos para homens e mulheres e desde cedo as crianças já são ensinadas a seguir um determinado padrão de comportamento, independentemente de suas características e dos traços de sua personalidade, que não são levados em consideração no processo de construção social do que é ser menino ou menina, homem ou mulher. Nosso imaginário social está impregnado de valores e de ideologias que seguimos tentando encaixar as pessoas em conceitos já prontos, mas quando encontramos alguém com um comportamento que nos tira de nossa zona de conforto, deixando-nos confusos, tendemos a rejeitar tal pessoa e a associá-la a um desvio de comportamento.

Os conceitos que construímos ao longo de nossa história, muitas vezes sem questionamento, influenciam a forma como enxergamos o mundo e lidamos com as diversas situações cotidianas a que somos expostos. Muitos desses conceitos acabam se refletindo em sala de aula e, muitas vezes sem notar, nos tornamos repressores e controladores, criticando aqueles que se comportam de forma não padronizada e, portanto, procurando adequá-los a um padrão considerado ideal seja por meio de nosso discurso mais energético seja por meio de uma punição.

A educação é um lugar privilegiado para a construção não apenas de saberes, mas também de uma visão de mundo impregnada dos valores que são considerados corretos dentro de nossa sociedade. Muitos desses valores são transmitidos sem serem problematizados, como se existissem apenas per si, e acredita-se que devem ser seguidos por todos. No entanto, se analisados profundamente a maioria desses valores reflete uma visão de mundo conservadora, machista, racista, classista que busca manter cada qual em seu respectivo lugar social.

Fazem parte de nosso vocabulário palavras e expressões que trazem implícitos preconceitos que muitas vezes sequer buscamos desconstruir por meio da reflexão e do diálogo. Termos como denegrir, lista negra, mulherzinha, garanhão, povão, entre outros, refletem o racismo, machismo e preconceito de classe tão presentes em nosso dia a dia, no entanto de forma tão sutil que são usados de forma indiscriminada e banalizados.

Nos livros didáticos os protagonistas já são nossos velhos conhecidos. Nos de História são os europeus conquistadores. Nos de Língua Portuguesa são autores consagrados, em geral brancos, hétero, de classe média alta que fazem parte de uma elite intelectual que divulga saberes cristalizados. O ponto de vista apresentado é eurocentrado, as populações africana e indígena aparecem como coadjuvantes, não como sujeitos, mas como assujeitados, vistos sempre do ponto de vista do outro, já que não lhes dão espaço para contar sua própria história, que geralmente aparece apenas quando se fala sobre descobrimento e escravidão.

Não há espaço nos livros e manuais escolares para o protagonismo das mulheres, para contar a história do feminismo, das mulheres guerreiras que lutaram em batalhas, que lutaram pelo direito de trabalhar, de votar, pela independência financeira e sexual, pela valorização no mercado de trabalho, pela representatividade nos espaços de poder, pela igualdade de direitos. Não há espaço para discutir a violência de gênero, o feminicídio, a lei Maria da Penha, o genocídio da juventude negra, a desigualdade de gênero, a diversidade e pluralidade de culturas brasileiras.

Sendo assim, é importante questionar o que as escolas têm feito de modo a contribuir para ampliar os horizontes das crianças e dos jovens, ensinando-as a respeitar, a conviver harmoniosamente e a valorizar a diversidade. Aprisionamos nossos estudantes a opções consideradas mais adequadas para eles de acordo com seu gênero, raça, condição social, reproduzindo estereótipos, ou lhes aceitamos tal qual são e lhes incentivamos a se expressar e posicionar sempre que necessário? O que a escola tem feito para diminuir as ocorrências de preconceito e discriminação?

A escola é um espaço de convívio social a priori e onde as crianças e os jovens passam a maior parte de seu tempo, portanto deve ser um lugar não só de acolhimento, mas de estímulo da diversidade. Temas como gênero, machismo e racismo devem ser abordados cotidianamente de forma a contribuir para a formação de pessoas comprometidas com o respeito a todos independentemente de sua cor, credo, gênero, classe social, orientação sexual.