Poesia não é pra preto.

Ciências não são pra preto.

O cheiro das rosas não é pra preto.

“– Que tem pro preto hoje?”, pergunta o leitor.

Corpus nus, tem samba.

Mulatas, pecado da cor.

Desejo.

“– Sempre quis saber como é uma preta na cama”, insinua o leitor.

Tem polícia na rua.

Vermelho no asfalto

(E na farda)

“– Mais um neguin”, continua o leitor.

Não tem comoção, passeata.

Choro na televisão.

Panelaço à brasileira.

“–Mas ainda tem Pelé pra servir de Rei”, contrapôs o leitor.

 

Quem chora pela maria da esquina

Estuprada e decapitada?

Pelo menino joão de fuzil nas mãos

Achado por uma bala qualquer?

Pra preto não tem lágrimas, não.

“– Preto aqui não diz. Preto escuta. Preto se cala, preto se anula”, conclui o leitor.