A descrição do evento da Festa de Réveillon 2015, no Tênis Clube ou Lawn Tennis Clube – local antigamente usado para se praticar tênis de campo – localizado no bairro Cambuí, em Campinas/São Paulo, avisa que a festa será regada a shows, queima de fogos, buffet completo, espumante Salton Reserva Ouro, uísque e vinho. O pacote custa trezentos reais. E, para curtição da Casa ficar completa, “UM SHOW DE MULATAS”.
Após a abolição da escravatura, no Brasil, a mulher negra passou a atuar como um alicerce de famílias e comunidades negras, arcava com o sustento moral e com a subsistência dos filhos. Das senzalas aos cortiços, tornou-se “mulher de cama e mesa”, ora servindo a seus parceiros ora a seus patrões em relações abusivas. As condições de pobreza e de marginalidade às quais a mulher negra foi submetida, durante séculos de escravidão, refletiram em seu ingresso no mercado de trabalho e na Academia, na escassez de mulheres negras em posições de prestígios e nos maiores índices de celibato e de violência doméstica do Brasil.
São recorrentes festas campineiras em que “mulatas” hiperssexualizadas são exibidas como produtos a serem comercializados. Até quando iremos nos deparar com “comemorações” como essas em ambientes elitizados? Isso nos faz pensar como a mulher negra continua sendo vista: um mero corpo nu, um pedaço de carne descartável a qualquer momento.
DESCARTÁVEL. Ainda é essa palavra que paira no imaginário dos organizadores de “festas” como essas. A representação de nossos corpos é meramente festejo para a nata brasileira?
“–NÃO”.
Em 2015, na 1° Marcha Nacional de Mulheres Negras, em Brasília, as nossas vozes ecoaram contra o racismo, machismo e sexismo, contra relacionamentos abusivos, contra a violência doméstica, contra a coisificação de nossos corpos. Tod@s nós, mulheres negras, gritamos:
“–NÃO!”.
Assim como em tempos escravistas, a figura da mulher negra vem sendo exposta nua ou seminua, servindo como espetáculo, banhado a luxo, para senhores e sinhás. Boa para o sexo e relações superficiais: “branca pra casar, negra pra trabalhar, mulata pra fornicar”. Um corpo animalesco, desprovido de inteligência ou de sensibilidade, sinônimo de sedução e promiscuidade. Um verdadeiro entretenimento para as famílias da elite campineira.

 

Servimos para quê, afinal? Ou melhor, a quem?

Bem-vindos ao Brasil colonial!

 

EM TEMPO: O Tênis Clube de Campinas divulgou uma nota na manhã de hoje se pronunciando sobre a não intenção de ofender ou de gerar qualquer desconforto. Mas fomos em busca de conhecer um pouco mais sobre o clube e bom … parece que o clube vive muito bem e sua bolha da branquidade. Já que seus clientes negros não estão representados em nenhum dos anúncios publicitários e institucionais publicados na página do clube no Facebook.