“Pra quem nunca vai precisar sair do armário pra sociedade, pegar uma mina é fácil.”

 

Assim me disse uma amiga heterossexual, logo após um desabafo meu. Olha só! Ela traduziu para palavras simples o que eu achei que qualquer mulher heterossexual jamais entenderia.

Enfim, estas minhas lágrimas têm local de fala. Esquerda do movimento estudantil, em uma Universidade Federal, em um “curso de elite”. 

Antes, quero ressalvar que, enquanto mulher cis (não sei falar pelas outras caixinhas do lgbt) acredito que não carregamos uma orientação sexual inata, que vamos carregar a vida toda e, que, em um mundo onde o falocentrismo, o patriarcado e a desumanização de tantas mulheres formam sim nossa sexualidade e nossos afetos, não se nasce apenas heterossexual ou não, necessariamente. Mas falo enquanto alguém que, com 8 anos de idade casava as bonecas, e aos 13 sabia que nunca iria pegar ninguém em uma festinha do colégio porque sentia algo que parecia repulsa a qualquer dos meninos, e, ora, sair do armário numa cidade pequena seria estar marcada para sempre (além de afastar qualquer amizade feminina, por exemplo).

Então, falo como alguém que tentou muito! Sentir afeto e querer se relacionar amorosa-sexualmente com os meninos. Tentei tanto (e sei das tantas moças, mães de família, etc, que tentam ao ponto que conseguem, e se mutilam…), tentei mesmo depois que sai dessa cidade pequena. E aí conheci a liberdade sexual, a bissexualidade, a pegação, a teoria queer, a lesbiandade política, a empatia, até a pansexualidade, etc… Conheci tudo que poderia/deveria me libertar. Mas não me libertei. 


E tentaram me libertar de algo que eles nem sabiam o que era e quem sabia não se importava. 

Mas se todo mundo se pega, transam, “se amam”… Por que não eu? Não sou padrão, mas sou negra com a pele mais clara, “traços mais finos”, etc… Por que não eu? Por que eu não quero?

A expressão da lesbofobia nunca me foi tão óbvia. Embora não soubesse que poderia aplicar este termo, lesbofobia ainda me parecia o feminino de homofobia… Mas tudo se fez nítido. 

Minhas referências e minhas amizades que estavam nessa libertação reservavam o afeto (e, não raro, a humanidade) para os homens. Elas pegavam, transavam com mulheres, mas no fim do dia, ao voltar pra suas casas, se fossem apresentar alguém para os pais, andar de mãos dadas na rua, seria com homens. 

Se eu estivesse com uma menina como elas estavam, aquilo não seria uma libertação, seria assumir minha prisão. Querer beijar e amar mulheres nunca me foi libertador. E aí tudo fez sentido.