Escutou a voz de Elza em “Mulher do Fim do Mundo” e ficou pensando se ela mesma não era uma. Olhou a sua volta: o copo quebrado, um livro da Chimamanda e pilhas de cartas de amor que escrevia para si mesma quando achava que o mundo iria esvair-se feito dente-de-leão em dia de ventania.

Era pra aguentar que escrevia cartas.

Antes quando tentava dizer alguma coisa sobre como era tratada em sala de aula quando pequena, do desprezo como a professora a mandava ir para o final da fila ou das vezes nas quais pensou que a mesma iria acariciar seus cabelos por ter ido bem na prova e nada acontecia nem um toque, alguém argumentava serem impressões de uma criança introvertida. Então se calava e escrevia.

Pegou uma das cartas da pilha, era de 1992: “Ricardo falou cruz credo, só porque eu disse que ele é bonito”. Olhos marejados. “Mas eu sou linda! Posso ser o que quiser e um dia ele vai ver isso!”.

Quantas vezes chorava debaixo das cobertas antes de dormir achando que as lágrimas iam esvaziar o peito da dor?

Lembrou-se da primeira vez que participara de uma reunião de mulheres, “mulheres pretas” era como Mariana falava. Foi assim que começou a se sentir confortável em seu próprio corpo. Escutar relatos tão íntimos sobre amor, sexo e violências sem medos a fez ter coragem de olhar para os vazios que carregava. Compartilhar com mulheres tão diversas, experiências tão comuns diminuía a solidão e encorajava a enfrentar a culpa que sentia simplesmente por existir.

“Solidão e culpa forjadas no racismo, não se esqueça disso irmã”.

O tal do empoderamento atravessou a cabeça, a vida, as relações. E agora ela juntava tudo que questionava sua existência. Recolheu o copo quebrado e não foi preciso juntar os pedaços da sua vida: já estava inteira.

Pensou em tantas mulheres: em Dandara, na vizinha, na moça da limpeza, em bell, Sueli Carneiro, em Deise pedindo uns trocados para pedras de desespero, Lélia, Davis, pensou nela mesma e viu mulheres erguerem-se firmes, forjadas em suas lutas pessoais e coletivas, subvertendo a suposta sina da pele preta. Mulheres do mundo (flores) sendo, enegrescendo, lutando até o fim!