Nasce “Mulher”, do grupo As Bahias e a Cozinha Mineira, disco gestado durante os anos da faculdade de História na USP, de raiz meio baiana, meio mineira e também paulistana. As Bahias, apelido das vocalistas e que deu nome ao grupo, são duas mulheres trans. Raquel Vírgina, negra paulistana, é visceral em suas composições e no palco surge estarrecedora e fascinante como a uma queda d’água. Já Assucena, baiana e afrodescendente de uma família judia sefaradita que têm suas raízes na África do Norte, é aquela correnteza aparentemente mansa, que nos enfeitiça aos poucos e nos enreda em seu lirismo. Na sonoridade, a Cozinha Mineira recria o tradicional com a ousadia dos arranjos do mineiro Rafael Acerbi, a ponto de ser improvável dissociar o grupo de importantes movimentos predecessores da música popular brasileira como a Tropicália e o Clube da Esquina.

Não à toa, comparei as duas vocalistas ao movimento das águas. A simbologia da água em amálgama com a figura da mulher é um dos eixos centrais da narrativa estética do disco “Mulher”, assim como a analogia à lógica da vida como processo de devir, de tornar a ser.

A perspectiva de tempo, bem como de espaço, são carros-chefes para se pensar a narrativa que nos conta “Mulher”. A primeira canção, Apologia às Virgens Mães, nos remonta às origens míticas judaico-cristãs da opressão de gênero. “Oh Mães de Jesus, oh virgens, todas virgens/Já choraram teu choro, prantos correm na História/Feito rio que erode do espaço às margens: Trajetória.” Madalenas, Evas, Liliths, mulheres bíblicas arrodeadas pelo peso do pecado e o tabu do sexo. Maria, a mulher do “gozo pré-extinto”, representa a mulher destinada a gerar sem o “pecado” do prazer sexual e a fazer beber aos filhos do seio o “sulco sem dó de seus zelos”. “Quanto tempo tem”, exclama a estrofe final no ritmo de samba, e “não tem eira, nem beira”.

A arte é de protesto, e a figura desta “Mulher” vai se costurando como a um cordão de miçangas ao longo das treze faixas que compõem o disco.

“Quantos tempos teceram teus vestidos de lã?/Quantas tranças os tempos fizeram traçar teus cabelos?” Das tranças de Maria Madalena, Medusas, Dandaras, Helenas, Nzingas, Aqualtunes, Marias da Silva, Marias dos Santos, Marias das Dores, Marias, surge na segunda faixa Josefa Maria, da “terceira década do século 20”.

Em 1930 a industrialização tomava impulso no sudeste brasileiro, receptáculo de um intenso fluxo de imigração nordestina, especialmente em São Paulo, que em analogia com a mítica Belém da bíblia, é para onde migra a nordestina obrigada pela diáspora da seca e impulsionada pelo milagre da metrópole.  “Viu o pé de jaca que plantou no seu quintal crescer”. O universo mítico feminino aí se revela novamente. A figura do pé de jaca remete ao poder genital da mulher na mitologia iorubana, no qual a árvore jaqueira é domínio sagrado das Iya Mi, as grandes senhoras feiticeiras. Já no ritmo, o funk coroa a presença periférica e pobre dessa mulher que “de pele tão branquinha, sois nega”, onde há um ponto nodal que a aproxima das opressões sofridas pela mulher negra.

A água e a seca são elementos centrais que conduzem a narrativa dessa Mulher. As faixas “Lata d’água na cabeça” e “Lavadeira Água” carregam uma imagem compartilhada entre a mulher pobre nordestina e a mulher negra paulistana: a luta pela água na seca do sertão e, na metrópole, a figura das lavadeiras negras no centro de São Paulo que foram riscadas e apagadas como o rio Tamanduateí da memória seletiva de uma história bandeirante. A letra de “Lavadeira Água”, por sua vez, nos traz a ideia da simbiose cosmológica entre a figura da mulher e da água. A Mulher é a própria água em diversas mitologias. Na mesma canção, a Virgem reaparece, desta vez na figura da gruta da anunciação aonde veio anjo Gabriel lhe comunicar que seria ela, Maria, a mãe do filho de Deus, “gruta bruta, coração, Virgem Maria”. Na mística judaico-cristã, a gruta aparece como instrumento de comunicação entre céu e terra. “Olhos nos olhos de Santa Luzia”, a santa que simboliza os olhos, a luz e a visão, é a figura feminina que permitiria ao eu-lírico da canção “olhar pela fechadura a abertura do céu” num ato de pecado e de libertação.

Em “Esperança no Cafundó”, a seca por sua vez vem carregada de lirismo. O determinismo poético, onde “o sol marca sua escrita tão dura na pele e no chão” dá o tom, e o ser se mescla ao ambiente. A prosopopeia traz vida à flor inanimada da seca enquanto o cancioneiro canta e conta onde o verde se trancou: “nos pau d’umbuzeiro”, lá onde reside a dialética da vida e morte no sertão.

“Ó Lua”, um agradável samba-canção, remonta o clássico diálogo romântico da Lua e a mulher, ao passo que também desmonta famosos clichês dessa inspiração. “Dos teus sopros esbanjar meus cabelos. Sou mirrado flor e germino pétalas no asfalto”. O astro que está cosmologicamente imbricado no mecanismo do corpo da mulher mobilizando seus hormônios tanto quanto as marés, é em algumas tradições matrifocais seculares a personificação do divino feminino.

Em seguida, somos presenteados com uma ladainha de berimbau e não a toa é o instrumento tradicional afro-brasileiro de forma fálica que abre a música. Em contraponto ao principio feminino da Lua, adentra a narrativa o seu oposto masculino Sol. “A estrela sobe e faz vida aqui na terra”. Na faixa “Comida Forte”, a imagem do homem se delineia na referência histórica das migrações desta vez para Brasília, anos 50, no advento da modernidade expresso na construção da capital do Brasil. A figura do sertanejo, o candango – termo de origem no quimbundo que significa “ordinário, desprezível” -, desbravando o ermo e fecundando o moderno no coração do país, alimentando a esperança tirar a família da miséria, de conquistar a ascensão social.

Já as músicas “Foi” e “Uma canção pra você (Jaqueta Amarela)” trazem o dilema da ausência do amor. Na segunda e hit do disco, somos transportados para um ambiente de um quarto onde repousa uma “Jaqueta Amarela” sobre a cama. Como se a mulher tivesse despertado do passado, de um sonho carregado em trajetória de todas as gerações de mulheres que a precederam, o rádio a desperta para o presente onde a voz locutora introduz uma canção de amor. Não é mais o chão seco do nordeste, nem a margem do rio da lavadeira. É sobre a “cama que não me ama” que irrompe a catarse entre as quatro paredes de um quarto pintado à natureza morta, donde objetos ganham vida e compartilham, num entendimento secreto, da dor de quem canta. “Cada barro de pele num jarro de flor”. Em “Jaqueta Amarela” canta um corpo “desigual/igual” que nos apresenta o duro dilema afetivo no universo transexual.  “Quem nos media dia-a-dia?/O nosso sexo, amor?/O anexo?/ O nexo?/O x da nossa dor?” O x da questão é o duplo cromossomo que identifica biologicamente uma mulher. Mas, o que é uma mulher? É a pergunta que permeia semanticamente as cartas sobre a mesa. “No baralho, jogo os Ais/Te embaralho, sou dama de paus, caralho!”

“Melancolia” é um samba-canção, ou samba de fossa, daquele nascido no seio da boemia, no moderno samba urbano.  A profundidade poética da letra no movimento em que as sílabas descolam das palavras formando outras faz com o que a própria melancolia ganhe um referencial imagético, o corpo e a forma plasmática que “mima e mela feito cola colando a tristeza em meu corpo”. A habilidade de personificação que as Bahias alcançam em suas composições é impressionante. Não posso ouvir essa décima faixa sem que meu inconsciente encontre numa reminiscência a imagem daquela lágrima doída que mela o rosto, da tristeza que custa a soltar a alma. É, sobretudo, o samba que canta a solidão afetiva socialmente marcada na pele negra pelo “insulto” do branqueamento, quando diz “da minha pele moura, louro sol, louro insulta a minha melanina, louro sultão que então minha dor ilumina, mina de solidão”.

Do moderno ao tradicional, “Mãe Menininha” traz na sequencia o alívio e a redenção do carnaval. É uma homenagem à mulher negra pobre que se tornou uma das figuras mais importantes da hierarquia do candomblé no Brasil e é signo da grande e amável matriarca. “Terra doce e cativante”, a Bahia, ganha um nome e é Menininha. Nesta canção, a imagem da água retorna e ganha novo contorno na figura de Oxum, orixá das águas doces de quem Mãe Menininha do Gantois era filha. “Essa beleza do carma viva e morto”, idealiza o material e ancestral celebrado na festa.

Sorrateira, a faixa “Fumaça” tem a base rítmica de um samba exaltação e a voz em alguns momentos rarefeita que aos poucos nos envolve numa atmosfera dialética entre o cheio e o vazio. E, por fim, “como um ponto após o outro ponto”, a cultura popular tradicional nordestina é apreciada em “Reticências” entre estrofes de repentes e cordéis. Há o retorno da figura de Maria, desta vez na forma da sagrada tríade. “Maria que vela meu sono/Maria que arriba meu véu/Maria que puxa a corda a descarrilhar meu carretel”. Maria onipotente, onipresente e onisciente, a mulher que é o passado, o presente e o futuro. É Maria “que puxa a corda” do tempo.

“Ô Mariquita lá se vai a pipa/Vai descarrilhar meu carretel…” Aqui, a narrativa se encerra, intenta ganhar mundo. No desenrolar das reticências, a obra – objeto vivo -, no contato com o outro – os sujeitos apreciadores -, torna-se um terceiro ser. Nesse encontro entre a arte e o espectador, a obra foge ao controle de seus criadores e “põe-se a cirandar”. Por fim, o sentido da obra é inteiramente costurado, puxado do “ponto de cruz” da primeira canção, até o desenrolar do carretel na última. Entretanto, uma linha fica solta…

A pipa vai desfiando o fio deste ser mulher num eterno tornar-se, como nos disse Simone de Beauvoir.

O disco Mulher é um registro antropológico e historiográfico da trajetória social da mulher. Mulher como substantivo plural e identidade polissêmica, não como personificação de uma figura única e representativa nacional. Mulher que vai do sentido ontológico e cosmológico do ser até sua realidade contemporânea, subjetiva e política. Mulher que dialoga com o tempo e espaço, que é a própria natureza divinizada. A mulher do moderno ao tradicional, de marcante herança negra e sertaneja. É, sobretudo, uma obra dialética, na perspectiva hegeliana, capaz de perpassar inúmeros sentidos da existência feminina. Nas palavras de Conceição Evaristo, “Eu fêmea-motriz./ Eu força-motriz./ Eu-mulher./ Abrigo da semente,/ moto-contínuo/ do mundo.”¹ Por isso desponta como uma das principais obras de música popular brasileira produzidas nas últimas décadas.  

Ouça na íntegra no Youtube:

 

 

¹(A noite não adormece nos olhos das mulheres. EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. 2008)