Nota de repúdio originalmente publicada no NEAB Viçosa

Respondendo a pergunta feita na imagem divulgada no grupo UFV no facebook: Você prefere ser negro ou pagar a faculdade? Sinceramente, eu prefiro que a igualdade racial de fato ocorresse e que pessoas da índole deste anônimo opressor não tivessem no âmbito das redes sociais uma oportunidade de cometer seus atos de violência contra a população negra brasileira ou contra qualquer outro grupo que compõe as minorias sociais.


O Grupo UFV tem um único administrador e as publicações são colocadas pelos integrantes do grupo sem nenhuma mediação, muitas foram as imagens e postagens ofensivas que são em si criminosas, mas do que um direito a expressão. Todos sabem que a sigla UFV é Universidade Federal de Viçosa, imaginamos que uma Instituição pública de Ensino Superior tenha preocupação com quais questões o seu nome é vinculado. A maioria das Universidades sim tem esta preocupação, mas a UFV até o momento não demonstrou nenhum incomodo, talvez alegará não ter ficado a par do que ocorre neste grupo… Mas sabemos que a Instituição sabe policiar as redes sociais quando sente a “necessidade”, um exemplo, é o caso em que pelo facebook a instituição conseguiu provas para processos contra estudantes que integram os movimentos estudantis, então que realize com o mesmo empenho e força tais ações para fazer combater todos estes discursos opressores que envolve o nome UFV na internet.

Sabemos que foi graças as articulações de vários grupos que o movimento social conseguiu trazer mudanças para nossa sociedade, uma delas é o acesso mais democrático às instituições superiores de ensino, embora estas conquistas ainda não estão sendo efetivadas em sua totalidade, temos muito a agradecer a aquelas pessoas que tanto lutaram para uma geração que não é a que conhecemos do passado. Todos e todas devem pensar: “pronto! As minorias estão dentro das Universidades, os problemas acabaram? ” Não, os problemas só começaram. Encontramos dentro das Universidades, não só da UFV, manifestações de incomodo em relação a presença da população negra. Atos de inferiorização de nossas capacidades cognitivas, hostilidades gratuitas daquelas pessoas que não estão “acostumados” em ver o espaço universitário com pessoas provenientes de diferentes classes sociais, religiões, orientações sexuais, gênero e diferenças corporais. Com o avanço das tecnologias, devemos lembrar que a UFV não é somente delimitada por um espaço físico que seria a universidade em si, mas estende-se aos meios de veiculação de informação.

Na Universidade Federal de Viçosa, quando o calouro chega ele ouve do reitor, atualmente, temos uma reitora, palavras amorosas de que a Universidade irá assegurar os seus direitos para que ele possa se formar de maneira íntegra. Entretanto, situações como o Grupo UFV demonstram que discursos não fazem de fato a prática. A Instituição parece não levar em consideração a sua importância para o combate as opressões, ao invés de mobilizar-se juntamente com os alunos que tenham o mesmo interesse para conscientizar sobre a obrigatoriedade do respeito as diversidades que coexistem dentro da Universidade, visto a luta do Fórum de Combate as Opressões a ser reconhecido pela instituição.

A ministra Nilma Lino realizou a aula inaugural da UFV em 2015, uma palestra impactante sobre as responsabilidades em combater o racismo dentro das Instituições de Ensino. Talvez a vinda da referida ministra não causou nenhum impacto na administração institucional, porém muitas das pessoas que estavam presentes consideram aquela presença como uma esperança e uma manifestação de “boa fé” institucional em querer exercer de fato o seu papel social.

“ Você prefere ser negro ou pagar a faculdade? ” Preferimos que tenham negros e negras nas universidades sim! Sem que os façam ter vergonha da sua etnia, que as universidades não tenham dúvidas em apoiar o combate as opressões e principalmente sermos reconhecidos por nossa capacidade de conquistar espaços que são nossos por direito. Estão acostumados a verem o negro em situação de subalterno e sequer alfabetizado, pois assim exercem com mais eficácia o controle sobre ele. A atmosfera de privilégios está desabando, isto incomoda mesmo, por isto os ataques discursivos se tornam mais violentos para deslegitimar nossas conquistas e valorizar uma meritocracia que favorece branco e rico nesta sociedade.

E quando conseguimos com muito custo alcançar alguma coisa dentro desta meritocracia, a brancura ideológica de nosso país se manifesta para implantar em nossa mente que não somos bons o suficiente e que isto é culpa nossa, só nossa e de mais ninguém… estratégias simbólicas de um opressor que nunca dá a cara para bater e só se manifesta por outros, por fakes, assim como ocorre no grupo UFV.

A Universidade Federal de Viçosa tem muitas questões para se preocupar, pois é uma grande instituição. Mas o que vale produzir o melhor doce de leite do Brasil se o pior da sociedade recebe o seu nome nas redes sociais? É necessário alertar a UFV sobre o seu papel e que todos os movimentos estudantis sejam aliados nesta luta contra a opressão. Se este ano é o prazo para alcançar os 50% das vagas a negros, indígenas e/ou estudantes de escola pública se faz necessário uma estrutura institucional que permita o desenvolvimento, acadêmico e humano, destes indivíduos.

A UFV tem o direito de exigir do administrador da página que tire a sigla institucional de um grupo tão absurdo e tem o dever de averiguar e combater atitudes criminosas como racismo, homofobia, intolerância as questões de gênero, entre outros cometidas por seus estudantes nas redes sociais, pois muitas vezes o que os “legitimam” é ter uma matrícula da Universidade Federal de Viçosa e fornecer este status na rede social.
A partir desses apontamentos solicitamos da Universidade Federal de Viçosa ações que sejam combativas as situações de opressão associado ao seu nome nas redes sociais.

Assinam os coletivos:

NEAB Viçosa
Pérolas Negras
Casa Cultural do Morro
Vozes da Rua (JF)
Pretação (JF)
Zé do Black (JF)
CABIO Formigueiro (UFV)
Primavera dos Dentes
Vacas Profanas
CAGEO UFV – Gestão Unigeo
Centro Acadêmico de Biologia – 3 de setembro (UNESP RIO CLARO)
MedCA (UFV)
ANECS –Articulação Nacional dos Estudantes de Ciências Sociais
CALET UFV – Gestão Inspiração
Centro Acadêmico de Biologia Luís Bertolini (UFSCAR )
PET Biologia UFU- Pontal
CAP UNICAMP – Centro Acadêmico de Pedagogia UNICAMP
SAUIPE UFV
Bloco das Pretas (BH)
GRUPO CUME (SP)
Coletivo Revolta Da Lâmpada (SP)
CACIS Livre UFV
CA Ciências Sociais da UFES
DCE UFES
Coletivo Negrada UFES
CACOOP UFV
DCE UFV Ação Coletiva
Coletivo Nós por Nós (RJ)
Grupo Dandara de mulheres negras
Levante Popular da Juventude
Canteiro de Obras- Centro de Cultura e Arte (RJ)
Cursinho Popular DCE/UFV
Coletivo Conajir
Juventude Educafro