A primeira vez que ouvi falar de Mia foi no começo de 2015, pelo Facebook.

Ela solicitou que eu a adicionasse como minha amiga nessa rede social, nenhum problema. Depois verifiquei suas postagens: apresentava-se como uma mulher trans branca, de origem finlandesa, que trabalhava como professora na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Chegou a ser anunciada como a primeira mulher trans com título de doutora em Filosofia na América Latina. Nesse ponto, um comentário à parte: pessoalmente, não gosto dessas notícias de primeira(o) isso ou aquilo, até porque não podemos afirmar, sem sombra de dúvidas, que jamais houve outra pessoa – de qualquer grupo social historicamente discriminado – que alcançou a mesma titulação. Ela ou ele pode não ter divulgado tal conquista. Continuemos.

Legal. Foi minha reação. Bom saber que havia uma mulher trans, em um espaço de privilégio, expondo-se publicamente. Certamente é empoderador, principalmente para os jovens. Não estranhei quando ela colocava selfies em poses forçadas; mas isso é muito comum. Lembrei-me de quando Letícia Lanz me comentou que “a gente [pessoas trans] adora holofotes”. Há controvérsias, mas é bom que pessoas trans valorizem as possibilidades de seu corpo.

O meu primeiro e leve estranhamento foi quando ela se denominou transfeminista. Nunca havia lido nada escrito por ela a respeito ou com um olhar transfeminista, nem mesmo postagens no Facebook. Mas vá, as pessoas confundem ser trans com ser transfeminista. “Tomara que ela, de fato, tenha posicionamentos transfeministas nos diferentes espaços de fala que ocupa”, pensei. Já não bastam as generalizações e afirmações falaciosas que vejo por aí, rotuladas de “transfeminismo”.

Lá pelos meados de 2015 ela começou a ser convidada para eventos em São Paulo, que abordavam a temática da transgeneridade, acompanhando nas mesas pessoas mais conhecidas nesse campo de estudos e vivências. Até então, nenhuma novidade.

Fui convidada para falar em uma mesa sobre transfeminismo na 1ª Conferência Internacional SSEX BBOX, realizada em novembro, na capital paulista. Mia também participaria, de modo que a atividade nos permitiria um encontro pessoal.

Entretanto, começou um ruído. Mia me adicionou a um grupo na internet no qual denunciava a organização do evento de ser transfóbica, por exigir sua documentação civil para que ela pudesse compor mesa. Achei um absurdo, e bem sem sentido. Caso me tivessem solicitado esses documentos (o que não fizerem), eu disponibilizaria de bom grado. Para mim era óbvio que Mia não tinha conseguido alterar seu registro civil e se sentia mal em expô-lo. Reação um tanto exagerada, a meu ver, porém totalmente compreensível.

Ela entrou em contato direto comigo, por meio de mensagens pelo Facebook, pedindo que eu endossasse apoio a sua denúncia, renunciando à minha participação no SSEX BOX. Avisei-a que, antes de tomar qualquer decisão mais grave, eu me informaria com a organização sobre o seu posicionamento, especialmente com uma das integrantes, uma mulher trans que eu conhecia pessoalmente. Mia comentou negativamente, afirmando que a pessoa não havia lhe oferecido qualquer palavra de apoio.

Ao conversar com a integrante do evento, e o próprio coordenador, a situação se mostrou mais complexa do que havia sido pintada pela reclamante.

Os documentos solicitados não eram para participação no SSEX BBOX, mas para que Mia fosse parte de uma equipe de capacitação para um projeto, com vistas a um Edital público, a ser realizado em 2016. As organizadoras informaram que ela reagiu furiosamente à demanda.

Ante à reação inflamada, e cientes da movimentação iniciada para detratação do evento, elas foram consultar o seu Lattes – ele não existia no nome social e, tampouco, no civil, o causou o maior estranhamento. Ainda, segundo elas, o seu nome, civil ou social, não constava como de professora na PUC-SP. E, para concluir, a professora que ela indicava como sua ex-orientadora – de algum nível de pós-graduação – não a reconhecia como sua ex-orientanda.

Evidenciou-se que Mia não tinha os títulos e não ocupava os cargos que ostentava.

Esses títulos e cargos nunca me impressionaram. Nunca suponho que alguém seja mais capacitado – ou menos – em função deles. Mas como psicóloga social, tenho plena consciência de como a mera referência a eles pode afetar positivamente as relações sociais com a pessoa intitulada, em uma sociedade como a nossa, na qual a Educação é vista como indicador mais de status social do que de capacidade prática.

Havia ainda o elemento do racismo pós-colonial: até que ponto as pessoas concordavam – ou se calavam – ante às afirmações de uma mulher branca que se dizia de origem finlandesa. Eventualmente postando no seu perfil no Facebook frases em finlandês que poderiam facilmente ter sido extraídas do Google Tradutor.

Pois bem, ela acabou sendo um assunto de espanto e entreditos durante o evento. E após ele.

Encontrei-me, semanas depois, com pensadores e ativistas negros, durante a I Semana de Negras e Negros da cidade de Rio Grande, no Rio Grande do Sul. Conversando com colegas que fazem uma excelente militância na internet, a partir de São Paulo (Jéssica Ipólito e Stephanie Ribeiro; mas também do Rio, Leonardo Peçanha e eu; e do Recife, Ana Flor), o assunto “Mia” ressurgiu, como a recorrência do trauma que não foi plenamente reelaborado. Algo nos incomodava. Se fosse uma pessoa trans negra, ela teria tido a mesma ressonância junto a tantas organizações e pessoas? Se Mia fosse negra, ela teria sido tão convidada a falar sobre qualquer assunto, como foi?

Decidimos fazer uma pesquisa na internet, e descobrimos pela madrugada, por meio de sites onde aparecem fotos dela, perfis diversos em variadas plataformas, além de documentação pública e de livre acesso, que “Mia” tinha sido jubilada de um curso de graduação da Universidade Estadual Paulista (UNESP), além de outros fatos que aumentaram o nosso espanto.

Entretanto, o que mais nos revoltou, foi a reação de algumas pessoas ante a nossas denúncias, que não acreditavam ou, mesmo ante às evidências, questionavam a nossa denúncia. Outros se dispuseram, como garotos de recado, a ficar entrando em nossos perfis e grupos de discussão, a pedido da desmascarada, para informá-la. Se não fossem os ingênuos úteis, o que seriam dos golpistas e estelionatários de toda espécie?

É claro que tem gente que gosta de ser enganada, mas escurecendo a questão, Jéssica Ipólito foi super feliz ao sintetizar o que estava por trás dessa situação no mínimo patética: essa gente coadunou imediatamente com as afirmações de uma pessoa branca, mas punha dúvidas imediatas às constatações de pessoas negras.

Em suma, essa era mais uma expressão do racismo no Brasil, uma dimensão caracterizada pelo questionamento da idoneidade e capacidade de pessoas negras, em oposto à naturalização da honestidade e capacidade de pessoas brancas. Faces cotidianas do epistemicídio negro (fenômeno de desvalorização, ocultamento ou negação das contribuições do pensamento de pessoas negras, estereotipadas como intelectualmente inferiores a pessoas brancas), como nos ensina Sueli Carneiro.

O problema, importante ressaltar para quem ainda não compreendeu (ou se fez de desentendido), não é “Mia” ser trans ou não. O erro está na falsidade ideológica de se afirmar como alguém com títulos e cargos que não tem, e com isso angariar o aplauso quase automático de quem se conforma a priori com tais informações, que a princípio não deveriam ser mais importantes.

Aliás, no que tange ao debate sobre transgeneridade, considero importante ressaltar que as falsas declarações da pessoa, acerca de suas atribuições, poderiam ser confundidas, erroneamente, com falsidade ideológica, no que tange a sua identidade de gênero, e servirem de pretexto para quem, preconceituosamente, critica o direito à autodeterminação de gênero. Nesse sentido, nós que defendemos esse direito, fundamentalmente humano, não poderíamos deixar “passar em branco” tal episódio.

Nossa questão também não é com os títulos e cargos em si. “Mia” poderia ser desempregada sem graduação que a ouviríamos de bom grado. O que lamentamos profundamente – e partilho esse sentimento com mulheres e homens negros de quaisquer identidades de gênero – é que ainda vivamos numa sociedade como essa, na qual as pessoas se preocupam mais com títulos e cargos do que com conteúdo.

Quantas dessas pessoas e organizações buscaram saber qual era a produção intelectual da convidada antes de assumirem, automaticamente, que ela sabia ou poderia falar com precisão sobre os temas que lhe convinham?

A história traz muitos ensinamentos, porém fala bastante sobre a permanência dos valores questionáveis de nossa sociedade das aparências, na qual a falácia da meritocracia se mostra cada vez mais caduca e guiada pelo perverso ideário da branquitude, em todos os níveis, inclusive no mundo virtual.

Esse não foi um caso isolado, uma picuinha qualquer. Ele cabe para muitas situações enfrentadas por quaisquer pessoas, principalmente neste tempo de hiper-virtualidade. E, nas peculiaridades, fala diretamente sobre o descrédito sofrido rotineiramente por pessoas negras, o que inclui as pessoas trans.

Cuidado: quem você convida, como seu porta-voz, ou de quem você se faz de mensageiro, fala muito acerca de seu olhar sobre o mundo, e como você se posiciona, ou abre mão de se posicionar.