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Este texto provavelmente não será minha escrita mais prazerosa. Será banhado da constante reflexão que deve ser feita sobre quais espaços ocupamos pelo privilégio, pela opressão, pelas dores ou pelo conforto. Mas eu preciso dele. Pra lhe explicar porque não estou sempre aí. E porque tantos não estão.

Não falo mais em espaço coletivos sem demarcar quem eu sou. Quem eu sou? Não (só) o que eu sinto, não (só) quem eu quero ser, mas (só) como me leem, mas o que eu percebo que me traz vantagens ou me traz prejuízos nesse mundo, o que me blinda e o que me expõe. O que eu digo? Sou lésbica, sou mulher negra de pele clara, sou de uma cidadezinha do interior, sou universitária, de um curso considerado de elite, coisas assim. Não digo isso tudo em todos os espaços, mas digo quando sinto que isso forma as minhas vivências que serão pertinentes para determinado espaço. É um exercício interessante, em que a gente se força a refletir minimamente sobre privilégios e opressões.

Acredito que tenho realmente feito este exercício de pouco mais de um ano pra cá. Foi nesse tempo que comecei a me sentir estranha nas coletividades, me retirei delas, de algumas diria que fui expulsa e fui acusada de dividir movimentos, de ser “pós-moderna”… Durante meses acreditei nisso. Me senti egoísta e acreditei que tantos outros e outras que também se afastaram das coletividades eram egoístas e individualistas também.

Pessoas pretas apontando as complexidades das opressões na vida de pessoas negras com peles de tonalidades diferentes, pareceu indiretas para outras pessoas de pele clara deixarem de se considerar negras, não me sentir a vontade espaços com homens e mulheres que fetichizam sexualidades não hegemônicas foi fugir da missão revolucionária, questionar masculinidades tóxicas foi esquecer dos tantos meninos pretos héteros que morrem toda semana e assim por diante. E eu acreditei. Acreditei que eu não era forte o suficiente para pensar no bem maior, em sororidade. Acreditei que não era forte o suficiente para pensar no bem maior, em ubuntu. Mas tantas pessoas que também não se sentiam bem nas coletividades escureceram minhas análises e meus receios, pessoas acusadas de dividir o movimento (lgbt, feminista, negro, todos eles) – coincidência ou não, essas pessoas acumulavam passagens e vivências em mais de um movimento desses.

Quem racha o movimento? Quem divide o movimento? Quem é tão egoísta a ponto de não enxergar o bem maior?

Honestamente, tenho respeito pelos (militantes e não militantes) homens negros heterossexuais, honestamente, não os quero mortos por policiais, pelos professores, por todo mundo. Mas não quero eles nos matando, aos pouquinhos ou aos montes, não quero sua masculinidade tóxica me sufocando, impedindo tantas de nós de falar. Não quero sua postura macho alfa (dentro dos espaços de negritude) ofuscando as falas brilhantes e os desabafos (mesquinhos para vocês) tão necessários daqueles meninos pretos que deslocam a masculinidade, que não vivem a heterossexualidade.

Honestamente, não me digam que a heteronormatividade precisa ser desconstruída assim. Quer dizer, disso eu sei muito bem. Mas não posso mais compor espaços em que essa desconstrução passa pela fetichização e ironias sobre as sexualidades não-hegemônicas. São tantos discursos, que dizem ser inclusivos, mas já não posso (não podemos) mais pedir pra você perceber seu conforto em fazê-los, sua insensibilidade no modo como o joga, sua mentira quando diz “sei que se pra gente é assim, pior é pra mulher preta lésbica”. Mas você não se importa com as expulsões físicas, emocionais e simbólicas que vivemos.

E assim vamos dividindo o movimento. Vamos tirando a coesão da negritude. Vamos até contribuindo para os brancos, nos machucando. Mas não posso fazer diferente. Sou por mim e, saiba bem, quem se afasta é porque em um raro momento de lucidez foi por si. Precisou ser por si, porque na verdade quase ninguém é, porque da nossa saúde mental quem cuida é a gente. E cuidar disso é tão essencial.

Então o negócio é o seguinte, somos negros e negras. Somos complexos. Eu racho com você ao viver o que você chama de não-militância, e você racha comigo não assumindo que somos diferentes. O seu bem maior é assustar a branquitude? O meu, às vezes, é dizer pra alguém que a sexualidade dela não é nojenta, não é pecado. Sei que parece mesquinha, individualista, pequena essa militância, mas aprendi que é o todo do mundo que consigo sustentar.