Nesses tempos, o filme “As Sufragistas” tem ganhado visibilidade e, com isso, o debate sobre o que a película está disposta a retratar ganha como auxílio o emblemático discurso “Ain’t I A Woman?” da abolicionista afro­americana Sojourner Truth, na Convenção de Mulheres em Akron (1851). A reflexão de Truth é relembrada para questionar quais mulheres tem sido historicamente ouvidas. Ela aponta:

“Aquele homem ali diz que é preciso ajudar as mulheres a subir numa carruagem, é preciso carregar elas quando atravessam um lamaçal e elas devem ocupar sempre os melhores lugares. Nunca ninguém me ajuda a subir numa carruagem, a passar por cima da lama ou me cede o melhor lugar! E não sou uma mulher?”

Como se nota, ela explica que as leituras acerca da categoria mulher se dão de formas diferentes e que o tratamento dado às mulheres brancas não é o mesmo daquele recebido por mulheres negras.

Auxiliando à reflexão, no primeiro capítulo de “Mulher, Classe e Raça”, Angela Davis fala como as narrativas sobre mulheres negras se distanciam das que eram/são proferidas em relação as mulheres brancas, em um ponto bem específico: o lar.

“Na opinião de um historiador “as mulheres escravas eram primeiro trabalhadoras a tempo inteiro para o seu dono e depois apenas incidentalmente uma esposa, uma mãe, uma dona de casa.” Tendo em conta que no século XIX a ideologia de feminilidade enfatizava os papéis de mães, cuidadoras, companheiras dóceis e donas de casas para os seus maridos, as mulheres negras eram praticamente uma anomalia.”

Essa citação de Davis é fundamental para a discussão que aqui será proposta, de modo a dialogar com suas palavras em relação às mulheres trans, o feminismo e a condição universal da mulher

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Quando universalizamos ou essencializamos algo, logo acabamos interrompendo a possibilidade de conseguirmos enxergar aquilo pr’além do que foi posto como natural e/ou pré­concebido. Como se existisse um fator, que seria fundamental, para levar tal condição se tornar concreta ou legítima. Quando Judith Butler em “Problemas de gênero” tenta dialogar com a famosa frase “Não se nasce mulher, torna­-se uma”, da filósofa francesa Simone de Beauvoir, a também filósofa pontua “que mulher é um termo em processo, um devir, um construir de que não se pode dizer com acerto que tenha uma origem ou um fim”; para, então, reiterar a visão da construção de gênero como algo feito, sendo “uma prática discursiva contínua”, podendo, assim, sofrer “intervenções e ressignificações” sobre seus conceitos e práticas.

Em maio de 2013, Angela Davis foi chamada para fazer uma fala na Universidade de Chicago para abordar sobre sistema penitenciário e relações de gênero. Pela primeira vez ela tratou da condição da mulher trans não só em relação à prisão, mas também chamou atenção para que o feminismo dialogasse com essas mulheres, na busca de um movimento que pudesse expandir sua visão sobre o que é ser, de fato, uma mulher:

“De fato, durante a segunda metade do século XX, houve numerosos debates sobre como desafiar a categoria ‘mulher’. Houve numerosas lutas sobre quem foi incluída e quem foi excluída dessa categoria”

Davis, após alguns minutos do início do discurso, expõe a incoerência acerca das discussões sobre a categoria “mulher”, pontuando que essa discussão não se iniciou neste momento ­ o que, inclusive, nos faz desmistificar ideias erroneamente tributadas à teoria queer.

“E essas lutas, creio eu, são chaves para compreender porque houve certa resistência por parte de mulheres não­-brancas e também pobres e brancas da classe trabalhadora a se identificar com o movimento feminista emergente”

E, logo após puxar a discussão para o viés da universalização da condição mulher, Davis coloca as mulheres trans em pauta ao discutir sobre a exclusão que somos expostas, assim como as mulheres negras foram, ao tentarmos nos construir a partir de uma perspectiva feminista:

“Mulheres trans têm de lutar para ser incluídas na categoria ‘mulher’ de uma maneira que não é distinta de lutas anteriores de mulheres negras e racializadas que foram designadas do gênero feminino ao nascer.”

Davis expõe um pensamento que vem sendo construído e contra­ argumentado não só por mim, mulher trans e/ou travesti negra, mas pelas próprias mulheres não ­trans negras que converso, dialogo e aprendo: o feminismo, quando absorve noções essencialistas e normativas, acaba excluindo a possibilidade de diálogo, intervenção e participação de mulheres que não são delimitadas ao que foi/é disseminado e representado enquanto categoria “universal”. É o que Djamila Ribeiro fala no seu texto “As diversas ondas do feminismo acadêmico” para a Carta Capital:

“A relação entre política e representação é uma das mais importantes no que diz respeito à garantia de direitos para as mulheres e é justamente por isso que é necessário rever e questionar quem são esses sujeitos que o feminismo estaria representando. Se a universalização da categoria mulheres não for combatida, o feminismo continuará deixando de fora diversas outras mulheres e alimentando assim as estruturas de poder.”

É a partir desse mesmo pensamento que Davis, para mim, dá sua declaração mais rica em relação à participação das mulheres trans no feminismo, vindo reiterar o que Butler propõe sobre “intervenções” no termo/condição mulher:

“Isso nos mostra que o processo de tentar se assimilar em uma categoria existente, de muitas maneiras, vai contra todo o esforço de se produzir algo radical ou revolucionário. E nos mostra que nós não devemos tentar assimilar as mulheres trans em uma categoria que permanece a mesma, mas que a categoria em si deve se alterar de forma que ela não reflita, simplesmente, ideias normativas sobre quem conta e quem não conta como mulher.”

Se Angela Davis, anos atrás, afirmou que “radical simplesmente siginifica ‘agarrar as coisas da raiz’”, hoje ela, de forma bem sucinta, expõe sua verdade sobre o que é construir um movimento feminista que seja, de fato, radical e revolucionário em suas práticas: não compactuarmos com a exclusão, silenciamento e apagamento de mulheres que já sofrem com esse processo nas mãos do patriarcado, do racismo e da hétero­cis­normatividade. Dessa forma, consegue­-se alargar nossa visão sobre o que é ser mulher e deixando de reproduzir noções normativas, conservadoras, racistas e transfóbicas. É a partir desse pensamento e indagação, que Butler é precisa ao questionar:

“Não aplica a visão de “uno” em relação a mulher, uma norma excludente de solidariedade no âmbito da identidade, excluindo a possibilidade de um conjunto de ações que rompam as próprias fronteiras dos conceitos de identidade, ou que busquem precisamente efetuar essa ruptura como um objetivo político?”

Fica a reflexão.

 

BIBLIOGRAFIA:

Butler, Judith. Problemas de Gênero. 1990

Davis, Angela. Mulher, Classe e Raça.

Ribeiro, Djamila. As diversas ondas do feminismo acadêmico. 2015. Disponível em: http://www.cartacapital.com.br/blogs/escritorio­feminista/feminismo­academico­9622.html

Truth, Sojourner. Ain’t I A Woman?. 1851. Disponível em: http://www.samauma.biz/novo/nao­sou­eu­uma­mulher/