“É chamado de mulato
Aquele que é misturado
Um dos pais é de cor negra
Sendo o outro branqueado
Mas a miscigenação
No início da nação
Foi um mal desnaturado.

Nunca foi caso de amor
Como se pode alegar
Era caso de estupro (…)

Essa palavra “mulata”
Ela não me representa
Não sou cria de jumento
Nem de burro sou rebenta
Eu sou filha duma gente
Corajosa e imponente
Com história opulenta.

Não aceito essa carimbo
De “mulata” Globeleza
O meu corpo não é coisa
Pra racista nojenteza
Sei bem mais do que sambar
Pro machismo se acabar
Eu te passo essa certeza.”

(Trecho do Cordel “Não me chame de mulata” de Jarid Arraes)

 

Como consequência do machismo, historicamente, toda mulher é objetificada e tratada como mercadoria sexual, no entanto, a mulher negra tendo a dupla discriminação, o machismo e o racismo, é desumanizada e tratada como a carne mais barata do mercado.

Voltando alguns séculos na história do país, mais precisamente no período do Brasil Colônia, as negras que tinham o tom de pele mais claro e os traços do rosto mais finos, eram escolhidas para trabalhar na Casa Grande e consequentemente ficavam a disposição sexual dos senhores brancos. Do estupro que a história, a literatura e as novelas fantasiaram de amor nasceram os bastardos chamados de mulatos. Mulata ou mulato, é um termo depreciativo (animal híbrido, estéril, produto do cruzamento do cavalo com a jumenta, ou da égua com o jumento), é o resultado da mistura de negro com branco.

Para muitos, ainda hoje, a palavra negro soa como palavrão e por isso o uso da palavra é evitada por muitas pessoas. Quem nunca ouviu de alguém “Ah, mas você nem é negra. É  moreninha”? Ser negra/negro é algo pesado para muitos, afinal, quem quer ser negro no país mais racista do mundo? Sendo assim, os termos mulata, morena, moreninha, da cor do pecado, são usados na intenção de tornar mais suave o fardo de ser negro no Brasil. Descobrir a sua negritude, portanto, é um ato de resiliência, resistência e político.

A democracia racial é o mito que a nossa sociedade criou para vender uma imagem positiva que não coincide com a realidade. Nos dias atuais é durante o carnaval que o mito é reformulado. A mulher negra passa de invisível, já que somos rejeitadas frente a mulheres brancas (que são o padrão de beleza e o modelo para casar) e passamos a ser a “mulata”, a exótica desejada e boa de cama, mas não o suficiente para casar. Nossos corpos são hiperssexualizados que é a reprodução machista e racista em que foi construída a imagem da mulher negra historicamente.

No carnaval a objetificação das negras é naturalizada e personificada na “Globeleza”. É a imagem que é exportada para o mundo, reproduzindo a ideia de que mulheres negras são libertinas e sempre prontas para o sexo. É a preta tipo exportação, porém a preta exportação é aceita apenas no carnaval (festa do pecado, do profano) onde tudo é permitido. A cor do pecado não poderia ser outra se não a preta.

“Quando a mulher negra não é considerada indesejável e repulsiva devido a sua pele, acaba se tornando alvo de objetificação racista, que a exotifica sexualmente. Esses estereótipos acabam naturalizando a violência sexual contra as mulheres negras e limitando sua existência a um limbo de rejeição e indesejabilidade” Jarid Arraes

 

Desde criança aprendemos que nossos corpos não são desejados como o da protagonista da novela, nossos cabelos não são lisos como os da vizinha loira e que nossos traços não são finos como da menina mais popular da escola. Vamos crescendo e aceitando (mesmo sem perceber) a sermos desprezadas, a não termos confiança ou autoestima e aceitar a solidão que é submetida para toda mulher negra. Aceitamos relacionamentos abusivos, e muitas vezes nem sabemos que são abusivos, afinal o amor nos foi negado sempre e quando estamos em um relacionamento não podemos simplesmente abandonar, porque ter alguém ao nosso lado nos torna sortudas. Isso tudo é uma violência muito forte, é uma forma de genocídio (que não se caracteriza apenas com arma do PM na nossa cara). Em síntese, nós mulheres negras sofremos violência desde a infância e isso é genocídio também.

A hiperssexualização do corpo negro feminino promove uma falsa valorização de que deixamos de ser rejeitadas para nos tornarmos aceitas. Muitas mulheres negras não entendem, inclusive, quando uma pessoa branca a convida para sair ou tem algum tipo de interesse afetivo. A neura (ou não) de que a pessoa branca está contigo porque te acha exótica, afinal “ser preta tá na moda” ou porque tem quem queira pagar de “humildão da esquerda”, e isso sempre foi o teto que escuto de muitas irmãs negras. Cria-se a ideia que somos apenas objetos sexuais exóticos para o consumo alheio.

 

“Isso traz grandes obstáculos para que as mulheres negras consigam conquistar algum crescimento profissional e ocupar lugares de relevância em sociedade. As mulheres negras precisam lutar para serem reconhecidas como seres humanos tridimensionais, com gostos, personalidades e características individuais, e não somente seres excêntricos para serem usadas sexualmente por quem quer ‘experimentar algo diferente’.” Jarid Arraes

 

Recentemente a Revista “Azmina – para mulheres de A a Z”, foi até New Orleans, nos Estados Unidos, que tem um dos carnavais mais famosos do mundo, saber opiniões sobre a exposição da Globeleza e a pergunta mais frequente foi o “Porque sempre tem ser uma mulher negra a ser exposta de forma depreciativa?” e “Porque não um casal sambando? Porque não um homem sambando nú?” indagou uma moradora de New Orleans.  

A resposta é simples: vivemos ainda resquícios da escravidão no Brasil. As mulheres negras eram constantemente estupradas pelo senhor branco e carregava o estigma daquela que deveria servir sexualmente aos homens. Hoje nós negras continuamos atreladas a visão racista secular que dizia que só servimos para o sexo sujo e selvagem. Não se trata, portanto, de uma escolha deliberada ou livre, vivemos numa sociedade em que o corpo feminino foi e é associado a objeto de prazer do homem. Portanto, para além da objetificação, nós negras queremos inclusão e visibilidade, não de forma depreciativa, estereotipada ou subalterna que nos foi imposta desde o período colonial. Nós negras não aceitamos mais e estamos cansadas de ser a carne mais barata do mercado.

 

Referência:
ARRAES, Jarid – A carne mais exótica do mercado. Disponível em: http://blogueirasnegras.org/2013/07/22/a-carne-mais-exotica-do-mercado/

  • Em décadas passadas, o assunto poderia passar despercebido, pois até os órgãos políticos usavam a mulher brasileira (principalmente, a figura da “mulata”) para atrair turistas estrangeiros. Não esqueço o desconforto que eu e duas amigas sentimos quando visitávamos o Museu da Silva no Benin e lá encontramos um cartaz de uma mulher brasileira numa campanha publicitária para divulgar o país. Pasmemos quando vimos que o cartaz era da responsabilidade de um órgão oficial responsável pelo turismo no Brasil. O material de divulgação datava da década de 1980 ou 90; não sei precisar o ano.

    Hoje em dia, parece-me que a Embratur aprendeu a não usar mais a mulher desrespeitosamente em suas campanhas publicitárias. Entretanto, vemos uma mídia caduca ainda incorrendo no mesmo erro (melhor, crime). Em Lisboa (e acredito que em qualquer cidade onde mantenha filial), a TV Globo trata a mulher negra brasileira com desrespeito e vilipêndio. Se alguém passar próximo à TV Globo em Lisboa, verá o ultraje: a mulher negra brasileira, de braços abertos, disponível para olhares e comentários invasivos e punitivos. Olhos e línguas vorazes que se dirigem ao corpo dessa mulher, descoberto e desprotegido do clima e do moralismo colonialista.

    Obrigado por trazer à baila este contraste entre a supervisibilização da mulher negra em tempos de carnaval e o silenciamento forçado a essa mulher em outros períodos. O seu texto mostra que a nossa sociedade está mudando, mesmo à força, mas está, pois não podemos calar.

  • ivanhoe poubel

    Perfeito!

  • rita

    Texto maravilhoso!!