Pisar nas pedras da Pedra do Sal – monumento histórico e religioso tombado aos 27 de Abril de 1984 – é como pisar nas pedras da Praça Tiradentes construída com a ajuda do Mestre Monarco da Portela: é testemunhar uma parte da história do samba no Rio de Janeiro, que se confunde com a história da própria africanidade brasileira. (Vale lembrar que o tombamento não é consenso entre os moradores do Morro da Conceição, que aninha a Pedra do Sal.)

Chamada de Pequena África, a região da Saúde e da Gamboa – área revitalizada da Zona Portuária carioca – abriga hoje a Comunidade Remanescentes de Quilombos da Pedra do Sal. “Pequena África” porque a região era, em 1811, porta de entrada dos negros africanos trazidos como escravos, que chegavam ao Cais do Valongo – rota alternativa à Rua da Direita (atual Primeiro de Março) – e que  foi enredo da Portela em 2014. No período pós-abolição, a região continuou a receber uma população negra que tinha laços com negros escravizados, mas dessa vez da Bahia. A Pedra do Sal é, portanto, preta, tem referência preta, e é nela também que eventos culturais para a valorização da cultura preta tomam lugar. Como é o caso da Roda de Samba da Pedra do Sal, que acontece todas as segundas-feiras.

Figura 1. Arquivo pessoal. "Roda de samba da Pedra do Sal. Aqui se respeita o samba"

Figura 1. Arquivo pessoal. “Roda de samba da Pedra do Sal. Aqui se respeita o samba”

Aliás, é importante de se lembrar que o samba e o candomblé foram duramente perseguidos nesse período e que só resistiram graças a mulheres pretas, às tias baianas, como Tia Ciata, que naquela região, faziam de suas casas pequenas fortalezas para que se garantisse a permanência das tradições africanas em solo brasileiro. E já nessa época brancos passaram a tomar parte dessas festas nas casas das tias baianas por essas festas terem se tornado “famosas”. Que é o que vemos hoje em dia: a cultura negra sendo CELEBRADA pela população negra e, eventualmente, sendo testemunhada por pessoas brancas. Acontece na Pedra do Sal, acontece no Clube Renascença, acontece em festas como Meu black é assim.

Quem já foi à Pedra do Sal e conhece alguns outros lugares tradicionais de samba no Rio de Janeiro, vê ali toda a simplicidade que é inerente a uma roda de samba. E quando falo de simplicidade, não falo da execução ou da qualidade do gênero em si (que pra mim são inquestionáveis), mas de todo o contexto – inclusive religioso – que o cerca: desde uma tamarineira carregada de axé por Mãe Conceição e que é um símbolo do Cacique de Ramos até as duas amendoeiras que sustentam o toldo que abriga a roda de samba da Tia Doca, passando pelo pé de carambola que dá um alento de sombra nas segundas-feiras mais quentes do Samba do Trabalhador no Clube Renascença. E a simplicidade está aí também: em elementos da natureza como símbolos de uma manifestação cultural negra; na participação do público que participa na voz e na palma da mão, engrossando o coro dos sambas, partidos e pontos; na razoável acessibilidade aos locais onde esses sambas tomam espaço (do Centro da cidade, geralmente uma condução te deixa próximo às rodas): e é aí que vejo a Pedra do Sal com uma vantagem a mais, porque ela fica exatamente no Centro da Cidade.  

Mais acessível que outros lugares onde rodas de samba tomam lugar, a Pedra do Sal é um espaço de resistência negra, tanto quanto – e talvez por isso mesmo – o Quilombo que abriga.

Entre as décadas de 60 e 70, a região da Pequena África já se encontrava em processo de relativo abandono em razão do crescimento e valorização da Zona Sul do Rio de Janeiro e da construção da Avenida Perimetral – cuja demolição faz parte, hoje, do processo de revitalização da Zona Portuária. Dessa forma, com o isolamento e desvalorização da região da Pedra do Sal, os remanescentes do Quilombo foram firmando sua vivência naquele espaço, sem qualquer “influência externa”: a região da Pedra do Sal era frequentada basicamente apenas pelos próprios moradores e que eram, em sua esmagadora maioria, negros. Quando muito, circulavam na área moradores de outros bairros e favelas com os quais a Pedra do Sal mantinha contato, como a Mangueira, por exemplo. Por essa mesma razão, as reuniões nas casas das tias baianas, as rodas de capoeira que aconteciam entre um turno e outro do trabalho dos estivadores são referenciadas por Dona Tereza, remanescente do Quilombo, de “festas de preto” ou “coisas da escravidão”.

As casas das tias baianas, onde se protegiam mutuamente samba e candomblé e a tomada das ruas da capoeira, que já não se podia deter, representam “a resistência ao genocídio e etnocídio em curso. Foram espaços de defesa da vida. Da diversidade. Da multiplicidade, contra o extermínio. Negras e negros ergueram e se alojaram nesses locus de resistência africana, como agentes de sua história e protagonistas na fundação de seu futuro”. (Xavier, Juarez)

Naquela área, onde outrora se descarregava o sal que chegava em navios nos portos, hoje – além das rodas de samba e do Baile Black Bom – inscrevem-se, em suas paredes, manifestações de valorização da cultura e da raça negra, além de denúncias com o mesmo viés racial, como o extermínio da juventude negra pelas mãos do poder público.

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Figura 2. Arquivo Pessoal. À esquerda da imagem de zumbi lemos: “Vende-se carne negra. TEL: 190”. À direita, lemos: “Quem amola a faca do menor?”

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Figura 3: Arquivo Pessoal. “Crespo é lindo. Feio é o seu racismo.”

Talvez daí também a preocupação do artista plástico Cláudio Aun de que o Morro da Conceição “não seja uma Lapa [em razão dos eventos da Pedra do sal], porque quando a coisa começa a evoluir demais, involui. Bebida, drogas e a gente começa a perder a tranquilidade porque começam a subir pessoas que não são do meio artístico, que vêm pra balada”.

A crítica do artista plástico se pauta na preocupação com a manutenção da atmosfera artística e “mais cultural” daquela região do Morro da Conceição. Elitismos à parte, essa preocupação tornar-se-ia tranquilamente desnecessária se as pessoas que chegassem à Pedra do Sal conhecessem e valorizassem a história daquele lugar. Porque uma roda de samba, um evento de jazz, um baile black, não são apenas “baladas” pros pretos e pretas que comparecem a esses eventos, antes,  para prestigiar um trabalho cujas raízes negras estão ali justamente para serem celebradas. Um samba, um jazz, um afoxé são espaços negros, são espaços de resistência, antes de serem espaços de “balada” e pegação.

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Figura 4. Arquivo Pessoal. Parede grafitada em frente ao Recanto da Pedra, na rua São Francisco da Prainha, rua onde também rola uma roda de samba às segundas e sextas.

Entretanto é precisamente essa a postura que qualquer pessoa mais atenta e que pensa sobre a questão negra pode presenciar em muitas rodas de samba do Rio de Janeiro, e falo aqui em especial da Pedra do Sal. Falo do que presenciei em mais de um mês frequentando praticamente todas as segundas e sextas-feiras o samba da Pedra do Sal. E, claro, que pude presenciar em quase treze anos de Rio de Janeiro e outras tantas rodas de samba às quais fui.

Sobre essa postura de indiferença para com a história da Pedra do Sal, do Morro da Conceição e principalmente do próprio samba, pode-se fazer uma constatação simples, mas bastante simbólica: o grupo que a assume é predominantemente de pessoas brancas. Aliás, foi a esses interlocutores muito bem marcados que Walmir Pimentel – integrante da Roda de Samba de segunda-feira – pediu, num misto de desabafo e indignação e de posse de um microfone, para que as pessoas que não soubessem o valor de uma roda de samba e que tinham ido ali apenas para beber, fumar, conversar, não tomassem parte da roda, não ficassem em volta da roda tão perto dos músicos, porque aquela atitude era abuso e falta de respeito com os pretos e pretas que estavam ali pra celebrar a cultura afro-brasileira. Dias depois, na mesma roda de samba, o mesmo Walmir fez o mesmo pedido.

Mas afinal de contas, qual é o grande problema da presença de pessoas brancas em espaços (d)e celebrações historicamente negros?

A princípio, nenhum. Afinal de contas, se o espaço é público ele é de todos. E a cultura brasileira também não pertence a um grupo só: ela é – como diz o nome – brasileira, é de todos os brasileiros. A questão é que essa multiculturalidade reivindicada, essa miscigenação tão celebrada, esse mito da democracia racial em que todos os espaços são de todos, e todos temos os mesmos direitos e oportunidades, avaliza as pessoas brancas a tomarem espaços historicamente negros sem, necessariamente, reconhecê-los e respeitá-lo como tal. É o ponto chave da teoria da pedagoga Patrícia Alves, segundo a qual “há em curso um processo de desapropriação cultural dos pretos nos espaços negros; querem as culturas negras, sem pretas e pretos!’. Segundo ela, não é uma mera apropriação – ‘eu tomo e pronto; é meu!’ Ou um processo de universalização do acesso à cultura negra, ‘porque somos uma cultura mestiça’. Nada disso! É o desalojamento do negro de sua cultura.” (Xavier, Juarez)

É um desalojamento simbólico – quando o acesso é facilitado para pessoas brancas (como a localização e o preço de uma festa), mas é físico/ literal também. Quando pessoas brancas se posicionam em volta de uma roda de samba e não se envolvem nela de fato, cantando, prestigiando, celebrando toda a atmosfera que a envolve, isso é uma tomada de espaço negro, sim!

A não identificação com a cultura negra, o desconhecimento da história e da cultura que se desenvolveram na Pedra do Sal, e o consequente “estar ali por estar”, porque é barato, porque é mais acessível, como se mais um ponto turístico carioca fosse, é uma afronta. Cercar uma roda de samba, cheia de história, que carrega uma ancestralidade de Donga, Pixinguinha, João da Baiana e Sinhô, ocupar um espaço historicamente preto sem dele tomar parte (coisa que jamais tomarão) é acintoso.

Antes que nos acusem de separatismo, apartheid, segregação, a reivindicação que fazemos não é exclusividade em espaços que são historicamente negros. Não queremos exclusividade, queremos respeito para com a cultura e os espaços historicamente ocupados pelos nossos; queremos que vocês vejam lá onde estão pisando, que respeitem os farrapos que os nossos usaram; respeitem aqueles que chegaram e deixaram um legado musical riquíssimo onde hoje só se enxerga um bom ângulo para uma selfie. E quando chegarem naquele terreiro, naquele Quilombo, naquela Roda, no Feijão da Tia Surica, procurem primeiro saber quem somos. Respeite quem pôde chegar onde os nossos chegaram.

[A discussão não se encerra aqui. Nas pesquisas que fizemos (contei com a ajuda, discernimento e um pé mais firme que o meu para começar a conceber esse texto: obrigada, Ma Castor!), nas conversas informais com os músicos que tocam na Pedra surgiram questionamentos e esclarecimentos que antes não nos tinham ocorrido.]   

 

Referências:

Desapropriação cultural preta nos espaços negros

http://docvirt.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=RevIPHAN&PagFis=9261&Pesq=

Pedra do Sal: Relatório técnico de identificação

https://www.youtube.com/watch?v=Vvh8conbQII&sns=fb (De sal e samba: um passeio pelo Morro do Conceição)