Contextualizando, Jout Jout Prazer é uma jovem fluminense de 24 anos que ficou famosa por postar vídeos sobre diversos assuntos no youtube e bombar na rede após um vídeo sobre relacionamentos abusivos (Não tire o batom vermelho). Caio tem a mesma idade e é o namorado de Jout Jout que até então, por escolha, só ficava por trás das câmeras e com isso os dois faziam um suspense sobre a aparência de Caio para os fãs do canal. Até que, um belo dia, uma foto de Caio é postada e como era de se esperar, surgiram vários comentários sobre o rapaz, principalmente sobre a sua cor.

Caio é negro. Sim, negro. Porém, juntamente com 43,1% da população brasileira (82 milhões de pessoas) ¹ Caio se declara (ou se declarava) pardo. Entretanto, a população negra brasileira é o somatório das pessoas que se declaram pretas (um total de 15 milhões de pessoas, correspondentes a 7,6% da população) ¹ ou pardas. Todavia, existe um questionamento, o que é “ser pardo” no Brasil?

Uma das definições que encontrei no dicionário desse termo é “Cuja cor está entre o branco e o preto; de cor escura”. ². Estar “entre” duas raças nos dá a impressão de que não se trata de nada específico e sim de um meio termo. É como se dissesse “Olha, sua pele não é tão clara para que você se declare branco, mas também não é tão preta a ponto de que se declare preto. Assim, você é pardo”.

Se declarar pardo num país como o Brasil, onde aprendemos que somos frutos de uma grande mistura e que “somos todos miscigenados” realmente nos parece mais coerente do que se dizer preto. Muitos de nós brasileiros, quando pensamos em “preto”, logo imaginamos africanos (de origem nos vários países da África Subsaariana) e toda a história que nos é ensinada nos livros, na escola ou na televisão da escravização desse (meu) povo. Ser “preto” realmente não nos parece uma coisa boa. Na verdade, aprendemos desde a infância que é algo ruim. Na escola não conhecemos a nossa cultura e tudo que é passado enquanto positivo provém da Europa, não é nos passada a beleza do continente africano.  

Voltando ao assunto principal desse texto, a duas semanas atrás, Caio fez um vídeo abordando essa questão e dizendo qual foi a sua reação ao ver os comentários das pessoas sobre a sua identidade, e citou o (maravilhoso) texto “O namorado negro de Jout Jout e o racismo nosso de cada dia” ³. Os comentários se dividiram entre pessoas que apoiavam Caio enquanto negro e o mandavam mensagens de força, etc., e outras pessoas que diziam que Caio não era negro. Ele mesmo cita que o marido de sua mãe (um homem negro de Guiné-Bissau) diz que ele não é negro, enquanto ele já foi comparado com Barack Obama por um grupo de amigos brancos.

Para poder declarar a sua raça é necessário saber a sua origem. Sabemos que no Brasil os privilégios são dados as pessoas sem que haja pesquisa, e sim, puramente, pela cor de sua pele. Caio cita que antes desse acontecimento nunca havia sofrido (ou percebido que sofreu) racismo. Tenho para mim que provavelmente Caio é um jovem de classe média e que não enfrentou a realidade da população negra do país. Caio está se descobrindo agora, fazendo pesquisas e divulgando aquilo que ele absorve. Caio sofreu racismo de maneira escancarada (como tantos outros jovens negros) quando recebeu comentários (de pessoas espantadas) em suas fotos.

O racismo é perverso, o que aconteceu com Caio nessa situação específica acontece com centenas de jovens todos os dias. É o mesmo racismo que mata, e não mata só quem tem a pele preta não! Ele mata quem não é branco. É importante lembrar que quando uma pessoa não se declara branca no Brasil, não quer dizer que ela é negra. Temos ainda os indígenas e por estarmos nesse grande berço de mistura se faz necessário buscar as suas origens para compreender o seu lugar na sociedade brasileira. Saber de onde veio é o principal caminho para que você saiba para onde vai.

Caio recebeu um comentário em seu vídeo dizendo que sua cor é “cappuccino” e que não importa porque seu sorriso é cativante. Agora, eu vou escrever um texto explicando que cappuccino não é uma raça e lembrar que todas as pessoas (incluindo as negras que sofrem racismo diariamente) são capazes de ter um sorriso cativante.

Boa Noite.

(Tudo que sei devo as duas mães guerreiras que tenho.)


1 – Dados do CENSO de 2010:
http://www.brasil.gov.br/educacao/2012/07/censo-2010-mostra-as-diferencas-entre-caracteristicas-gerais-da-populacao-brasileira

2 – http://www.dicio.com.br/pardo/

3 – https://medium.com/nada-errado/o-namorado-negro-da-jout-jout-e-o-racismo-nosso-de-cada-dia-9e1d95d66ade#.kf0dbso78

  • LR

    Obrigada!

    Tenho muitas dúvidas sobre minha raça, já que tenho a pele mais clara, cabelos lisos e olhos claros. Mas a minha cor é igual a de Caio! Mas todos insistem em me clarear, apesar de eu sempre contestar e dizer que sou parda. Agora vou dizer que sou negra e explicar o que aprendi aqui. Obrigada

  • Eu tenho decendentes de índio por parte de pai, minha avó (mãe dele) tem pele clara e cabelos lisos, mesmo caso da minha bisavó, pele clara e cabelos lisos, mais pra trás que vem os sangue indígena, ja o pai de meu pai é negro, e meu pai nasceu negro, porem tem irmãos de pele clara também, inclusive meus primos são brancos, (mistura), minha mãe ja é de familia sem nenhum negro, ela tem a pele meio avermelhada bronze (toma sol e se queima) não sei definir, mas tem até parentes de olho claro (minha sobrinha é uma delas) e um filho de outro casamento de pele clara… eu tenho cabelos lisos ondulados longos e pretos, tenho a pele igual da cor de índio, (inclusive quando pequena parecia uma indiazinha mesmo, no dia do índio na escola no pré fiquei igual uma e todos queriam uma foto comigo) as vezes quando não tomo sol fico amarelada, me comparam ate com a personagem “pocahontas”, dizem que eu sou MORENA MÉDIA, mas isso não existe, eu me considero negra, e até penso que se tivesse cabelo crespo seria realmente considerada negra pela sociedade, nunca sofri nenhum tipo de descriminação, meus dois irmãos legitimos tem pele negra e não tem cabelo cacheado ou crespo, e isso confunde, minha irmã tem a pele bronze e cabelo cacheado, dizem que eu sou mais clara que ela e isso não é verdade, só por que meu cabelo é liso e o dela não, meus traços negros erdados do meu pai foi apenas o nariz, que nem é largo ou batido, meu irmãozinho tem o “porquinho” rsrs… enfim, sou muito confusa nesse aspecto, ninguém quer me considerar NEGRA.

  • belle

    Uma coisa que eu não entendo em considerar todos os pardos como negros (já que o movimento negro afirma que o termo pardo é para negros que não “aceitam” a sua cor), é que como devem ser então classificados os pardos descendentes de índios com brancos?
    Meu avô materno, por exemplo,se considera pardo, e é filho de uma índia de tribo com um branco loiro de olho azul. Mas se classificando como pardo, ele é automaticamente colocado no grupo dos negros, mesmo sem ser afrodescendente. O problema resultante disso é que os caboclos são muito comuns no Brasil, principalmente na região Norte – basta ver o DNA da população para constatar que a herança indígena neste local é superior à herança negra.
    Devido à essa luta do movimento negro para colocar os pardos no grupo dos negros, muitas pessoas não sabem mais como se classificar, inclusive eu. Como eu falei acima, tenho um avô caboclo (filho de índia com branco), e os meus outros avós são todos brancos (com cabelo liso, pele clara e traços caucasianos). Disso resultou que eu nasci com a pele morena clara (igual da jornalista Patricia Poeta), rosto caucasiano (rosto comprido, lábios e nariz fino) e cabelos ondulados (2B). Por isso, não consigo me identificar como parda, já que não tenho antepassados negros recentes na família do meu pai e nem na família da minha mãe, e não me vejo também como branca, pois tenho a pele amorenada e acedência indígena.

  • Negro é uma etnia, não se trata apenas da cor da pele, mas de um conjunto de características que define uma etnia. Uma vez que você é descendente de negros e herdou mais de 3 características da etnia negra, você então se encaixará com individuo negro(a). As características em comum da etnia negra são: Alto nível de Melanina consequente em pele, cabelos, pelos e olhos em tons de marrons (claro ou escuro, depende do grau de descendência), cabelo crespo, lábios carnudos, nariz redondo, nádegas protuberantes, etc. Ou seja, um negro(a) é negro(a) por um conjunto características e não pela cor da pele em si.

    Exemplo: um filho de pais e avós negros que nasce com albinismo não vai deixar de ser negro por ter pele clara, pois ele tem outras características da etnia negra. E o mesmo acontece um mestiços, se você tem mais características da etnia negra do que da etnia caucasiana, você então é negro. Porém se você é descendente de negros e tem mais características de outra etnia, você então se encaixará na etnia a qual tem mais características.

    O problema que é as pessoas não entendem isso. Acham que negro é um adjetivo para pele escura, entretanto essa palavra se trata de uma etnia!