Histórias advindas de postagens no Facebook, blogs, artigos, notícias e, principalmente, aquelas que chegam por inbox trazem consigo sempre a mesma reflexão que me assola por horas e horas. Não que a gente tenha tempo para isso. Aliás, na verdade, não demorou muito, mas eu cheguei à conclusão de que quando você é preto, no pacote vem três coisas inquestionáveis: 1) quando você nasce o Estado já está com uma arma apontada para a sua cabeça, 2) você não tem tempo e 3) seu cérebro está sempre cheio de coisas. Por isso, manter o equilíbrio não é fácil, assim como a nossa vida, isso não é novidade. E só complica quando você entende o inquestionável: não vai demorar muito até que o próximo que não tenha nada a perder seja você. Se é que já não chegamos a esse ponto.

No domingo passado, dia 17 de janeiro, estava no Facebook quando mais uma vez o meu feed de notícias me entristece fortemente e aquece a raiva que se energiza diariamente em meu peito. Recebi a notícia de que mais um irmão foi espancado e vítima de tortura por parte de um policial militar fardado, agente do principal braço armado através do qual se mantém esse Estado racista e genocida.

Não que seja motivo de surpresa, mas naturalizado por mim e pelo meu povo nunca foi e jamais será. Sem mais delongas, nossa luta pela sobrevivência é resistência diária. Resistência essa que dispensa as diversas tentativas de aulas incoerentes da elite branca conservadora ou pseudo revolucionária desse país.

Segue o relato de Samuel da Silva, compartilhado através da página no Facebook do Coletivo Preto Patrice Lumumba da Universidade do Estado do Rio de Janeiro:

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“Relato,

Eu, Samuel da Silva, brasileiro, solteiro, faço o seguinte relato:

Domingo, dia 10/01/2016, por volta das 21h, estava parado sozinho na praça dos arcos da lapa, perto da Avenida Paraguai, tentando entrar em contato por celular com um amigo que se encontrava num bloco de carnaval mais a frente. Eu estava apenas de bermuda e tênis, não usava camisa. De repente, fui abordado de maneira ríspida e agressiva por um policial militar fardado, que indagava aos berros “o que você está fazendo aqui?!”, em nenhum momento sendo solicitado minha identificação, ele apenas tentava me pegar pelo braço e pelo pescoço, dizendo que iria me levar para a Delegacia. Em questão de instantes, surgiram agentes da “Lapa Presente” para ajudar o Policial Militar a me prender. Eu disse que iria para a delegacia, mas não junto com eles, pois era minha intenção registrar uma ocorrência de abuso de autoridade por causa atitude arbitrária do PM e dos agentes. Nesse momento, eu fui agarrado, imobilizado, deburrado no chão e jogado dentro de uma van da “Lapa Presente”.

Na 5º DP, a minha identificação foi retida e fiquei sentado esperando o atendimento. Os agentes da “Lapa Presente” circulavam ao meu redor e me intimidavam, assim como o PM, que pegou o celular dele e passou a tirar fotos do meu rosto, foi quando falei que não tinha medo de intimidação nem ameaças, daí uma discussão se iniciou. Um Inspetor da Polícia Civil saiu da mesa em que atendia ao público e veio rapidamente em minha direção. O Inspetor junto com outros agentes da “Lapa Presente” me conduziram à porta do Delegado de plantão que perguntou aos policiais o que eu estava fazendo, os policiais responderam “Ele estava mijando no meio da multidão”, em seguida o delegado se referiu a mim e perguntou: “Você estava fazendo isso?”, eu respondi que não. Então o Delegado, diante da minha resposta, ordenou que eu fosse levado para uma cela e tivesse um “tratamento especial”.

Eu fui conduzido para cela por cerca de 3 (três) agentes mais o Inspetor da Polícia Civil (o mesmo que me abordou no hall e me levou a presença do do Delegado). Este Inspetor no caminho para cela proferiu diversos socos na minha nuca e rosto, quando estava no chão mais chutes foram proferidos no meu rosto, as agressões duraram cerca de 2 min. Após as agressões, o inspetor voltou normalmente ao trabalho, enquanto outros agentes da “Lapa Presente” diziam que eu deveria aprender como as coisas funcionavam na prática. Eu fiquei caído no chão sem qualquer tipo de ajuda, os policiais circulavam pelo corredor normalmente, apenas se desvencilhavam de mim do mesmo que se desvencilha de um lixo jogado no chão. Dois outros agentes da “Lapa Presente” vieram falar para eu ficar quieto, assumir tudo o que os policiais falavam, pois o melhor que eu poderia fazer seria sair daquela delegacia, já que eu poderia ser jogado dentro de uma cela caso eu continuasse confrontando os fatos apontados pelos Policiais. Esses dois agentes me ajudaram a levantar e me conduziram para o atendimento (dessa vez no interior da delegacia).

Já temendo muito pela minha própria vida, eu peguei meu celular e comecei a enviar mensagens de ajuda para as pessoas que eu conheço, foi quando um agente da “Lapa Presente” falou para que eu guardasse o meu celular senão o aparelho seria apreendido pelos Inspetores. Logo depois um amigo chegou na Delegacia. O Delegado e o Inspetor que me espancou foram embora. Em seguida, um outro Inspetor da Polícia Civil sentou ao meu lado para confirmar meu endereço e telefone, então fui chamado para ser atendido onde fui obrigado a assinar um termo circunstanciado sob olhares ameaçadores do Policial Militar que me levou aquela Delegacia. Ao recusar assinar o termo em tais condições, o Inspetor que estava me atendendo disse que eu seria preso caso não assinasse, já que os Policiais tem fé pública em suas afirmativas e tudo que eles falam tem presenção de verdade.

Após sair da 5º DP, eu fui com meu amigo direto para à 15º DP. Lá outros 2 amigos me encontraram, fiz o registro de tudo o que ocorreu da 5º DP. Na segunda-feira, dia 11/01/2016, fiz exames de corpo de delito no IML, também fui no Hospital Miguel Couto para cuidar dos ferimentos.

Rio de Janeiro, 16 de janeiro de 2016.

Samuel da Silva”

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Segundo informações do Coletivo Preto Patrice Lumumba, Samuel está sendo assistido pelo Núcleo contra a Desigualdade Racial (Nucora) da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, tal como pela Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), que estão acionando as instituições pertinentes.

Certo. Mas e quanto ao povo negro que se encontra fora dessas instituições? Irmãos e irmãs, estamos cansados. Sabemos disso e a branquitude também, por isso se constrói e garante a sua manutenção partindo desse pressuposto.

Diariamente me vem a seguinte inquietação: quando a unidade de maneira independente, auto-organizada e autônoma vai se desdobrar, no Rio de Janeiro, em uma mobilização ampla, forte e estratégica para dar a visibilidade que o massacre da população negra patrocinado pelo Estado merece? Uma mobilização negra popular direcionada a cobrar e não se render enquanto não houver reconhecimento das responsabilizações que extrapolam os agentes que atuam em nome do Estado na figura desse braço armado estatal racista e genocida. Uma mobilização fora de instituições e organizações racistas. Uma mobilização não somente para promover palestras, eventos e afins, mas que rompa com o academicismo e tenha como foco também a autopreservação e unidade baseada em irmandade negra. Que se mantenha em pé não somente pelo movimentismo, mas por todos os corpos negros arrastados ao chão ou levados arbitrariamente às celas única e exclusivamente por serem negros, porque o que nos une, bem sabemos, é o fato de que o nosso olhar e nosso peito carregam a mesma raiva. Falo aqui sobre a necessidade de canalizar tal raiva que sentimos, fortalecendo a unidade e, portanto, nossa mobilização autônoma.

Mas por quê me parece que tal mobilização é tão distante, cuja concretização eu sequer consiga vislumbrar, mesmo que reúna todos os meus esforços, junto a mais dois ou três?

É que inexiste pressuposto ímpar: dois ou três não conseguem organizar uma mobilização séria, estratégica e eficaz. Olho para irmãs e irmãos que estão no mesmo corre que eu, seja na periferia, seja no ônibus, no metrô ou na universidade. Estamos desunidos. A branquitude sabe disso, o tempo todo ela estuda nossa relação uns com os outros e alimenta tal desorganização estabelecendo falsas diferenças ou agindo estrategicamente através de suas instituições, organizações e partidos politicos. Afinal, o que poderia ser a máxima representação histórica do que digo senão a própria Polícia Militar do Rio de Janeiro composta majoritariamente por corpos negros?

Por fim, minha pergunta final deixo aos meus irmãos que estão nas universidades de Direito.  Afinal, para que viemos até as cadeiras dessas universidades e estamos ocupando tal espaço? Tenho para mim que cada estudante negro deve refletir sobre o papel que exerce enquanto estudante de Direito nessa pseudomaravilha de cidade e exercerá caso venha a se formar. Pois, quanto aos obstáculos que se sobrepõem a nossa possibilidade de formação, sou capaz de afirmar que venceremos um a um enquanto e apenas se buscarmos a unidade em nossas ações. Tal como somente em unidade faremos com que desapareça toda impotência, hipocritamente potente, cuja solução satisfatória nós desconhecemos.