Em fevereiro é comemorado o Mês da História Negra (ou Black History Month), em homenagem a todos os negros que ajudaram, e ajudam, a construir os Estados Unidos da América, não só através do seu trabalho braçal, mas intelectual e político. Um mês inteiro dedicado à história afroamericana, celebrando grandes personagens de lutas como o Movimento dos Direitos Civis, a exemplo de Rosa Parks, Martin Luther King, Malcolm X e Carter G. Woodson.

Lembro-me de uma vez escutar minha tia falar sobre o Mês da História Negra Americana e sobre como o Brasil não apenas se recusou a aceitar as grandes contribuições negras na construção da sua História (que não se resume a trabalho escravo), mas tentou, a todo custo, embranquecê-la, pintando negros de brancos e suprimindo as histórias dos livros e registros.

Mas não há que se preocupar. Aqui no Brasil, também em Fevereiro, há celebração. Celebramos uma das maiores festas do mundo: o Carnaval. Não há uma unanimidade quanto ao seu surgimento, mas a maioria das hipóteses levantadas pelos historiadores apresenta um ponto de convergência; a de que as diversas festividades que possam ter inspirado a criação do carnaval possuíam um caráter de inversão das posições sociais. Isto é, determinados personagens, geralmente escravos, eram exaltados, tomando não apenas as vestes, mas as posições de “seus senhores” durante a celebração. Dá pra imaginar?!

Ao decorrer do tempo, essas festividades passaram a incorporar o calendário da Igreja Católica, com uma nova ‘roupagem’, no que conhecemos como carnaval, pois a Igreja não via as celebrações anteriores com bons olhos por acreditar que, invertendo-se os papéis sociais, invertiam-se também as posições entre Deus e Diabo. A roupagem dada pela Igreja incluíam o fim da inversão de papéis, que a festa aconteceria antes da Quaresma, e durante este período não haveria consumo de carne.

De fato, a inversão de papéis sociais se desfez. Os diabinhos negros de baixa renda jamais poderiam debruçar-se sobre os camarotes, a beber espumante e dançar ao som de renomados DJs sem sentir que não pertenciam àquele lugar. Preto é uma cor muito negativa, eles dizem. Precisam vender uma imagem bonita e positiva para os turistas! Aliás, falando em turistas… Chama lá umas mulatas bonitas, com pouca roupa e que saibam sambar… Vai ficar lindo no comercial! E se faltar cordeiro, manda buscar lá na favela.

Mas ao chegarem aqui, os turistas esquecem-se que este não deveria ser um período para consumo de carne e a consomem com gosto. Quanto mais preto, melhor. Preto e exótico, eles dizem. E ninguém liga, afinal é carnaval: ‘tá’ tudo liberado! O importante é entreter e vender aquela imagem bonita. Aquela, sabe? Do país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. MAS QUE BELEZA!

Aí, a euforia do carnaval passa, e passa também o período de consumo da carne negra, porque os diabinhos só servem pra isso; sambar e se exibir. Mas eles nem são tão ruins assim, até deixam alguns neguinhos colocarem o isopor na rua pra ganhar um dinheirinho. Depois do carnaval? Ah, depois do carnaval tem emprego pra todo mundo: empregada doméstica, babá, segurança… Se bem que, com essa crise, talvez não tenha pra todo mundo. Mas ei, a festa vai movimentar a economia… Eu só não garanto que você vá ver a cor desse dinheiro. Mas, pra que se preocupar com isso agora? WE ARE CARNAVAL, WE ARE FOLIA!

Obs.: Este texto contém trechos irônicos que não representam a opinião da autora. A autora também não compartilha da exaltação da cultura estrangeira e depreciação da cultura brasileira, a celebração norte americana foi usada apenas como exemplo.