É bem verdade que faz algum tempo que Carnaval não me enche os olhos, mas por questões que não vêm ao caso nesse momento, permaneci em Salvador esse ano e como minhas amigas de Pernambuco estavam em minha casa saí com elas para mostrar e “aproveitar” a maior festa do mundo. E antes de contar as bobagens (violências que cometeram contra mim e milhares de outras mulheres) fiquei pensando em uma conversa com um amigo querido. Ele disse que as pessoas se treinam e são treinadas o ano todo para o carnaval, com professores excelentes, os quais não permitem que seus seres sem luz (alunos-machos-brancos-héteros) deixem uma tarefa pela metade. Então no Carnaval os alunos têm a oportunidade de fazer a prova final, que é composta das seguintes temáticas: como quebrar nariz de mulher que diz não a um beijo; como juntar com os coleguinhas de classe e fazer um círculo de machos ao redor da mulher e beijá-la à força; um módulo teórico de como naturalizar violências, pois se a mulher está na rua, de shortinho, blusinha (ainda que o calor esteja de 37 graus podendo variar para 45 quando o trio elétrico passa) é PORQUE ESTÁ PEDINDO. Superado esse ponto, vou narrar em tomos (volumes) as minhas histórias, do lugar de mulher negra heterossexual, no Carnaval:

TOMO 1:

Assim que entrei na rua que dá acesso ao circuito do Carnaval fui sendo assediada pelos homens, indiscriminadamente, e os assédios se davam desde de “lindinha”, “gostosa”, “ai, que delícia você, mãe”, “você boa toda”, “que boca mais deliciosa, quero beijar”, “eu te chupava todinha”, algumas onomatopeias degradantes a puxões no braço na tentativa de um “carinho” forçado onde a língua do desgraçado deveria entrar na minha boca. Isso foi o que me lembro da chegada. Ah, sim! Teve uma ação truculenta da polícia que se a gente não corresse para se afastar da confusão tomava porrada juntamente com os garotos negros. Mas em mim teve espaço para porrada, aguardem…

TOMO 2:

Eu estava tomando cerveja e mexendo no celular próximo a uma vendedora e de seu isopor de cerveja, eis que chega um molecote grosseiro e grita para mim perguntado quanto é a cerveja (afinal negra, perto do isopor de cerveja só pode ser mesmo vendedora, nunca cliente). Racistinha de merda. Racismo nunca é mal entendido. É mal dos entendidos mesmo.

TOMO 3:

Armandinho (Dodô e Osmar) chegou na Avenida e eu feliz, sorridente, larguei minhas amigas e fui atrás do trio, sambando, dançando, feliz! Encontrei meu amigo do coração e vários amigos dele. E foi lindo, pois estava doida para vê-lo. Nisso eu me afastei no dança dança  uns três metros e quando virei tinham dois caras já me puxando pelo braço para me BEIJAR À FORÇA (dois caras… Dois… Depois fiquei pensando como se daria a violência: beijo triplo? É melhor lutar pelo esquecimento da cena). Desvencilhei e corri pros braços do meu amigo dizendo que ele era meu namorado, porque outro macho eles respeitam, não respeitam nós mulheres que “estamos pedindo”.

TOMO 4:

Ainda com o grupo de amigos do meu amigo no dança dança (de novo) fui parar próxima à calçada, e como eu não enxerguei que vinha uma fila de policiais militares, não sai do caminho. Por que eu não tinha olhos nas costas, né? Tomei uma cacetetada nas costas e fiquei sem entender que não existe licença, desvio, nada disso…só porrada mesmo. E doeu mais foi uma mulher que viu aquilo chegar perto de mim solidariamente:

– Pergunte ao policial que te bateu se existe Maria da Penha para ele também.

Nos olhamos como se só ela e eu entendêssemos o peso de ser mulher e ser agredida, fisicamente, por um homem, vestido de farda comprada pelo estado e posto na rua como cão treinado para morder.

TOMO 5:

Eu, vendo a passagem do trio de Durval Lelis, fiquei mega aborrecida com aquele imbecil cantando a música cantada pelo outro imbecil, Bell Marques, “Cabelo de Chapinha”. Nos três minutos e pouco de música eu fiquei gritando “RACISTA! RACISTA! RACISTA! RACISTA! RACISTA!”. Minha voz ecoou na avenida e o racismo não me calou. Muitos me ouviram, inclusive a banda.  

TOMO 6:

Agora com minhas outras amigas, indo para o final do percurso, eu fui dançando na frente para elas me seguirem e só senti uma lapiada na minha bunda. Alguém tinha me batido na bunda. Eu olhei para trás num misto de ódio e medo e vi um desgraçado sorrindo sorrateiramente como se eu, depois de ser agredida, fosse voltar e dizer como aquilo era lindo. Eu xinguei ele dos piores nomes possíveis, que minha amiga teve que me acalmar, porque se eu tivesse uma pedra, qualquer diabo na hora, eu dava na cara dele. Foi horrível.

TOMO 7:

Eu estava sentada com as minhas amigas ao lado de um isopor de cerveja conversando com a vendedora, enquanto ela falava das dificuldades e de sua resiliência em trabalhar no Carnaval:

– Necessidade, né, mulher? Mas não tem nada não… Preciso da grana para dar de comer aos meus filhos.

Nisso eu fiquei questionando onde estava o pai. Mas eis que chegou e nem deveria ter chegado um homem para ficar no lugar dela enquanto ela saía para dar conta de alguma coisa.

O troglodita chegou para mim e para minha amiga (que é lésbica) e disse:

– Rapaz esse Carnaval está uma vergonha, um monte de homem se beijando. Que horror. Isso fica feio para Salvador (a terra dos machos, né?). Minha amiga ficou assustada.

Eu retruquei cinicamente:

– Mas moço, o amor é lindo. Lindo demais.

E ele se chateou todo, esperneou e eu para matá-lo de ódio, inventei:

– Eu sou lésbica, gosto de mulher. Chupo mulher. O senhor vai fazer o quê?

Ele assustado e sem saber como dizer, pois na cabeça dele todo mundo é homofóbico e nojento como ele, contestou:

– Eu respeito. Tem nada não. Só não pode ficar se agarrando por aí.

– Posso e devo. É bom. É gostoso.

Eu não desejo por outra mulher, mas eu juro, minha gente, se tivesse alguém ali na hora disposto eu teria me chupado com ela só para aquele ignorante ter um infarto.

TOMO 7.1:

Eu saí de perto do homofóbico e atravessei a rua para contar essa história para meu amigo, que estava com uma amiga e um casal. Contei revoltada, de como aquele cara essa escroto, imbecil, não evoluído. Pintei o pior quadro da criatura. Nisso meu amigo me traz para o meio da rua e me conta que o acompanhante da amiga dele, antes de eu chegar, tinha acabado de tecer os comentários mais homofóbicos sobre homens se pegando na avenida. Fiquei pensando: “Hahahahahahahaha! Arrasei com dois homofóbicos com uma cajadada só!”

TOMO 7.2:

Tenho costume de achar dinheiro como quem acha papel. Sorte? Acho que não. Sempre tenho dó de quem perde.  Mas achei R$ 10,00 no pé de um grupo de amigos e perguntei a eles de quem era, mas não senti firmeza quando um disse que era dele e propus então gastar aquele dinheiro todo com cerveja, pois assim ninguém saía perdendo. Eles toparam. Fiz questão de ir até o isopor do homofóbico com a mulher porreta e disse a ele:

– Você pode dar todo esse dinheiro de cerveja para a lésbica aqui? Ou você não vende cerveja pra lésbica?

Ele, entre a felicidade da grana e a vergonha de sua ignorância, mostrou um sorriso e se disse não preconceituoso. Eu respondi:

– Hãhã. Ta bom. Percebo. Me dá a cerveja, pegue seu dinheiro e cale a boca.

Voltei para o grupo de desconhecidos e distribui a cerveja, indo ficar perto do grupo de amigos…

FIM DOS TOMOS E DO MEU CARNAVAL… Mas não do machismo, homofobia e racismo. Ano que vem tem mais, horrivelmente…

Voltando para casa fiquei refletindo em como no Carnaval as pessoas, com as aulas diárias e incessantes durante o ano, colocam para fora todos os diabos em forma de machismo, racismo e homofobia. Porque por mais que a violência seja diária, é no Carnaval que toda e qualquer mulher apanha de um desconhecido, indiscriminadamente. E para não morrer de ódio se tem adotado a máxima da desumanidade: Viu uma confusão? Alguém sendo agredido injustamente? CORRE, pois a próxima ou próximo pode ser você. CORRE, pois Carnaval (expressão da alegria, da cultura, mas também do machismo, homofobia e racismo) JÁ DEU, e você mulher, pediu.