Por Dora Santana para Blogueiras Negras

Ela re-torna em onda

Re-torna em energia/carne/mar
Ondulada viaja 
Em onda
aquática
eletro-aérea
pensamento
Mar-é
Re-torna em memória
E sara o oceano túmulo/trauma/transporte/templo
Trans-forma-em-corpo-ar-ação

O estado atual de emergência causado pelo ataque letal diário ao corpo/espírito/imagem/vida social de mulheres trans negras tem nos levado a produzir um esforço coletivo constante de educação visando ao convencimento de segmentos dominantes a respeito de nossa humanidade, direito a bem estar, e a vida. Apesar do necessário e imprescindível foco na proposição e aplicação de políticas, resultantes da pressão de movimentos anti-racista/anti-transfobia, eu gostaria de centrar essa reflex(-aç)ão na importância de re-tornar memórias quando investimos na criação de um imaginário que se materialize em uma vida plena para mulheres trans negras e para todxs que são oprimidxs por sistemas como racismo e transfobia. Quando penso em tornar em linguagem a experiência encarnada, desencarnar e en-versar, as conexões entre Transição, Trans e Negritude; a passagem Trans-Atlântica me perpassa com inquietude e silêncio. Que memórias “Transição” nos traria, enquanto mulheres trans negras, se imaginarmos a resiliência na luta por condições dignas de transicionar no mundo enquanto, também, legado da resiliência na transição forçada através do Atlântico? Transição de carne a aguá, a espírito, a memória… de carne a aguá, a espírito, a memória… E se víssemos o legado de auto-cuidado como cerimônia, de trans-auto-formar-se como sagrado para nossas vidas, da criatividade na formação de uma estética cuja beleza nós atribuímos sentidos no ritual de celebração de nós e daquelxs que caminham conosco/através de nós? Eu falo de memória e sua relação com ancestralidade na construção de Negritude não como o conveniente reducionismo da contribuição folclórica para a identidade de um Estado-Nação genocida de negros, mas como uma memória em que a noção de ancestralidade está intimamente ligada as nossas formas de luta, as formas encarnadas de saber e aprender, de auto-coletivo-cuidado, a busca de beleza na ritualização do nosso corpo e dia-a-dia, e também na nossa (espetacularizada) dor e alegria. Como mulher negra trans, tenho experienciado conhecimento por histórias, pela tradição oral, acadêmica e virtual de outras mulheres negras (trans e cis). O silêncio em torno da possibilidade de rememorar o quão Trans a transição no Trans Atlântico Negro pode ser imaginada, enquanto importante fator na construção de Negritude na Diáspora Africana, me deixa com uma história latente sentida, encarnada ou filtrada por arquivos de violência. Pelas opressões que restringem o acesso de mulheres trans negras a espaços de produção de legitimação de histórias orais, a academia; temos nos deparado com uma história de homens brancos gays acadêmicos teorizando mulheres negras trans a partir de arquivos de violência, a exemplo da etnografia de Kulick sobre Travestis negras em Salvador sem nenhuma referência a racismo; ou de análises de figuras trans em documentos históricos com um foco em gênero como se este não estivesse intimamente ligado a racialização do corpo, no caso dos estudos de Mott. Na minha busca por nossas histórias, tento filtrar o que existe dentro dessas referências a arquivos de violência, e me deparo com uma ancestral que, nas formas contemporâneas de saber, poderíamos nos referir como um figura Trans Negra: a Kimbanda. Nos relatos de inquisição da igreja católica no seculo XVI, a Kimbanda é descrita como uma figura percebida pelos relatores ocidentais como possuindo um “corpo masculino” vestida com tecidos africanos cuja maneira de amarrar os nós era percebida como característico das mulheres do Kongo; sabia-se que ela se auto denominava como a grande Mãe, associada ao espírito das águas e era “temida” pela população local, segundo os relatos. Alguns relatos narram a Kimbanda sendo trazida amarrada, descrita com metáforas animalescas associadas a um porco, despida de suas vestes para “verificação” de seu sexo, e tendo seu cabelo em dread raspado. Reconheço o papel da análise de Mott em se referir a Kimbanda como o primeiro relato de uma travesti a resistir violência no Brasil, mas focar apenas na “transgressão de gênero” como principal fator dessa história é apagar o fator racializador que constrói negritude sobre nossos corpos por imposição de uma noção binária de gênero/sexo também associada a uma noção europeia/branca/catequista de humanidade que associa nosso fenótipo a animalidade e classifica nossa estética e espiritualidade como demoníacas. Focar no fato de que a Kimbanda era um corpo negro trans feminino encarnado com energias das águas sobrevivente da passagem no Atlântico é re-memorar o poder de auto-coletivo-cuidado perante o trauma de violência. Que forma mais estratégica de desestruturação de povos que passaram pelo trauma da passagem atlântica do que atacar corpos que encarnam energias das águas, que trabalham sua beleza pelo sagrado, seus corpos como cerimônia? Entre as linhas violentas, imagino que respeito tenha sido percebido como medo por esses relatores. O fato de não agredir, questionar ou ridicularizar a Kimbanda na sua “feiura,” como esses relatores percebiam, era inconcebível como respeito, mas apenas medo. Minha escolha de re-tornar a Kimbanda é uma escolha de re-tornar a nós mesmas no contexto atual em que as memórias que embasam Negritude e Trans não nos contemplam enquanto mulheres trans negras. O ataque a mulheres trans negras é um legado anti-negro escravocrata frente ao potencial desestruturador de sistemas opressores que nosso ser representa. Que forma mais estratégica de desestruturação de populações que lutam contra racialização/sexualização/imposição de forma binária de gênero do que atacar corpos que resignicam todas essas construções? Mas nosso corpo ainda lembra do legado de tratar traumas nas nossas diferentes formas de transição, para nós e para aquelxs que transicionam conosco. Muitas de nós ainda encontram nas ondas das mensagens-mar esse poder de sarar o trauma; outras encontram nas ondas digitais o poder de sarar o trauma; outras encontram na linguagem do nosso corpo e de nossas palavras o poder de sarar o trauma. Seja qual for nossa maneira de compartilhar as memórias, nossos corpos ainda lembram.