Enveredando nos assuntos achados dentro e fora das redes, é perceptível a busca por uma homogeneização identitária através de alguns discursos coletivos ou individuais. Em Negritude – Usos e Sentidos de Kabengele Munanga , ele nos trás a seguinte reflexão: “Se o processo de construção da identidade nasce a partir da tomada de consciência das diferenças entre ‘nós’ e ‘outros’, não creio que o grau dessa consciência seja idêntico entre todos os negros, considerando que todos vivem em contextos socioculturais diferenciados” (2009).

É primordial reconhecer que dentro da coletividade há multiplicidade. E não me interessa polarizar um lado certo e um lado errado. A discussão está acerca da concepção da desonestidade em hierarquizar uma “categoria” sobre as outras, aqui me restrinjo na relação entre nós, mulheres negras em movimentos ou não.

Apontar as nossas diversidades é uma das análises em (re)orientar a reflexão sobre como podemos pautar inúmeras lutas e reivindicações sem a deslegitimação do (não) fazer alheio.

Porque durante a história negra no Brasil, é sabido que de todas as formas tentaram  e ainda tentam dizimar nossas singularidades e nos generalizar em um dado estereótipo.

Podemos compreender essa discussão como parte da problemática específica da mulher negra, a partir das perspectivas de Sueli Carneiro e Thereza Santos, onde já analisavam as buscas de mulheres negras por afirmações e especificações distintas dentro do movimento negro. que perpassa desde os anos da década de 1980. Como também reiterou Lélia Gonzales sobre, que “apesar de todos os ‘pegas’ […] provêm de um mesmo solo: a experiência histórico cultural comum” (1991). Ou seja, entre tantas dificuldades, temos um fio-condutor que nos une: a noção de agentes em busca do resgate e compreensão das nossas experiências históricas. Logo, o revisionismo de nossas (re)ações deve vir à luz no atual momento acompanhado do encontro com as memórias antecessoras, não nos restringindo apenas à brevidade dos discursos orgânicos que  muitas vezes causam abstrações e circulam apenas no umbigo, transferido para o isolamento dos corpos digitais que se perdem nas nuvens.

Antes de qualquer definição e afirmação, somos pessoas com especificidades e características próprias. Falta olho no olho. Da mesma maneira que a intersecção surge no momento em que não nos enxergamos no universalismo do “ser mulher”, atentemos para não fazermos o reducionismo sobre a outra, já vivemos em um sistema que hierarquiza raça e classe. Enfatizo: não é proibido nos criticar!

A contradição também é massa na construção. Precisamos refletir sobre os choques decorridos em contato com o diverso, para evitarmos o essencialismo. Porque somos portadores de inúmeros pensamentos, não somos fixos. Desenvolver a crítica e a auto-crítica é um exercício necessário e saudável.  Pois, se estou viva, sou constante!

Ao mencionar algumas citações nesse contexto  em que lidamos com o tempo freneticamente afobados, acredito veemente na importância do intergeracional (conceito que aprendi com a escritora Jennyfer Nascimento), sendo válido escutar nossos ancestrais na leitura e quando possível no presente, diariamente nossa ancestralidade está posta em casa.  Porque tudo de renova de olhos atentos, como descreve as palavras da poesia  Faz muito tempo (2007) de Maria Tereza.

Perante isto, ao invés de atacar, podemos treinar a escuta e a fala juntas das nossas e dos nossos entre sínteses e antíteses, para dar continuidade ao que acreditamos nos mais variados âmbitos e esferas que contemplam à nós e toda a população negra da qual pertencemos na diáspora afro-latina-brasileira. Isso é positivo, não poderia ser visto como um enfraquecedor ou ferramenta de esvaziamento direto do outro e de sua bagagem. E saibam que antes de chegar, vamos pedir licença para quem veio antes!

“Solidariedade e organização, isso aí que é básico e que é essencial” Lélia Gonzales.