O racismo acompanha as pessoas negras desde muito cedo, em alguns casos, desde a maternidade, em situações como mulheres negras esperarem mais para ser atendidas ou em que recebem menos anestesia no parto, por causa da ideia equivocada de que negros têm mais resistência à dor.

Estes fatos explicitam o grande problema de racismo institucional que vivemos no Brasil. Um país que tem a desigualdade social e racial, lembrando que uma coisa não se desvincula da outra, enraizadas e, ainda, naturalizadas. Sabe quando a gente não estranha mais aquele buraco na rua ou já se acostumou com aperto no transporte público e criamos formas de resistência para sobreviver a isso? É mais ou menos essa a situação do racismo no Brasil.

Além de termos que lutar para que mais negros tenham a oportunidade de entrar na universidade, de pedir para que o estado pare de matar jovens negros, para que nos representem de uma forma mais humana e menos depreciativa na mídia, também temos que nos preocupar com os danos que anos e anos de ataques e ofensas racistas pode resultar na nossa cabeça e na cabecinha das crianças negras.

 Se você é socialmente lido como negro, uma certeza você pode ter na vida: em algum momento vão fazer, ou já fizeram, algum comentário maldoso sobre seu cabelo, ou sua boca, ou seu nariz e, claro, sobre a cor da sua pele. E não diferente dos adultos, as crianças também são muito boas em externar seu racismo mirim. O que eu quero dizer é que elas podem ser tão maldosas quanto os racistas já grandinhos, já que muitas vezes, são educadas por eles.

Agora imagina o que é ser criança e ter certeza de que quando chegar na escola vai ser chamada de macaco, cabelo de bombril, blackout ou algo do tipo? Algumas crianças podem encontrar como sobrevivência a “co-participação” nessa zuera, usando aquela velha tática de se auto zuar para não ser zuado pelo grupo. Mas outros podem ver no isolamento e no grande esforço para se tornar invisível, a solução para este problema.

Claro que a timidez faz parte da personalidade de algumas pessoas. Mas também devemos pensar o quanto ela pode ser motivada por violências psicológicas e até mesmo físicas, sofrida diariamente por parte dos colegas de sala e até pelos professores, somadas a possíveis problemas em casa, financeiros e/ou afetivos e, em outros casos, ao machismo, a gordofobia e a homofobia, entre outras manifestações discriminatórias.

Em “Preciosa”, a personagem Claireece Precious Jones é um triste exemplo de como o racismo, junto com outros problemas familiares, como o abuso sexual, problema econômico e falta de amor da família, atrapalha o desempenho escolar. Ou como o caso da Lorena, estudante de uma escola em São Bernardo do Campo que sofreu ataques racistas de pessoas de sua sala, que na época, segundo sua mãe, a fez perder o interesse em ir para a escola e afetou sua auto estima, entre outras coisas.

Não sou educadora, mas em algumas oportunidades que tive pude observar uma timidez exacerbada nas crianças negras em contraste com uma grande agitação das crianças brancas, sempre muito falantes e questionadoras.

Eu fui uma criança que não conseguia se manifestar durante as aulas, isso se estendeu até minha fase universitária e também no ambiente de trabalho. E assim como os outros negros, não fui poupada de comentários maldosos sobre a cor da minha pele ou sobre meu cabelo e, por mais ridículo que possa parecer, já fui alvo de piadas e não bem vinda em um curso de artesanato até pelo fato de ser canhota. Ou seja, as pessoas têm muita criatividade quando querem ser ruins.

Mas, afinal, porquê crianças negras não estão fazendo perguntas? Será que elas não se sentem confiantes o bastante? Será que é a falta de representatividade positiva? É sua auto estima? A insegurança de se mostrar em sala e ser alvo novamente do racismo?

A gente não pode só atribuir isso a um traço de personalidade ou vontade própria. É preciso que estejamos atentos aos danos psicológicos que o racismo causa. Nós, negros, precisamos cuidar do nosso psicológico, se não for possível fazer isso com um profissional, que seja com amigos, companheiros de luta. E também necessitamos cuidar do psicológico das crianças negras, para evitar que elas passem pelos mesmos danos sofridos por alguns de nós.

Em paralelo a isso, é preciso que os espaços educacionais e os educadores estejam melhores preparados para o combate ao racismo e para promover discussões sobre o tema. Idealmente, a escola é o lugar onde esperamos aprender coisas relevantes para nossa vida, além daquilo que vai ser cobrado no vestibular. Ela precisa estar aberta e melhor preparada para discutir e enfrentar o racismo. Precisamos dar mais atenção ao racismo, tratá-lo como algo grave, como de fato ele é. Racismo não é brincadeira, não é bullying, nem é relativo, racismo é crime e as crianças negras não podem mais serem caladas por ele.

 

Referências Bibliográficas

PARÉ, Marilene Leal. Auto-Imagem e Auto-estima na Criança Negra: um Olhar sobre o seu – Desempenho Escolar.

GONÇALVES, Vanda Lúcia. O Racismo e o Desempenho Escola de Crianças Negras.

 

  • A minha história minha infância nem conto pois foi difícil sobreviver entre tantos apelidos , e professores sem condições nenhuma de lidar com essas situações na minha época ! Mais meus filhos João 12 annos e Raisla 10 anos , Já passaram por muitas situações na escola ,mesmo tendo trabalhado com eles toda esssa questão de racismo , preconceito , trabalhando o psicológico com livros , conversas empoderamentos , eu já tive que ir na escola conversar com professora e diretora muitas vezes ! Meu filho teve uma professora que desde o primeiro dia de aula implicava com ele por usar cabelo blaçk power . Mais uma dessas situações foi aquela história , “Que a males que vem pra o bem ! ” Uma menina que não se acha negra , mais é e com cabelos alisados , chamou meu filho de cabelo de bombril , ele imediatamente disse a ela que ela também tinha cabelo crespo , era só ela para de usar química , ela queria agredi lo , ele ficou com muita raiva , e acabou transformando a raiva em poesia ! O que tem em volta do meu cabelo ?
    https://www.youtube.com/watch?v=A6GtSbb7ciU
    O importante é sempre escutar a criança e acolher com carinho e tentar fortalece las de algum modo !

    • Thiane Neves Barros

      Cida querida, primeiro dê um beijo em João em nome de todas as Blogueiras Negras! Estamos apaixonadas por ele. Em segundo, por favor, vc nos autoriza a compartilhar seu depoimento e o vídeo de João na página Blogueiras Negras Teen? https://www.facebook.com/blogueirasnegrasteen/
      Seria uma enorme honra e felicidade para nós!!! Beijos imensos.

  • Maria Castro

    Minhas queridas, vou dizer só para constar. Já me superei. Eu tinha 8 anos, estava na 2ª série, no ano de 1962, na Ilha do Governador, Escola Jornalista Orlando Dantas, no bairro dos Bancários. Éramos três crianças, três alunas eu, Gracinha e Heloisa, não me lembro do nome da professora. Fomos levar os cadernos com o dever de casa para ela ver, e nesta ação todas faziam perguntas e queríamos exibir nossos trabalhos e sermos elogiadas. Como costumava ser feito em sala de aula naquela época. A professora dava total atenção as duas meninas, sorria para elas, elogiava o caderno limpo e cuidado e eu chamava: tia, tia, ela nem me olhava.Eu dizia olha, mostrando o caderno, eu também fiz. Tocava no braço dela, e era mais ignorada ainda. Parecia um nada, um ninguém. Ela não me escutava, nem me via, ou fingia não me ver. Hoje percebo isso como ações deliberadas de exclusão do outro. Eu era uma criança negra, inteligente, mas ela me definia como: “Menina perguntadeira essa.” e não dava respostas. Sem entender nada e muito constrangida, voltei para minha carteira e me sentei envergonhada. Não me lembro de ter tido mais coragem de mostrar dever de casa para professora nenhuma. A não ser que fosse provocada.Tive outras professoras maravilhosas, mas a que marcou, por um bom período, foi essa. Quando me “tornei negra”, tudo mudou para melhor na minha vida. Acho bom falarmos sobre o que sofremos, acho bom fazer muito mimimimi mesmo. Serve para termos percepção de como funciona o racismo no Brasil dentro das escolas. Aos 50 anos voltei a estudar. Fiz um curso Técnico de Secretariado, alguns prés-vestibulares. Fiz o Enem e me formei em Licenciatura em Ciências Sociais em 2014 pela UFRJ. Hoje tenho 62 anos. Sou uma mulher negra e feliz. Mimimimi agora é meu mantra. Vamos falar sim e muito sobre o racismo. Silêncio nunca mais.

  • Eli

    e eu pensava que era uma piada qualquer de amiguinhos… Me chamavam de Noite Feliz, zombavam a cor da minha pele e comparavam a minha cor preta em relação as axilas de uma menina que andava com a gente e essa mesmo me chamavam de preta, que eu estava mais preta. Me afastei de algumas pessoas desse grupinho que me humilhavam e quando eu reclamava do abuso, falava que eu era preta e que deveria parar de palhaçada, (hoje conhecido como mimi). Já os outros entenderam que foi uma piada de mal gosto e resolveram parar. Hoje, esses amigos me chamam de rainha negra, a mais bela e etc. Fico feliz de eles terem mudado, mas já os outros “amigos” nunca existiram e eu ja fiz questão de apagar da minha história.

  • Com certeza, Karoline

    Eu tive um professora que sempre me incentivou, já que conhecia minha conturbada história famililar. E sempre me disse para usar o meu melhor talento: a inteligência. Ele me elogiava, me presenteava com livros. Se hoje consegui algo, tenho que agradecer e orar muito por ela.
    Mas isto realmente é uma constatação assustadora. Que os colegas docentes possam se conscientizar e mudar sua postura. Há inclusive, vários artigos de pesquisa da USP sobre o tema – inclusive, de como o negro é retratado no livro didático, e de como isto afeta sua percepção sobre seu papel na sociedade. Li na graduação, me marcou bastante..

    Abraços