Você está em casa, promove uma festa. Festa grande, você convida muita gente! A responsabilidade da segurança é sua, uma vez que a casa é sua. Durante a festa, um dos convidados resolve brigar com outros e se aproveita de seu tamanho e vantagem em número – ele está com amigos tão grandes quanto ele – para bater especialmente em mulheres e crianças. Não satisfeito em bater nos mais fracos, ele e os amigos também roubam bolsas e carteiras dos distraídos. Você, dono da festa, vê tudo e nada diz. Você poderia ter chamado a polícia, você poderia ter denunciado o criminoso, levado ele à justiça, e impedido que os convidados lesados tivessem que conviver com o criminoso. Você tem amigos influentes na justiça, poderia ajudar a punir os criminosos. Mas, não toma estas atitudes. Na verdade, você ainda escondeu as provas para macular o crime e não se envolver. No fundo, você não tomou nenhuma providência por que gostou do que os criminosos fizeram. O comportamento dos criminosos, na verdade, ajuda com que as vítimas sejam colocadas no seu lugar: elas nem deviam estar na festa, foram convidadas porque não pegaria bem você exclui-as. Se você não as convidasse, poderiam haver conflitos diretos, é melhor evita-los. Eles podiam sair do seu controle. Você as chamou, mas não garantiu o bem-estar delas, ainda que você fosse o dono da festa. Quando uma das vítimas reclama e pede que você tome uma providência, você, em nome das vantagens que os criminosos te oferecem, se resume a dizer “não compactuo com o que eles fizeram, eu abomino seu comportamento”. Mas, se você não tomou providências pela sua punição, além de omisso, você não é tão criminoso quanto?  

Esta situação poderia ser hipotética, mas ela não é. Ela é o retrato de situações de opressão que pretos, gays, mulheres vivem todos os dias. Substitua a festa pelos espaços de trabalho e veja o quão as empresas são criminosas ao não punir atos de opressão com o vigor necessário e inclusive exigido por lei. Quando pensamos nos espaços virtuais, tudo se agrava. O Facebook é o espaço em que acontece isso diariamente. E ainda que hajam denúncias o mecanismo de controle aos crimes virtuais adotado pela rede social é ineficiente e deixa os grupos oprimidos a mercê de qualquer tipo de criminoso uma vez que não há uma punição severa. Isso é um acaso? Com tanta tecnologia, o Facebook não pode criar um mecanismo mais eficiente?

Recentemente, na conta de Instagram da Risqué houve um caso de racismo com uma importante blogueira negra. Os comentários foram apagados e a Risqué fez  apenas um comentário que foi:

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“Oi meninas! Queremos reforçar que a Risqué é uma marca democrática, que valoriza a diversidade e NÃO compactua com qualquer tipo de manifestação preconceituosa. As fotos publicadas com a hashtag #RisquédaSemana são enviadas por nossas consumidoras com muito carinho e continuaremos reconhecendo e divulgando seus trabalhos (…)”

Prometeu tomar providências, mas, até então não encaminhou à justiça, não se colocou publicamente contra as situações de opressão ou fez uma campanha que constranja a racista.  A Risqué é a empresa líder no segmento esmaltes no país, com mais de 50 anos no ramo de produtos de beleza. Além disso, a empresa, desde 2015, é de propriedade de uma das maiores multinacionais do ramo no mundo, a Coty Inc.  A questão é: para uma empresa deste porte, a única providência a ser tomada diante de um crime que ocorre em seu espaço virtual é publicar um comentário entre tantos outros? Uma empresa deste porte não tem instrumentos para levar os criminosos a punição? Vamos refletir.

Caros, racismo é crime. Aquele que não faz questão da punição, que não preza pela proteção dos participantes em seus espaços físicos ou virtuais, compactua com o crime. Para mim, é óbvio: aqueles que não golpeiam crimes, são tão criminosos quanto. Não existe neutralidade quando uma parte é mais fraca e está sendo covardemente atacada, como é o caso do racismo. Se você não está comigo, você está contra mim.
No caso das empresas, só posso entender que elas compactuam com o racismo porque elas concordam. Compactuar com um crime, não tomar as providências que estão ao seu alcance também é crime! Para nós, não é aceitável uma empresa não tomar providências para coibir racismo, não é aceitável que a responsabilidade de coibir o racismo seja apenas de quem sofreu o racismo. Não existe racismo menor, não existe racismo inofensivo, porque os comportamentos racistas atingem mortalmente pretos e pretas. E, branco: se vocês não se movem diante de um caso de racismo você também é conivente! Se você se cala nos ambientes íntimos, para não se indispor com amigos e familiares, não adianta vir escrever textão no Facebook. Cada vez que você resolve ficar em paz com seus amigos e família e não coíbe o racismo nas relações cotidianas você troca a sua paz hipócrita pelo inferno que é ser vítima de racismo neste país desde que o primeiro preto foi arrastado para cá.

Não serei leviana de dizer que atitudes individuais tem o mesmo peso do que a conivência de multinacionais com atos racistas. As empresas, especialmente quando usam as redes sociais, são formadoras de opinião, influenciam milhares de pessoas. Para o bem e para o mau.  Uma empresa como a Risqué tem poder político e influência suficiente para movimentar milhares de pessoas. Óbvio que eles não têm interesse em mudar a estrutura racista, mas não se trata de interesse privado, neste caso, se trata do que é lei.  A Risqué, como outras que são permissivas, devem sim uma postura mais firme, não apenas por uma questão moral, mas também por uma questão legal. RACISMO É CRIME.

Para nós, pretas, que hoje já boicotamos marcas que não nos dão espaço, é fundamental também boicotar marcas que compactuam com os crimes virtuais, pressioná-las a tomar posturas mais firmes. Sabemos que para nós há muitos limites, mas não podemos nos intimidar diante destes limites. É importante lembrar que não estamos sozinhos e não recuaremos. Ainda que eu acredite que para as empresas não há interesse em combater o racismo, porque ele faz parte da estrutura capitalista que precisa dele para continuar firme, também acredito que devemos combater qualquer o ato racista, ainda que ele pareça inofensivo.

Além do mais, para nós, pretas e pretos, pequenas vitórias são fundamentais para que tenhamos o mínimo de dignidade possível no capitalismo e que possamos  acumular capital político. A luta nos fortalece. Cada momento de luta é um momento em que se fortalece a necessidade de unidade e o potencial de agruparmos mais pessoas em torno de um plano maior que, na minha opinião, é uma sociedade sem classes e opressões.
Portanto, o combate para que os racistas sejam constrangidos na sua festa particular, que nós estamos de intrusos, é fundamental para abalar as estruturas deles. E saibam: nós não queremos convite para sua festa, porque nós a invadiremos e acabaremos com ela.