”Tem coisas que não escapo delas para viver e quando digo viver é intenso mesmo – profundo, abismo, necessidade. É ser teatro, gritar canção, ser poema, ser corpo nu dançante. Não consigo ser estagnação, se paro um pouco para ‘relaxar’, a mente voa e cria mil projetos, mil polêmicas.” (bárbara esmenia)

nessa edição da coluna vertebral, entrevistei bárbara esmenia, ativista feminista, lésbica, atriz, articuladora no teatro da oprimida em sp, poeta! bárbara é minha parceira na padê editorial, uma editora de livros artesanais que montamos no ano passado pra publicar autoras negras periféricas/desconhecidas, principalmente, y outrxs pessoas queridas – especialmente quem compartilhe com a gente a vivência de estar no mundo em corações/mentes/espíritos/corpos dissidentes das normas heteropatriarcais, brancas, capacitistas, capitalistas, especistas – uma editora, enfim, pra espalhar as palavras de quem resiste às opressões: racismo, lesbofobia, classismo, manipulação do mau humor y depressão que tentam impedir que a gente viva, goze, dance, lute.
essa ênfase toda na padê é porque a entrevista foi feita na semana anterior ao 21/02, data do lançamento de {penetra-fresta} em SP, livro de estreia da bárbara y primeira publicação da padê. além disso, a coluna vai sair no dia da estreia do meu livro de poesia, lundu,, também pela padê – nosso segundo lançamento, dessa vez no DF.
quando conheci a bárbara em sp há uns dois anos, não imaginava que ia recebê-la em brasília pra primeira edição do slam das pretas, uma batalha de poesia que acontece dentro do slam das minas, primeira batalha de poesia exclusiva pra mulheres y lésbicas no brasil. esmenia foi a vencedora da batalha, em julho 2015, quando ela veio participar do festival latinidades (festival da mulher negra afrolatino americana y caribenha, evento internacional que acontece todo ano & é uma realização da griô produções, do DF). alguns meses depois, mantivemos contato y chamei ela pra montarmos a editora, inaugurada em fevereiro, mês de Yemanjá – orixá homenageada na nossa cole-sã Odoyá, de livros de poesia, que vai publicar além da bárbara y meu primeiro livro, o de nívea sabino (poeta maravilhosa de MG), dayse serena de sp, nanda fer pimenta do DF y uma pá de outras poetas pretas incríveis!.
fazer essa entrevista com a bárbara é uma forma de tornar pública a alegria de ter encontrado com ela na jornada, e em tão pouco tempo já poder contar com sua sabedoria, amorosidade y generosidade numa parceria muito frutífera que achei essa outra cabeça de Ventos de Oyá. espero que a entrevista alimente o coração de vocês como alimentou o meu!

ei querida, como você se apresenta? ou seja, quem é você, de onde é y onde vive, o que tem feito pra mover seu coração, movimentar os arredores?

Bárbara Esmenia. Sabe que Esmenia é nome próprio de minha avó, mãe de meu pai, que não conheci, mas minha mãe repetia que repetia que ela tinha o “gênio forte”. Esmenia a cada momento ganha mais força em minha vida. É como minha recente aproximação também com meu orixá, Oyá/Iansã (Bárbara também, mas da santa católica). Me dá força, sopro para seguir potente. Nasci em São Paulo, Penha, zona leste, e sempre morei nesta cidade. Ela sendo fluxo, movimento, me puxa sem esmorecer. Gosto, sabe.
Tem coisas que não escapo delas para viver e quando digo viver é intenso mesmo – profundo, abismo, necessidade. É ser teatro, gritar canção, ser poema, ser corpo nu dançante. Não consigo ser estagnação, se paro um pouco para “relaxar”, a mente voa e cria mil projetos, mil polêmicas. Assim nasceu meu livro, uma semana de folga no trabalho e, uau, posso publicar um livro em casa mesmo! Não sou dada a paradas. Lais, minha companheira, diz que sou muita disposição. O que ritma minhas ventanias é das pelejas também, sou muito briga, faísca incandescente, então o tempo todo é apontar/reconhecer precariedades, causar desconstruções, pensamentos não pensados. Sobretudo em mim mesma, não somente nas outras pessoas.

falando em mãe y avó, como você sente/define/pensa ancestralidade? e como faz pra equilibrar a vida nessa cidade em que ontem já é longe demais/amanhã muito cinza pra escutar, com herança de vó y benção de Oyá? ou não precisa equilibrar nada, dá pra viver tudo na entropia?

O equilíbrio desta cidade está em pulsar junto e cafundar um tempo outro no interno da gente. Aí chega Oyá dando o ritmo-batuque para este vibrar. A herança de avó, forte que só que era – “geniosa” – traz – na dialética total do exercer dela e o sentir meu – uma certa calmaria de seguir no caminhar de uma origem que permeia, que impulsiona minhas andanças. Ancestralidade por mim é sentida pela felicidade de não ser materialização (aqui no sentido de objetos, bens materiais, todo este excessivo que é dado tanto valor para), de ver gente rica tendo como tal os bens materiais, as heranças hereditárias, e de mim é ancestralidade de pele, de poros, de veias, de olhos fulminantes para o que discorda, pensa injusto. Ancestralidade de luta, de avós, avôs, bisavós, bisavôs que muito pelejaram para estarem no contraponto, resistirem e insistirem no que vida. Minha ancestralidade natureza que se amplia a este continente Abya Yala potente de mais que só. Muita força que tanto desconhecemos.


Bateu panelin, foi senhor?
Bateu panelin, foi senhor?
Tocou no cabo-madeira
com colher de pau da feira
da janela na Pompeia
ou na Vila Madalena
foi?
Beijou a mãe pela manhã
com flores desejou feliz dia
mulheres internacionais
– mulheres mansas,
mulheres lisas,
mulheres brancas,
delgadas cozidas –
– como bem quero, homem que sou
Trepou com a esposa
lambuzando chocolate
deixou os filhos com a babá vestida branco-uniformizante
-pra que se a velha não tem mãe?
– pra que se abortou foi todos filhos?
– pra que vai querer folga?
– pra que
Comeu risoto quentinho
pelas mãos da mulher preta
na panela inox prime
revestida antiaderente
lambeu beiços bicos brancos
flores para a
professora da filha
escola particular
– amante, claro, porque sou homem, doutor –
telemensagem para a garota vizinha
Final noite
liga barraco mulher-doméstica
-Dona Zefa, onde guarda as panelas aqui de casa?
Dona Zefa, extremo-sul
nem ouvindo de alto ligação
panelas todas
cisternamente
recolhendo
águas das chuvas


você quer contar um pouco mais do processo de produção dos livros, especialmente a seleção dos poemas? alguma coisa da outra parte do processo eu tenho acompanhado, mas queria saber se você em algum momento se pegou pensando “isso aqui é muito hermético” ou algo assim. acho que essa inquietação minha tem a ver com aquilo que conversamos outro dia sobre os limites da representatividade na poesia negra marginal(izada) contemporânea, especialmente aquela feita por mulheres, de ter um repertório de temas y formas mais ortodoxo, em alguma medida chapado, y da dificuldade de compartilhar nossos poemas porque são considerados difíceis, incompreensíveis.

Criei há quatro anos um blog com o pensamento de reunir num mesmo suporte meus escritos. A partir dele eu vou salvando num documento e organizando as criações. Nunca pensei em publicar um livro, mas com esta ideia nascendo começo do ano passado, foi o momento de ler um por um dos escritos do blog e alguns juntar por temáticas, por correspondências. Aconteceu um processo interessante numa busca mais sintética que foi não gostar mesmo de muitos poemas dos primeiros anos, acho ruins mesmo, mas com uma essência que ainda brotava vida. Então o que fiz foi trabalhá-los, mexer neles, transformá-los. Nisso, foram jogos de palavras, busca de sínteses, ressignificados. Encontrar o que é hermético assumido (no caso, os que são mais formais mesmo e assumidamente isso) e os mais comunicativos, facilmente compreensíveis. Nisso fica um fluxo/trama de forma/conteúdo interessante que perpassa várias possibilidades de uma escrita poética.

& você é feminista? como você define e vive (algum tipo de) feminismo na sua vida cotidiana?

Sim, feminista. E isso é corrente-todo-dia mesmo. Seja em como eu recebo os movimentos do mundo, seja, sobretudo, como eu reajo à eles. Sobretudo em como eu reajo à eles porque nem sempre o machismo chega escancarado, ou chega diretamente à mim, então tenho uma coisa comigo que é nunca, nunca deixar nada passar. Seja o mínimo comentário, seja a sutileza, seja o riso travestido na piada, pode ter certeza de que eu comentarei algo, indicarei, farei o contraponto, provocarei a reflexão. Isso é prática constante. É claro que me refiro aqui às situações favoráveis. Claro que se forem situações de coerção, pavor, violência não tem como. Então o feminismo em mim se manifesta neste cotidiano, no conversar com as minas, reconhecer, pensar mudanças, militar.

& sobre o que rolou no slam das pretas, no festival latinidades, em julho passado no DF… quero saber se você tem pensado ou pensou, outras vezes depois daquelas conversas que tivemos, sobre essas políticas coloristas, ou os medidores de melanina, de crespice capilar, de uso de indumentária/acessório/postura/conduta “realmente afro” (o que eu ainda hoje não entendo bem o que é). foi muito espantoso pra mim ver aquilo rolar porque, primeiro, quando você se inscreveu na batalha eu e valéria matos (que na época organizava o slam das minas y o slam das pretas comigo) não questionamos sua negritude (e pô, eu já tinha te conhecido antes, isso não tinha sido uma questão); depois, quando c se apresentou, o júri também não questionou sua negritude (cinco mulheres negras, entre elas eu, a pesquisadora anne caroline quiangala, a poeta bebeth cris, a ativista lésbica luana ferreira – nós 4 do df – a poeta roberta estrela d’alva de sp). fiquei de cara que, inclusive, uma dessas juradas que, durante sua participação, em nenhum momento demonstrou incômodo ou perguntou às outras sobre sua negritude, dias depois se manifestou com posicionamento colorista dizendo que você era colonizadora branca por estar ocupando um lugar de pretas.
foi muito cabuloso passar por isso, não só porque acusaram o slam das minas y o slam das pretas de ser racista, mas principalmente porque eu acho extremamente colonial o sistema de classificação de corpos/cores, num país em que a negritude inclui pessoas negras de pele parda, afrodescendentes, como eu; y no mesmo evento eu tinha visto a conferência de yaba blay, uma pesquisadora com perspectivas que me emocionaram muito, definindo o colorismo e dizendo ser uma perda de energia brigas dentro da comunidade negra pra atestar “quem é mais negrx” enquanto o genocídio do povo preto devora vidas todo dia… também foi foda o veneno escorrendo nas redes sociais mas nenhuma crítica ou sugestão ou questionamento sendo feito a mim diretamente, já que eu organizo a parada, sendo que muitas das críticas foram feitas por pessoas que me conhecem e com quem até já atuei no movimento de lésbicas, de mulheres negras, feminista… enfim, venenão. me contaí o que c tem pensado sobre isso depois desses meses, e nesse momento de vigilância/contestação melanínica cada vez mais acirrada.

Vamos à resposta, e nessa você me encrencou porque é difícil pacas, e olha eu correndo para responder, então acho que sairá uma resposta meio vaga/meio em construção como – ainda bem! – têm sido meus pensamentos sobre esta questão [mais em construção do que vagos].

Estando dentro das militâncias de negritude, tenho observado algumas mudanças ao longo, sobretudo, dos últimos dois anos e muito por conta de uma série de rupturas com construções introjetadas em processo de desconstrução. Nisso, as confusões são múltiplas e o que se defende às vísceras em um momento, em outro alguém escreveu algo, divulgou em rede social, e lá se vai o repensar do que antes de acreditava com tanta convicção. Isso tem a ver também com a rapidez de informações (que não são sempre conhecimentos e experiências).

Este é um processo interessante porque cada vez mais me coloca no reconhecimento de como são/foram perversas nossas colonizações que usurparam uma identidade de terra, de continente. Por exemplo algo que me incomoda muito e que ainda precisam nascer escritos sobre para que pensemos e discutamos mais é a questão da América Latina. Nisso fica este Brasil descolado, enquanto as nossas referências teóricas mesmo mais encontradas seguem sendo em língua inglesa. Saca como são muitas sutilezas? E nisso os múltiplos pontos de vista sobre ser negra/o, branco, este colorismo. Algo evidente é que o racismo é sofrido evidencialmente por questão de tom de pele sim. Uma preta com mais melanina certamente sofre mais do que uma preta de pele clara. No entanto, para quem é mesmo branca/o, para “donos do poder”, está “claro” quem é branco quem não é. E assim segue o genocídio do povo preto. Nisso, observar minas negras definindo quem é negra, quem não é, é um pouco sim deste rachar por dentro, de bater em quem está do lado, nos mesmos corres (mesmo que com vivências diferentes). Aí penso que entra uma reflexão que costumo fazer que é a “vontade/desejo/necessidade de atingir pessoalmente”, uma vez que “inimiga/os, inimiga/os mesmo” não encontramos pessoalmente, podemos passar uma vida toda sem nem cruzar com um chamado grande empresário, com aqueles caras capa de revista financeira. E aí como a ardência é da materialização e estes sujeitos estão num plano paralelo, no plano midiático inalcançável, então direcionam-se as energias da luta para arder com quem é materializado, com quem está pessoalmente para a peleja, para a discussão, para o descarrego da raiva da injustiça, da força guerreira. Venho a um tempo construindo este pensamento mas, como tudo, é uma construção contínua.


vidas não valem – 4. comungar
batizada
católicaigreja
catequizada
pós-crismada
só foi entender
comunhão
corpo nu
perante
outrem

o blog da bárbara é o barbaraesmenia.blogspot.com
vamos estar juntas lançando os livrinhos (de novo!) no dia 10/03 no sarau sobrenome liberdade, saca mais aqui: https://www.facebook.com/events/236712726662706/
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