E eu, negra, não sou uma mulher?

Eu comecei a me interessar pelo feminismo há uns anos. Antes, tinha uma visão generalista e meio romantizada do movimento. Foi quando engravidei e passei a questionar uma série de coisas na minha vida e por consequência na sociedade (ou seria o contrário?) que comecei a ler mais sobre o assunto e também a me firmar mais enfaticamente como mulher negra.

Até então, eu me identificava com a história de mulheres que lutaram pelo direito de voto, que lutavam por melhores condições de trabalho, que lutaram pelo direito de se divorciar etc. No oito de março, olhava as fotos que ilustravam a vida de operárias, como aquelas que foram incendiadas em Nova York, e me sentia tão próxima delas. Dessa luta, da angústia de querer mudar, de tentar fazer com a que a minha filha não tenha que passar pelas mesmas opressões que eu.

Há muitos anos eu já me posicionava como negra, mas isso era um fato menor… Afinal, eu não sabia direito o que era o racismo e as consequências dele na minha vida. Mas, quando passei a estudar mais sobre o assunto, temas como a representatividade começaram a fazer parte da minha rotina. Inconscientemente meus olhos passaram a buscar pessoas negras em todos os espaços. Foi quando comecei a não me ver naquilo que estudei como sendo a História.

A História que aprendi ao longo da vida é uma história contada sob o ponto de vista eurocêntrico… Ainda é muito voltada para os feitos dos homens. Aos poucos as mulheres foram ganhando alguns capítulos e linhas. Isso suscita o que Chimamanda Adichie fala de o risco de uma história única: quem contou a nossa história só enfocou os pontos que julgou ser interessante, dentro de suas perspectivas de e vivências.

Mas e as pessoas negras? Zumbi foi a única referência que tive. Super pontual, algumas linhas no livro. E as mulheres negras? E nós? E eu?

Quando eu olhava o feminismo, o movimento parecia ser uma grande massa de mulheres lutando contras as mesmas coisas, mas com o tempo aprendi que havia diferença nas pautas. Foi quando passei a “enegrecer o meu feminismo”, como diz Sueli Carneiro. Direito a trabalhar: a negra sempre trabalhou, foi escravizada e depois migrou para o cargo de empregada doméstica. Direito ao corpo: a relação da mulher negra com o corpo sempre foi diferente da relação da mulher branca: nossos corpos sempre estiveram expostos. Por isso, querida feminista, me desculpa quando não discuto tanto a opção de me depilar ou não, tenho urgência em lutar contra outras coisas, como a minha vida, já que a morte contra as mulheres negras cresceu 54% no Brasil, como ressaltou o último mapa da violência. Direito ao voto: vocês sabem o porquê de só vermos mulheres brancas votando, em fotos que ilustram a época do voto feminino no Brasil? Porque o voto só se tornou obrigatório alguns anos mais tarde. Vocês acham que as patroas liberavam as empregadas para votar? Bom até hoje há quem não se conforme com os direitos que as trabalhadoras domésticas alcançaram nos últimos anos no Brasil.

Há uns dias quando várias páginas falaram do direito ao voto das mulheres no Brasil, eu ficava em todas as fotos procurando as mulheres negras. Não achei. Quando o filme “Sufragistas” estreou, eu não fiquei tão tocada, como ficaria antes. De fato, ainda nem assisti. Mesmo sabendo que as sufragistas inglesas eram majoritariamente brancas e que a não branca mais conhecida é a indiana Sofia e que ela foi apagada na narrativa em função de sua condição econômica ser privilegiada. Confesso que fiquei muito incomodada com a fala “eu prefiro ser uma rebelde que uma escrava”, que foi dita no filme e ilustrou a camisa das atrizes em sessões de fotos. Eu gostaria que às mulheres negras que foram escravizadas tivessem dado essa escolha.

Não, mulheres, não somos uma grande massa uniforme.

Eu sei que neste oito de março vão surgir imagens de operárias. Eu sei que vão falar da tragédia que marcou a data. Devem fazer isso mesmo. Porque foi uma tragédia. Mas continuo aqui inquieta tentando me ver nesse contexto. Tentando me encontrar nessa história do oito de março. Tentando entender porque as nossas tragédias são minimizadas, foram naturalizadas e muitas vezes nem são questionadas.

A minha inquietação não é para desmerecer as conquistas dessas mulheres, mas sim tentar me enxergar nos fatos, nas imagens. Por que a história é branca? As pessoas negras não participaram, foram apagadas, tiveram suas participações minimizadas? Quando os poucos fatos históricos que conhecemos dizem respeito à mulher, eles se referem à mulher branca. E fica o questionamento de Sorjournet Truth… E eu não sou uma mulher?