Desde (mais) miúda eu queria ter cabelo grande, quem me conhece sabe bem. Toda menina bonita na escolinha (e nas revistas, e na tv…) tinha cabelo assim, e eu queria ser bonita também. Cabelo grande e liso. E o meu daquele jeito, sempre trançado ou alisado, com as pontas muito mal tratadas pra passar muito mais que da altura dos ombros. “Mas é assim mesmo né, cabelo “”ruim”” não cresce muito”, sempre tinha alguém pra justificar. Até que parei de alisar, e depois, de cortar. E foram surgindo aqui e ali mais pequenas batalhas dessa grande guerra que foi me manter eu mesma: “Corta só as pontinhas”, “Que juba”, “Mas pra sair você arruma né?”, “Você lava normal?”, “Cabelo crespo e ainda mal cuidado, não dá”, “Os meninos preferem liso”,  “Deve dar tanto trabalho…”, “Minha filha/sobrinha/prima tinha o cabelo igual ao seu, mas depois consertou”, “Pelo menos o seu não é assim, tão duro”, “Você fica bem mais bonita com ele liso”….E a pele uns tons mais clara nem sempre me salva de ser taxada de exótica pelo meu “pé na senzala”, que sempre levou o corpo todo junto e me pôs nesse mundo com carne preta, boca e cabelo de preta, alma de preta e fogo nas veias vindo da chama viva dos meus ancestrais.

No meio da selva de espinhos, fui me criando margaridinha, não a mais bela do jardim, mas cá com minhas pétalas sadias, sustentadas nas secas e nas tempestades. De vez em quando cai uma aqui outra ali, mas brotando sempre, enraizando, cultivando semente.

O cabelo virou símbolo e foi mudando de significado conforme eu ia me percebendo enquanto mulher negra, e fomo-nos emaranhando um no outro, ora mais descompassados hora mais harmoniosos, mas ali, juntos, enlaçados, caracolizados. A vontade de deixar os fios “baterem nos joelhos” mudou de motivos, saiu da caixinha de estética da menina ideal bem comportada, lisa longa e arrumada imposta pela sociedade e ganhou um ar mais politizado, entrou na resistência. Vai ter cabelo enrolado grande sim, não é só liso que pode, que consegue. E vai ser armado, espalhafatoso, andando de coque bagunçado o tempo todo ou com juba, de leoa. E  “não tão definido”, porque, bem, indefinida sou eu também. A definir.

Mas o que teve pra hoje foi que, depois devidamente vestida com meu vestido verde espiei de novo no espelho, cabelo solto e sorriso aberto e me senti uma das mais belas criaturas da terra. Sem pretensão de virar modelo ou arrancar suspiros, só apreciando a vista e me dando ao luxo de me achar, por alguns segundos que fosse assim, bonita.

Foi quando decidi cortar o cabelo.

Não quis raspar nem nada, foi coisa pouca, não mais que uma repicada de três dedos só pra sentir o gostinho de uma mudança. E depois de discutir, pensar, ser questionada, refletir, consultar (a lua), quase desistir, ler coisas inesperadas (que me deram ânimo pra caminhar para a tesoura) finalmente serenei.

Cabelo cresce. O meu, ainda que depois de anos, cresceu. E crescemos juntos, eu e ele. E ambos ainda iremos crescer bem mais, eu tenho certeza. Cortando umas coisas aqui e ali, velhas pontas ou velhos hábitos, mas sempre crescendo. E talvez ele tenha ficado uma vassoura – como disseram – mas juntos, limpamos a alma.