Os últimos dias tem sido de ansiedade e medo para alguns brasileiros. Na verdade para mais da metade da população brasileira: para mulheres, negros e pobres.

Desde que este país falsamente aboliu a escravidão (quando a lei foi assinada, 70% da população negra já estava livre), a nós é destinada as piores condições, as piores estatísticas. A nós é relegado o resto, a sujeira, a cadeia e a morte.

A verdade é que, analiticamente, os tempos nunca foram fáceis pra nós, mulheres negras, esteio desse país construído com nossas mãos nas cozinhas alheias, nas casas grande, nas roças plantando e colhendo, nos chãos das fábricas e nas salas de aula. E não é de hoje que estamos nas ruas, a nossa manifestação não começou quando ficamos indignadas com o resultados das urnas, não empunhamos bandeiras apenas no último ano: estamos resistindo desde Dandara, em cada quilombo não reconhecido como terra, em cada ocupação no interior deste país, em cada favela. Estamos nas ruas do mendigo que grita uma moeda até as manifestações por meios de transportes mais baratos, pela luta contra a violência contra a mulher, nas marchas de mulheres negras e contra o genocídio do nosso povo.

Nunca estivemos assistindo caladas ou pacíficas a nossa destruição, tampouco somos cegas ou burras que não entendemos a conjuntura atual. Sobre ela, eis o que está posto: Nos últimos anos a ultra direita vem crescendo não somente na América Latina, inclusive nos países ditos desenvolvidos, contando com o recrudescimento de leis que preveem a garantia dos direitos humanos – sobretudo aquelas que versam sobre os direitos das “minorias políticas” como a população LGBTT, os imigrantes e negros. A gente não se esqueceu da França e da Itália, que tem tido uma política repressora no que diz respeito aos refugiados e a migração dos povos, vindos principalmente dos países africanos.

Em curso, temos a eleição norte americana, onde a mídia faz com que um candidato de ultra direita ganhe mais destaque por sua caricatura e insensatez do que pelo seu plano de governo para o país. Estratégia que a gente pode perceber claramente na direita brasileira: a exacerbação de pautas tão esdrúxulas (como a intervenção militar e o fim da corrupção) que nos deixam aterrorizados e sem pensar. Por isso, esse momento não é um privilégio do Brasil, não somos os únicos na história atual a passar por essa dita “polarização”.

A política do terror que conta com o espetáculo midiático protagonizado pela maior empresa de comunicação deste país tem um propósito: nos transformar em zumbis, massa para manobra, seres irracionais e regidos pelo medo. Mas temos memória! O país já passou por isso em diversos momentos políticos e o povo negro conhece as estratégias de silenciamento, de distração e de repressão. Entendemos que este espetáculo tem por objetivo nos manter desatentos às nossas pautas, as nossas demandas e partir para o ataque como numa guerra onde há apenas dois lados.

O clima criado pelas mídias hegemônicas e pelos formadores de opinião ditos “contra a corrupção” nos coloca acuados e nos força a escolher um lado. Os cidadãos de bem estão nas ruas, perseguindo os que tem “cara de petistas”, os vestidos de vermelho, independente de serem mulheres ou crianças. Palavras de ódio, misoginia e agressões estão acontecendo em tempo real, motivadas por um projeto imbecil de impedimento e com a desculpa de acabar com a corrupção. Este grupo, que está fora de ser um grupo homogêneo, mas que ameaça nossas liberdades – de ir e vir, inclusive – e que tem a coragem de escrever nos muros das universidades “Fora PT e devolvam os pretos pra senzala” nos coloca de um outro lado.

E nenhum dos ditos “dois lados” estiveram do nosso lado. Pareados com as mulheres negras, com as mulheres trans e com a população pobre deste país. Houveram avanços, sim! Mas a que preço? Estamos nas universidades, mas como nos mantemos lá com cortes de bolsas, restaurantes universitários sucateados e perseguições de reitores fascistas?

O acesso a saúde pública melhorou, mas pra quem? As mulheres negras continuam morrendo de câncer, sofrendo nas salas de espera seja por parto ou aborto. Temos acesso a bens de consumo, mas com juros altíssimos que nos deixam endividados, pagamos a conta de energia que é um absurdo e ainda somos nós que sofremos com o acesso restrito a água e ao saneamento básico.

Por isso, estamos do nosso lado. Do lado de um outro projeto político pra esse país. Queremos e exigimos que nossas antigas pautas sejam ouvidas, atendidas.

Queremos Reforma Política e que nosso modelo de eleição mude. Exigimos dos legisladores compromisso com leis que garantam nossos direitos sociais e civis.

Queremos Democratização da Mídia, onde as concessões públicas sejam avaliadas, desfeitas, redistribuídas e fiscalizadas, onde cada produtor de conteúdo, cada jornalista e comunicador deste país tenha garantidos o acesso a equipamentos, ferramentas e liberdade de expressão.

Exigimos a Reforma Agrária! Por anos de não acesso a terra, negada desde 1850. Pela negligência do estado em anos de não demarcação de quilombos e aldeias.

Exigimos a desmilitarização da polícia militar e investigação de todos os crimes conta negras e negros pobres mortos em suas comunidades. Queremos reforma desta instituição falida e racista, que só nos mata.

Sabemos que a dita democracia que vivemos no país ainda não chegou pra gente, ela é restrita e qualquer retrocesso terá impactos grande em nós. O que se vê é a ascensão de discursos de ódio que recaem fortemente sobre quem faz parte de alguma “minoria” como é nosso caso. O que sabemos é que na ditadura, negras e periféricas lutaram contra o sistema e nem sequer tiveram apoio de advogados ou algum privilégio quando presos. A corda sempre arrebentou para o lado mais fraco, e no Brasil esse lado tem cor, gênero e classe.

Por isso, não há um outro lugar onde devamos estar senão do lado das mulheres negras!