A privação das mulheres negras ao atendimento e acompanhamento médico adequado é um tema histórico que vem carregado de estatísticas. São as mulheres negras que mais sofrem com a mortalidade materna, a falta de informação sobre o aleitamento, bem como o não acompanhamento durante a gravidez. Sem falar no tempo de atendimento dispensado que geralmente é menor do que o atendimento a uma mulher branca. Fatos como esse fazem com que a mulher negra além de não ser assistida devidamente, também se sinta inibida diante do cuidado com sua saúde. Questão básica.

Mas quando se tem mulheres negras no papel de médicas e profissionais que prestam assistência à saúde o quadro tende a mudar. Nos pequenos detalhes que promovem o  reconhecimento estão o aumento da consciência, confiança e amor próprio de cada mulher negra. Do outro lado, está no papel de provedora desse cuidado e poder traz a sensibilidade no olhar com a outra. Uma porta é aberta e não há limites para um novo curso dessa história de apropriação do próprio corpo.

Confiram a entrevista com Talita Rocha – médica de família e comunidade, doula, negra e feminista.

Talita, você é negra, médica e trabalha em PSF (Posto de Saúde da Família). Você lida no dia a dia com mulheres negras e pobres, como você vê o histórico de inibição dessas mulheres em relação à sua própria saúde?

Pra começar a falar e perceber essas mulheres com esse recorte de gênero,  cor e classe social precisei me enxergar nesse processo. Durante a minha formação apesar de ser negra só fazia a discussão de gênero e classe. A escolha por trabalhar na saúde da familia partiu a principio dai. Desde muito cedo na formação não acreditava em uma saúde que privilegiava uma minoria, não acreditava que tinha escolhido ser profissional de saúde para selecionar quem eu cuidaria. As discussões de gênero surgiram também ainda no processo de graduação dentro do movimento estudantil de área que participava, mas enxergar o recorte da cor demorou mais um pouco. Hoje acredito que para enxerga-lo precisei me reconhecer como mulher negra e perceber as peculiaridades e diversidades que isso traz experienciando essa diversidade em mim.

Em todas as unidades de saúde da família que trabalhei, como de costume, a maior parte da sua equipe é composta por mulheres e a cor negra da pele esta presente em quase todas excetuando-se na categoria médica que ainda hoje se vê em menor quantidade.  Mas mesmo com essas “igualdades” rondando o não dito do dia a dia da unidade, a postura das mulheres dentro do consultório é sempre incialmente de mais calada, cabeça baixa, com ar de pouco poder naquele espaço. Por vezes uma sensação de estar incomodando se fica muito tempo ali. É comum quando uma consulta demora mais sempre ter uma frase do tipo: “o pessoal lá fora não vai entender porque eu to demorando tanto” ou “ mas eu já estou te atrapalhando não é doutora”. Percebi nesse tempo trabalhando que a priorização do que é possível ou não sofrer também existia. Não é incomum que as queixas trazidas por mulheres que tem uma condição socioeconômica melhor é muitas vezes diferente. Principalmente no que diz respeito a saúde mental. Trabalhando em uma unidade recentemente com uma colega percebi que suas pacientes demandavam muito mais questões psíquicas do que as minhas e a diferença da área em realidade socioeconômica era gritante. Comecei a me questionar se eu não estava dando abertura para as mulheres se abrirem ou se de fato era uma outra questão. Comecei então a ser mais direta no questionamento do sofrimento psíquico e de forma bem regular recebi respostas como se isso não fosse importante agora ou se ela não tivesse tempo para isso.   “Não ter tempo para isso” é bem o reflexo do cuidado ofertado e solicitado por essas mulheres no dia a dia. Perceber com o tempo que toda vez que uma mulher negra e pobre entra no consultório ela acha que esta ali para o básico e que não precisa ou não merece outro tipo de atenção me fez e faz acreditar que outros tipos de relação precisam ser estabelecidas. Dentro e fora do consultório médico e talvez mais ainda fora do consultório porque prestando atenção na dinâmica da unidade essa mesma mulher quando esta na recepção, na porta, na sala de triagem as risadas, e o tom de voz é sempre mais vivo e alegre.

Baseado em suas experiências profissionais, você acha que um descuido ou atendimento diferenciado pode ter afetado a relação dessas mulheres com seu próprio corpo ao longo de suas vidas? Como percebe isso no dia a dia de atendimento?

Sim.  Quando converso com algumas mulheres durante a consulta ou fazendo o exame físico não é incomum que elas relatem que nunca um médico tinha feito tantas perguntas ou examinado tantos lugares do seu corpo. Assim como com o tempo de confiança falam de histórias de agressões vividas em ambientes que eram para ser de cuidado. Relatos de partos violentos, procedimentos cirúrgicos desrespeitosos, atendimentos desumanos… vivencias que a resiliência aprendida na vida ajuda a superar, mas que marcam e moldam um jeito, uma postura ou uma crença do “como é” ou do “como deve ser”.

E se a gente pensar onde estão os serviços de saúde e a quem eles tem servido talvez só reforce esse jeito de pensar. A cobertura de saúde da família em vários municípios do Brasil ainda hoje é muito baixa assim como a falta de profissionais é comum. Também é fácil ouvir relatos de profissionais descompromissados, que não cumprem carga horaria e que continuam atuando na atenção básica. Me pergunto se esses serviços estarem comumente nas regiões de maior vulnerabilidade das cidades tem influencia nesse jeito de se fazer as coisas. E quando vejo que a postura de um mesmo profissional que trabalha para o SUS e para a rede privada é muitas vezes diferente a depender do lugar que ele se encontra minha pergunta é respondida.

Mas infelizmente a história de vida de muitas dessas mulheres não é marcada só por esses eventos institucionais de agressão. Historias de desrespeito, violência física e diminuição da auto estima por parte de seus parceiros, filhos ou outro individuo de seu convívio diário (o gênero nesse momento também não é uma coincidência) também reforçam a sua visão de mulher no mundo e a crença do que merece ou não receber.

Você tem acompanhado o surgimento de um trabalho diferenciado com o PSF, mais próximo, mais direto com essas mulheres e famílias. Quais transformações você tem acompanhado entre essas mulheres e a relação com a busca por saúde?

De fato o potencial de uma nova forma de cuidado é muito grande. A possibilidade da construção de uma relação mais horizontal e respeitosa entre os indivíduos favorece que essa cisão seja aos poucos reconstruída. Não tem sido algo fácil ou rápido de se fazer até porque demanda reflexão e mudança de postura diária além da confiança de todas as partes que desse jeito “novo” vai dar certo. Mas já é possível ver pequenos novos comportamentos como olhares com mais cumplicidade, vozes mais altas, questionamentos sobre o porque de uma ou outra proposta terapêutica, um ou outro sorriso largo no meio da consulta. Sem dúvida as mudanças sociais que vivemos nos últimos anos no pais como a titularidade feminina no bolsa família, o acesso cada vez maior as universidades por meio de créditos estudantis e programas como PROUNI e SISU, as diversas discussões sobre garantia de direitos e mais recente, mas não menos importante a discussão política sobre o cabelo crespo e a importância e beleza de cultiva-lo tem permitido a essas mulheres ocuparem um outro lugar. Ainda tímido, mas crescente.

Ser médica, mulher, negra e com um black power nos últimos tempos tem causado estranheza e curiosidade para mim também. Com o passar dos dias mais mulheres tem usado a consulta para perguntar dicas de cuidados com o cabelo ou maquiagem. E na equipe, como disse prioritariamente feminina também o horário de almoço tem servido para dicas, elogios e workshop de amarrações de turbantes.

Você desenvolve algum trabalho além do seu atendimento médico com essas mulheres. Qual sua impressão dessas experiências?

Desde o primeiro ano de trabalho que com a ajuda de outras profissionais fazemos espaços de conversas com mulheres. Não é incomum nas unidades existirem grupos de saúde, afinal os espaços de educação em saúde já são entendidos pela Estratégia de Saúde da Família como parte importante no cuidado que é ofertado as pessoas.

A maioria da população que sempre frequenta esses espaços é majoritariamente feminina, mas apesar disso e com o tempo nas consultas e no dia a dia da unidade percebemos que dificuldades com a sexualidade e auto estima era muito presente nos discursos das mulheres e nos grupos já existentes não havia espaço para falar sobre o assunto. Um dia, fora do serviço em um ambiente pessoal de confraternização da equipe e conversando sobre as nossas demandas percebemos que um espaço para falar sobre isso voltado exclusivamente para mulheres poderia ajudar todas nós. Surgiu então a idéia de criarmos o “conversas íntimas”, um encontro semanal de mulheres aberto para a equipe e pacientes para falar sobre nós. O estreitamento dos laços entre as profissionais e as pacientes foi real, maior abertura e conhecimento dos pormenores da vida de cada uma, maior preocupação e interesse sobre cada situação apresentada. Vibrávamos com cada novidade positiva ou pequena conquista. De uma mudança de casa, uma melhora no quadro de saúde ou a decisão de colocar um brinco ou um batom vermelho.

Essa experiência durou um ano e alguns meses, até as profissionais saírem da unidade por questões de gestão pública dos serviços. O aprendizado sem dúvida foi intenso e só reafirma a importância e necessidade da construção de novas formas de relação. Para além do formato ou espaço mas a maneira como as pessoas se relacionam é que é potencial para as transformações.

Você vê diferença entre as mulheres mais velhas e mais jovens na questão do cuidado com a saúde? Você acha que essa diferença se dá pelo crescente empoderamento dessas meninas?

Sem dúvida as diferenças existem. Tenho visto mais crianças negras com seus cabelos soltos e naturais, vejo mais adolescentes falando sobre seus relacionamentos e seus desejos de futuro. Sobre olhar a realidade que vivem e terem não só o desejo, mas a confiança que vão poder viver diferente. Mais perguntas sobre o porque de um remédio ou para que ele serve. Mais autonomia para escolher seu método contraceptivo. Uma postura mais afirmativa na hora de falar da necessidade de usar preservativo e do não desejo de engravidar. Recentemente ouvi da mãe de uma adolescente no consultório que ela não pensava em casar e ter filhos porque ela era feminista. Até então a mãe estava conduzindo a consulta falando o que a menina sentia ou não, mas nesse momento pela primeira vez depois de uns 15 min de consulta ela começou a falar. E falou porque era feminista e porque não estava pensando em casar. Para mim a consulta passou a ter sentido naquele momento e para ela acredito que também. Falamos sobre nossas similaridades e diferenças já vividas e a mãe nesse momento comentou como estava sendo engraçado falar sobre “isso” ali.

Até pouco tempo ainda não tinha clareza de como a minha figura (mulher, feminista, médica e negra) influenciava no meu dia a dia de trabalho até começar a viver experiências assim. Ou ser surpreendida com uma criança entrando na sala do consultório para tirar foto com a médica “negra linda” dela. Ou ouvir de uma agente comunitária de saúde que na “área” ela ouviu uma paciente falando que “essa médica é boa porque é da cor dela”.

Mas é claro que apesar desses momentos outros não tão positivos também acontecem. Como o preconceito de um colega de trabalho ou de uma paciente exatamente pela médica ser negra. Tenho usado esses para crescer e reafirmar a importância de cada dia mais conseguir ser uma referência e pautar meu trabalho pensando na representatividade e responsabilidade que tenho no espaço que ocupo.

As mudanças vêm acontecendo e são crescentes, mas ainda a passos tímidos por conta de diversas condições materiais que nos imprime o dia a dia. Reconhecer suas pequenas manifestações tem fortalecido o meu estar no mundo.

Além de médica, você é doula. Conta sua impressão sobre essa prática antiga e recentemente reacendida diante as discussões sobre parto e maternidade.

De fato acho que a construção da frase foi correta. “além de médica, sou doula”. Alguns falam que além de doula sou médica, mas nesse caso, para mim a ordem dos fatores alteram o produto. rsrs Tenho percebido com essa nova prática que a doula vem influenciando mais a médica do que o contrário. O contato com a discussão do parto humanizado e da importância de reconstruir esse espaço de poder feminino sem dúvida veio com mais força depois que a doula surgiu. Reconstruir um ambiente de gestação, parto e pós parto em que mulheres se apoiam, se cuidam e se empoderam juntas faz reacender o sentimento de sororidade, respeito e igualdade entre os pares. Reforçam que um momento tão fisiológico e ao mesmo tempo tão poderoso e transformador (quando escolhido) precisa ser vivido da forma mais completa e respeitosa possível.

Ver mulheres acreditando e tomando as rédeas desse momento, gritando, chorando, ficando nuas pelo meio de suas casas e hospitais tocando em suas vaginas abertas, abrindo mais do que as pernas para parir, abrindo a alma, é mágico. É poderoso.

Mas estar atuando no SUS e ter toda a minha trajetória na saúde da família me faz questionar como fazer também as mulheres que eu atendo na unidade de saúde terem acesso as informações e aos seus direitos cumpridos. É fato que o movimento pela humanização do parto e nascimento tem tomado proporções cada vez maiores com cada dia mais pessoas se aproximando e decidindo lutar contra esse modelo medicalizado da gestação, mas é importante ressaltar que ainda o acesso às principais mudanças tem sido definido pela cor da pele e condição financeira. A luta por essas mudanças precisa atingir e mobilizar os trabalhadores e usuários do SUS de forma mais visceral para que os avanços sejam vistos de forma mais expressiva na rede pública de saúde. Os esforços existem, mas ainda trazem respostas em menor proporção e magnitude que na rede particular de atenção.

Algumas experiências positivas tem acontecido e precisam ser pontuadas como o trabalho das doulas voluntárias em algumas maternidades publicas,  assim como as propostas de doulas comunitárias que tem surgido pelo Brasil. Uma outra ferramenta importante que tem surgido e que precisa cada vez mais crescer dentro e fora das unidades de saúde são as rodas de gestantes. Espaços de troca de experiências, informações, medos, angustias, e felicidades que rondam a gestação, o parto e o pós parto.

A disputa pelo direito de viver o seu parto ainda é grande e se faz necessária e diária, mas aos poucos e com muitas mãos será realidade e rotina nos diversos serviços públicos e privados do país.