Ingressar na Universidade é uma tarefa árdua para nós, mulheres negras, principalmente quando moramos nas periferias da cidade. Geralmente as melhores Universidades ficam localizadas na região central e, além da questão da distância, enfrentamos também a dificuldade financeira para ficar em dia com mensalidades, despesas com cópias, transporte e alimentação.

Muitas de nós não pode se dar ao luxo de estudar apenas, pois trabalhamos durante o dia todo e estudamos pela manhã ou pela noite. Sabemos que o racismo institucional barra nossa presença em espaços de poder como a academia e também em postos de trabalho de maior valorização e remuneração. Sendo assim, muitas de nós temos uma dificuldade maior ainda para não só ingressar como permanecer na Universidade.

Hoje em dia vemos as estatísticas mostrando como as Universidades têm sido cada vez mais enegrecidas devido a programas como ProUni, Sisu, e, especialmente, devido às cotas raciais. Embora algumas Universidades ainda tenham resistência para aderir ao sistema de cotas, como a USP, por exemplo, muitas já aderiram e o ingresso de estudantes negro(a)s tem mudado a cara das Universidades e resultado em uma maior diversidade.

Ainda assim, as estatísticas mostram que a presença da população negra nas Universidades está abaixo do esperado em comparação com a população branca. Muitas de nós enfrentam diversas barreiras para ingressar no universo acadêmico e concluir a graduação. São desde dificuldades financeiras até dificuldades de aceitação no meio acadêmico, que ainda segue excludente, elitista, racista e fechado em si mesmo, tendo pouca atuação, de fato, na sociedade.

Muitas de nós encontramos dificuldades para nos adaptar a linhas de pesquisa que são oferecidas em cursos de mestrado e doutorado, por exemplo. Ainda há pouco espaço para estudar muitos temas que são importantes para nós como história e cultura africana e afro-brasileira, por exemplo, que são temas obrigatórios na educação conforme a lei 10.639. Nas Universidades públicas de São Paulo, por exemplo, não há departamentos voltados para o estudo de literatura negra, e temas relativos a essa área ainda seguem sendo estudados nas áreas de Antropologia e Sociologia, analisados como fenômeno social e não como literatura em sua especificidade.

Sabemos que a militância é constante e deve ocorrer em todos os espaços, e também sabemos que muitos na Academia nos usam como meros objetos de estudo, tirando nosso protagonismo e nosso direito à palavra. Visitam espaços como saraus, coletivos, terreiros, entre outros, para fazer uma análise antropológica que muitas vezes nem é divulgada nesses espaços.

Felizmente muitas de nós conseguimos concluir essa jornada difícil que é trabalhar para se sustentar e estudar ao mesmo tempo. Nos fortalecemos, formamos nossos coletivos, apoiamo-nos umas às outras e seguimos enegrecendo espaços na Academia, na política, em cursos profissionalizantes, nas mídias, rejeitando o silenciamento que nos é historicamente imposto.