Antes de iniciar o discurso que me proponho nesse texto, preciso situar o meu local de fala especificamente: eu sou mulher, negra e universitária cotista que atualmente tenta conciliar as demandas da graduação com um emprego de 6 horas que alongo durante seis dias na semana.

Tenho em meu trabalho um colega branco que faz sempre questão de discutir comigo a validade das cotas e, ao entrarmos nesse assunto ele, via de regra, questiona a opressão que sofremos. Tentando desqualificar os exemplos que exponho sobre nossa realidade prática, ele me impõe seus sofrimentos e sua vida difícil enquanto uma pessoa não-rica.

Bom, é sobre exatamente isso que vou discursar. Mas antes, preciso falar sobre o quanto eu e várias outras mulheres precisamos exemplificar nossas dificuldades em comum, que são ao mesmo tempo nossas maiores feridas, para validar o que diz a teoria. Teoria posta, de fácil acesso – com vários autores que já se propuseram e se propõem a cada dia falar das desigualdades sociais. É triste quando precisamos sempre em uma discussão citar nomes de amigas, primas, mães e irmãs que foram violadas, para legitimar o que já dizem os números.

Ao meu colega de trabalho eu preciso dizer o quanto é incomodo entrarmos, portando uma mera mochila ou não, em uma loja de departamento para ele se dar conta que isso não é pauta na vida cotidiana dele. E, dentro looping de desconforto que ele chama de conversa, o ápice é ouvi-lo dissertar sobre suas dificuldades individuais. “Espera, eu não estou falando de um indivíduo. O exemplo da loja de departamento, do sistema penitenciário, dos empregos subalternos não é apenas sobre a minha pessoa. Será que ele não entendeu?” Eu penso.

E é assim que surgem muitos outros argumentos contra as leis de ações afirmativas, pautados em exemplificações de ordem individual que se sobrepõe a questões grupais.

O acesso e permanência no ensino superior só por pessoas brancas nunca foi visto como uma questão racial. O acesso e permanência no ensino superior por pessoas não-brancas é uma questão racial.

Médicos brancos são contratados como indivíduos, médicos negros são tomados como membros de um grupo racial – e só o fato de serem negros ainda hoje os desqualifica. Observar suas habilidades e qualificações individuais? imagina, isso não acontece numa sociedade racista como a nossa.

O mesmo acontece na participação política partidária. Ser masculina a grande maioria dos nossos representantes políticos não é uma questão de gênero. Assunto de homens? claro que não.

Brigar para que os cargos também sejam ocupados por mulheres é questão de gênero, logo papo de mulher.

A proposta desse texto é refletir sobre individualidade e identidade grupal.

Quando uma pessoa branca me oferece questões de ordem individual, que acontecem ou aconteceram com ela para invalidar as situações que relato que acontece com um grupo racial inteiro, logo estamos manejando com produtos diferentes.

Se eu falo do racismo sutil que polui nossa sociedade e atinge uma comunidade inteira de pessoas, amigo branco, eu quero que você me dê exemplo da sua comunidade branca sendo da mesma forma oprimida, oprimida por ser branca.

Falamos então de comunidades diferentes que possuem muitas vezes interesses diferentes.

Fechamo-nos em enquanto grupo para lutar contra uma opressão ou interesse em comum. Sobre isso Joan Scott melhor explica:

As identidades de grupo são um aspecto inevitável da vida social e da vida política e as duas são interconectadas porque as diferenças de grupo se tornam visíveis, salientes e problemáticas em contextos políticos específicos. É nesses momentos – quando exclusões são legitimadas por diferenças de grupo, quando hierarquias econômicas e sociais favorecem certos grupos em detrimento de outros, quando um conjunto de características biológicas ou religiosas ou étnicas ou culturais é valorizado em relação a outros – que a tensão entre indivíduos emerge. Indivíduos para os quais as identidades de grupo eram simplesmente dimensões de uma individualidade multifacetada descobrem-se totalmente determinados por um único elemento: a identidade religiosa, étnica, racial ou de gênero.

Ainda com as conclusões da historiadora Joan Scott, quando temos essa identificação grupal surge uma outra problemática um tanto assustadora e discriminatória: o estereótipo.

Este podemos encontrar facilmente no cotidiano brasileiro, através da ideia de que todos negros gostam de samba e possuem uma maneira de se vestir única, por exemplo.

Quando creem que todos comemos churrasquinho na laje no domingo de sol e, claro, sabemos sambar.

Falamos alto e somos barraqueiros, também somos preguiçosos, espertos e malandros.

Quando feministas somos histéricas, que odiamos os homens e a união familiar.

Não é que exista mal em gostar de samba, falar alto, curtir um som na laje – isso não é ruim.

O problema é tornar isso algo imposto a todas as pessoas negras e assim delimitar fronteiras de acesso a outros estilos de dança, maneira de se portar e se comportar.

Ou seja sozinhos somos vetados e possuímos pouca força de luta para a transformação do que está posto, ao nos unirmos enquanto grupo politico e socialmente fragilizados perdemos nossas individualidades, pois nos tornam um perfil único.

Individualidade e Identidades Grupais

Joan Scott em seu artigo sobre O Enigma da Igualdade disserta sobre a interdependência dos conceitos de individualidade e grupos, que, segundo ela, não são opostos, mas estão sempre em tensão.

Por exemplo, no final da década de 60, nos Estados Unidos, as tentativas de ações afirmativas para incorporar uma minoria no mercado de trabalho, mais especificamente na construção civil, entendiam que os negros nunca seriam contratados como indivíduos, então os defendia enquanto grupo. Mesmo que dentro do grupo de pessoas negras houvesse aquelas que não possuíam se quer habilidades para trabalhar na construção civil – seja por que não queriam, ou por que não sabiam ainda – mas para a inclusão foi preciso uni-las em um único bloco: pessoas negras que precisam está dentro deste mercado.

“A igualdade requer um ato de escolha, pelo qual algumas diferenças são minimizadas ou ignoradas” (PALMER 1973)

E é isso que as ações afirmativas e outras leis que surgem como iniciativa de resguardar ou mesmo modificar cenários de acordo o com interesse de minorias fazem: nomeiam os grupos que tem sido excluídos.

Não é que eu perco minha singularidade enquanto mulher negra que precisa se unir ao grupo de estudantes cotista para levantar as problemáticas da evasão do ensino superior da população negra. É mais sobre: “Temos o direito de ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito de ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza