É inegável que existem lugares específicos para que grupos ocupem dentro da sociedade, esses lugares são mantidos para garantir uma espécie de hierarquia de humanização, que pode ser entendida de maneira simples: Se eu, cidadão dentro dessa sociedade detenho privilégios por conta da classe social da qual faço parte, por conta da cor da minha pele, por conta do lugar onde eu moro, eu ocuparei lugares de menos ou nenhuma crueldade e violência cometida pelo Estado. Logo, tenho minha humanidade reconhecida e legitimada diariamente com os meus devidos direitos de ir e vir plenamente assegurados.

Na pirâmide da sociedade, alguns grupos são mantidos na base dessa hierarquia e por vezes, grupos ocupam espécies de não-lugares dentro dessa lógica de exclusão vigente. É preciso entender que os lugares e os não-lugares nos quais são mantidos a população negra e periférica caracterizam-se por uma violenta exclusão conceituada por práticas de opressão desenfreadas, que vão desde as histórias que são contadas sobre esses grupos, pois elas cooperam para que se crie sob eles uma matriz interpretativa que não abrange pluralidades, até o Estado que é omisso e cria mecanismos torpes e faltosos de garantir oportunidades para esses grupos.

Sim, é preciso visar garantias de oportunidades de maneira concreta para se pensar igualdade.

A desumanização da população negra e periférica é legitimada pelo Estado quando esse não confere a cidadania a determinados sujeitos. Essa cidadania não finda meramente no título de cidadão, quando ele surge de modo conveniente dentro de discursos de tolerância, mas deveria dar-se na perspectiva de um processo que não se garanta apenas conceitualmente.

É necessário pensar as condições de sobrevivência de determinados grupos.

Sabemos que há muito tempo o genocídio da população negra é uma realidade, sabemos há muito tempo que o elemento suspeito, destituído da sua capacidade de sujeito de direito, tem características físicas extremamente pontuais que definem se sua vida é ou não merecida de ser vivível.

Ou será que a cidadania é exercida quando mulheres negras que sofrem violência dentro de suas casas são também privadas de recorrer ao Estado pois esse também as viola?

Seria exercer cidadania ou ter o direito a ser lido como cidadão quando você é morto pela polícia na porta de casa porque nasceu preto e pobre?

É ser sujeito de direitos quando você é baleada pela polícia e seu corpo é dilacerado enquanto é arrastada pelo asfalto?

É ser reconhecido como cidadão quando o Estado decide que será melhor te manter preso por portar Pinho do Sol?

É ser reconhecido como ser humano quando você e seus amigos são assassinados pelo Estado por estarem dentro de um carro indo comemorar seu primeiro salário?

É ser reconhecido como ser humano quando a população te espanca até a morte porque você de pele escura foi confundido com outra pessoa (afinal, pretos são todos iguais)?

Nós ainda lutamos pelo direito a vida.