Dia 17 de abril de 2016 não só foi o dia de uma das decisões mais importantes para o cenário político brasileiro, desde a redemocratização, como foi um dia de decepções para determinados grupos sociais. O deputado Tiririca (PR/SP) decepcionou os profissionais do circo, Sérgio Reis (PRB/SP) foi descoberto como deputado (ironia), Wlad Costa (Solidariedade/PA) foi indicado como o deputado mais faltoso do Congresso Nacional, Jean Willys (PSOL/RJ) provocou a ira da direita e o frisson nos aliados após direcionar (e errar!) um cuspe a Jair Bolsonaro (PSC/RJ) que o vinha provocando há algum tempo, entre outras cenas.

De acordo com a jornalista Flávia Oliveira, no último pleito nacional foram eleitas apenas 10 mulheres negras entre os 513 parlamentares. Ou seja, a nós, mulheres negras, cabe pouquíssima representatividade no cenário político nacional. Temos menos de 1% de representatividade entre deputadas e deputados federais eleitos, ainda que a população negra seja mais de 50% dos 190 milhões de brasileiros. Ainda assim, mesmo sendo apenas 10 mulheres negras, são todas diferentes umas das outras, inclusive as que são de mesmo partido. Logo, os votos pelo impeachment de Dilma também tiveram motivações diferentes.

De 513 deputados federais, foram 367 votos a favor do impeachment. A suprema maioria desses votos é de homens brancos, de classe média/ricos e muitos estão no 3º, 4º, 5º mandato, isto é, estão deputados há pelo menos 12 anos. De acordo com o site nexojornal.com.br, o centro-oeste, o sul e o sudeste, respectivamente, foram as regiões cujos deputados votaram majoritariamente pelo impeachment. Entre as bancadas temáticas, todas votaram majoritariamente pela saída de Dilma, incluindo a bancada de Direitos Humanos e das Mulheres. Mais de 50%, das 51 deputadas, votou a favor do impeachment, inclusive duas das 10 deputadas negras, ambas do Partido Republicano Brasileiro (PRB), que votou 100% a favor da cassação do mandato da presidenta. A deputada Eronildes Vasconcelos Carvalho, Tia Eron (PRB/BA), foi uma dessas pessoas.

Em seu discurso Eron declarou: “Eu sou a voz da mulher negra e da mulher nordestina, que não quer mais a migalha do Governo Federal porque tem dignidade para trabalhar e para vencer, (…) eu sou a voz dos jovens, das crianças da minha Salvador (…)”. Imediatamente no meu feed do Facebook surgiram várias manifestações de mulheres negras declarando que não são representadas pela deputada Eron. Professoras, estudantes, donas de casa, artistas, ativistas ou não, do Brasil inteiro, dizendo que Eron falasse por si, não generalizasse a voz da mulher negra ou nos reduzisse à sua pessoa. Mas muito provavelmente ela represente sim uma parcela de mulheres negras e de mulheres nordestinas, gostemos ou não. A grave falácia no discurso de Eron é falar em nome das mulheres negras, especialmente das mulheres negras nordestinas. Afinal, somos mais de 48 milhões de mulheres negras no Brasil, de acordo com o censo de 2010. Não somos todas iguais apenas por sermos mulheres negras. A própria Eron ocupa um espaço político predominantemente masculino e branco e, mesmo que ela não tenha a oportunidade de disputar poder nesse espaço, ocupá-lo já nos diferencia. Discursos generalistas como o de Eron desconsidera algo de supra importância para nós: as intersecções de nossas subjetividades enquanto mulheres negras. É preciso cautela, ciência, compreensão de que não somos todas iguais e que colocar nossas identidades e nossas culturas sob o mesmo rótulo é reproduzir o mesmo discurso racista dos traficantes que sequestraram povos africanos para as Américas e que nos reduziram ao biológico.

O voto de Eron agradou uns, desagradou outros. Quando resolvi escrever sobre ela, foi em função de um print feito de um comentário na página de Eron e que tem circulado no Facebook e no Twitter. O texto do print diz:

“Tia Eron, você é negra, porém, bonita e inteligente. Votou como uma verdadeira patriota pelo impeachment da Dilma”.

O comentário é de um homem branco que aparenta entre 50 e 60 anos, advogado, de Mato Grosso do Sul e pelo seu perfil no Facebook é possível perceber que ele é declaradamente a favor do novo golpe. Resolvi escrever sobre a dimensão do discurso racista que está embutido no comentário desse “senhor de bem”, sobre os conceitos de beleza e inteligência e o lugar da mulher negra nessas categorias, mas antes fui analisar outros comentários na página de Eron. Minha hipótese era de que havia outros comentários “elogiosos” como esse vindo de outras pessoas brancas. Mas ao me deparar com os demais comentários, fiquei espantada com as altas doses de machismo e racismo despejados em Eron. Algumas vezes em forma de falsos elogios, mas outras tantas, de forma explícita, proposital e inconsequente, com o único objetivo de desqualificá-la enquanto mulher negra.

racismo cordial

O racismo cordial é discurso inerente à branquidade racista no Brasil. (Imagem retirada do texto de Luis Alberto SIlva – Brasil, Demagogia Racial – no Jornal Nacional do Movimento Negro Unificado, de maio/junho/julho de 1991)

A direita racista agradece e elogia esta mulher “negra, porém, bonita e inteligente” (sic), uma espécie de racismo cordial dentro da hierarquia racial no Brasil. Como afirma o sociólogo Ronaldo Sales Jr (2006, p.230), essa cordialidade é algo como uma “tolerância com reservas”, que diminui a tensão racial. Mas essa mesma cordialidade não se aplica a “negros impertinentes”. Ou seja, Eron é “digna” de um elogio, apesar de ser negra, pois ser bonita e ser inteligente não são atributos pertencentes às mulheres negras. A beleza das mulheres negras, quando destacada, é quase sempre de cunho sexual, o corpo da mulher negra tem sido socializado para servir basicamente de duas formas: ao trabalho braçal e ao sexo farto. É a dupla imagem da mulher negra: mulata e doméstica, afirma Lélia Gonzalez (1984, p. 224). São as eternas violências à autoestima de mulheres negras.

Mas engana-se quem pensa que foram apenas os comentários da direita racista que lotaram a página da deputada Eron. A quantidade de comentários de pessoas de esquerda criticando o voto de Eron com o uso de xingamentos, é enorme. A esquerda branca racista não contemplada por Eron abandona a cordialidade racista e parte para agressões, mas a cordialidade é mantida com Benedita da Silva por ter votado a favor do governo de Dilma. E se Benedita tivesse rompido com o PT e votado pelo impeachment? Haveria cordialidade? As duplas violências destinadas a mulheres negras só reforçam a inescrupulosa hierarquia racial existente no Brasil, na qual a gente preta ainda é vista pela branquidade com subalternidade e, que, desprovida de identidades e subjetividades próprias, acata a ordem do senhor escravocrata.

Recentemente Djamila Ribeiro publicou um texto no qual compara o “outro absoluto” sobre ser mulher nas obras de Grada Kilomba e Simone de Beauvoir. No texto, Djamila afirma que para Grada Kilomba “o olhar tanto de homens brancos e negros e mulheres brancas confinaria a mulher negra num local de subalternidade muito mais difícil de ser ultrapassado” (RIBEIRO, 2016). Dessa forma, referir-se a Eron com expressões como: “neguinha vendida”, “negra horrorosa”, “louca”, “maluca”, “preta colonizada q lambe cu de branco”, são violências e agressões tão racistas e sexistas que reforçam cada vez mais que a condição das mulheres negras é de um outro absoluto, solidificado na subalternidade, que não pode ser sujeito de sua própria fala, muito menos a mulher negra que causa desconforto, seja à direita ou à esquerda. Foram 367 votos a favor do impeachment, por que não fazer a mesma cobrança feroz à branquidade racista, que quer a redução da maioridade penal e permanente criminalização da mulher? Por que não se cobra que os herdeiros da casa grande superem sua tradição escravocrata? A branquidade racista, seja de direita ou de esquerda, mantém seu predomínio e seus privilégios em relação aos demais povos no Brasil.

A maioria das mulheres negras que eu conheço não está contemplada na fala de Eron, mas eu nem conheço 20% das mulheres negras no Brasil. Eu concordo com o posicionamento político de Eron? Nenhum pouco. Não vejo como suas alianças podem nos favorecer. Minha compreensão de luta antirracista inclui lutar para que o povo negro não sofra mais um golpe. E isso inclui pensar na vida da juventude negra e pobre e não apoiar a redução da maioridade penal, pensar na vida de mulheres negras e pobres e apoiar a legalização do aborto, não permitir que mulheres estupradas sejam duplamente violentadas. E isso exige um trabalho árduo de denúncias, busca pelo empoderamento, cruzar estatísticas, projetos, planos e lutas por políticas públicas que diminuam as sequelas de quase 400 anos de escravidão nesse país. Mas mesmo com todas as nossas divergências políticas, jamais estarei conivente com as abordagens racistas e sexistas em relação a Eron ou a qualquer mulher negra.

 

 

Referências bibliográficas

GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, 1984, p. 223-244.

RIBEIRO, Djamila. A categoria do Outro: o olhar de Beauvoir e Grada Kilomba sobre ser mulher. São Paulo: Blog da Boitempo, 2016. Disponível em <https://blogdaboitempo.com.br/2016/04/07/categoria-do-outro-o-olhar-de-beauvoir-e-grada-kilomba-sobre-ser-mulher/ > Acessado em 19 Abril 2016

OLIVEIRA, Flávia. Câmara só terá dez deputadas negras. Rio de Janeiro: Blog O Globo, 2014. Disponível em < http://blogs.oglobo.globo.com/flavia-oliveira/post/camara-so-tera-dez-deputadas-negras-551968.html >

SALES JR, Ronaldo. Democracia racial: o não-dito racista. In: Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 18, n. 2, 2006, p. 229-25.

  • Vivemos dias difíceis, onde tudo é justificado. Um Deputado é racista, ao invés de falar dele, busca-se justificar que do outro lado tem-se racistas? Num país que viu todas as agendas progressistas, principalmente quanto a agenda de promoção da Mulher e dos negros avanças nos governos Petistas, mas claro é muito mais importante destacar que existem racistas na esquerda. Impressionante, quando não ataca-se o mais importante, Tia Eron não votou pela agenda Negra e sim pela agenda Evangélica Conservadora, que muitas vezes se contrapõe aos avanços progressistas. Talvez sejam os novos tempos, onde todos estão desembarcando dos movimentos sociais para “O Novo Brasil Conservador”, fico pensando sobre as bases da Tia Eron, o que estão pensando agora?, o que ela representa de verdade?

    • Thiane Neves Barros

      Emerson, mais importante do que ir questionar Eron é sim criticar o racismo que lhe é direcionado seja pelo racista comentário de que ela é uma negra inteligente e bonita, seja por quem a chama de negrinha por ter votado a favor do impeachment. O que ela faz politicamente e os equívocos de se aliar a quem declaradamente promove o genocídio negro, tem sim que ser debatido, mas não em conluio com o racismo. E bom, o racismo na esquerda existe, porque ele é estrutural. Quer a esquerda assuma ou não.

  • -Thiane Neves Barros: seu discurso é atualíssimo para quem deseja abrir olhos ouvidos e tudo mais para crescer e avançar na luta com consciência dos fatos passados e que recrudescem com força total deixando míope aqueles que teimam em não enxergar os fatos atuais.Parabéns irei divulgar este texto.para aqueles que discordam é bom lembrar que vivemos numa “democracia”

  • Humberto

    Não conhecia o seu blog. A partir de hj sou um fã seu incondicional.Não tenho nenhuma simpatia com a deputada Tia Eron( pessoalmente não a conheço),mas entendo que vc está certíssima na sua análise.Eu mesmo, me excedi um pouco quando a critiquei,revoltado que fiquei com a sua subserviência em relação ao deputado corrupto Eduardo Cunha.Acho apenas que ela foi pretensiosa,ao se colocar como representante das mulheres negras no momento da votação e isso provocou ainda mais a ira de alguns.Ela representou as mulheres negras do seu partido e talvez as do seu círculo de amizade.

  • Liah

    Existe RACISTAS na Direita e na Esquerda FATO!

  • Parabéns pelo artigo!

  • Ercílio Langa

    Parabéns. Amei esse texto! Claro, simples e direto!

  • Alan Meira

    Faltou colocar essa informação primorosa no título, então. Desonestidade jornalística não eh soh na Globo. PS: sou fã do blog, porém, não cúmplice de tudo que for escrito.

    • Thiane Neves Barros

      “A esquerda branca racista não contemplada por Eron abandona a cordialidade racista e parte para agressões”. Faltou ler o texto com acuidade, Alan.

    • Thiane Neves Barros

      Da próxima venha mais desarmado, mais atento, menos raivoso, menos agressivo e menos calunioso.

  • Gosto muito de ler as coisas aqui e também adoro a Eron. Uma excelente deputada. Acompanho o trabalho dela há anos. Sou negra, de Salvador -BA, se eu fosse deputada eu votaria a favor do impeachment, e me sinto muito bem representada por ela. Beijos.

    • Thiane Neves Barros

      Pois então Jamile, eu realmente não compactuo com essa direita racista e raivosa que só visa piorar a situação do povo negro. Eron não teria meu voto. Mas nunca poderei compactuar também com o racismo da esquerda.

  • Alan Meira

    E quem te deu o direito de jogar todos os negros e negras que militam diariamente pela esquerda no Brasil nesse mesmo balaio? Desinformação não eh o mesmo que padrão. Você tem, claro, o direito de escrever e relacionar o que quiser com o que quiser, mas não de estar certa nessas relações. A esquerda, no Brasil, eh preta, pobre e nordestina. E são esses que sofreram e sofrerão com um governo golpista de direita. E que o Freyre e seus contemporâneos e descendentes queimem no inferno, pois não nos representam. Já o seu texto, ofende quem está desse lado da trincheira, lutando diariamente e na rua por igualdade e direitos.

    • Thiane Neves Barros

      O texto refere-se à esquerda branca e racista, caro. Logo, as pessoas negras de esquerda, não estão inseridas na crítica. 😉

  • Alan Meira

    Comparação ridícula de um padrão na direita com a exceção da esquerda.

    • Thiane Neves Barros

      “A Questão da Esquerda Branca
      Quando já estava participando ativamente da guerrilha urbana, o capitão Carlos Lamarca, numa carta escrita à esposa, usou o seguinte brado à guisa de despedida: — Hoje é 4 de julho, aniversário dos Estados Unidos. Viva os Panteras Negras! Falar de quem já morreu não é bom; é complicado porque alguém pode alegar que não há resposta, não há defesa nem ataque. Os mortos não atacam nem se defendem quando seus atos e palavras são julgados por quem está vivo. Por isso, longe de mim sepultar numa cova-rasa a coerência de Carlos Lamarca, que abandonou tudo, vida estável, família e promoções para combater a ditadura militar. A questão não é essa, mas outra, bem diferente.
      É impossível alguém imaginar o capitão Carlos Lamarca fazendo esse brado: — Hoje é 7 de setembro, aniversário do Brasil. Viva o Movimento Negro Unificado! A experiência nos diz que não seria apenas impossível. Seria improvável. Se hoje, doze anos depois da criação do M.N.U., a esquerda branca ainda nos combate, imaginem o que ela não faria há vinte… Então, qual o motivo da simpatia do capitão Carlos Lamarca pelos Panteras Negras? É que a esquerda branca sempre teve admiração por movimento negro — desde que ele esteja fora do Brasil. Quanto mais radical for o movimento negro, mais admiração provoca. Panteras Negras, Muçulmanos Negros, Consciência Negra, tudo isso é válido e justo.
      É curioso como Gilberto Freyre e a esquerda branca se encontram tão facilmente quando o tema é movimento negro no Brasil. É curioso mas ao mesmo tempo compreensível, pois ela é parte da Civilização Branca que, embora rachada nos conceitos esquerda & direita, mantém seu predomínio sobre os povos não brancos das Américas. Racismo não é só barrar um negro na porta de um elevador social, bem como movimento negro não é só fazer trança africana. Se hoje há setores da esquerda branca que limitam o problema a apenas isso, é igualmente um erro, uma avaliação primária. Racismo é um sistema de dominação que tem como finalidade manter povos sob seu jugo, seja no plano econômico, histórico, teórico. Quando denominamos a esquerda brasileira de “esquerda branca”, longe de ser uma gozação ou menosprezo, é uma constatação, porque só o racismo explica o fato de um movimento social que se diz revolucionário conceber uma leitura do trabalho no Brasil a partir da chegada dos anarquistas no início desse século, os chamados “trabalhadores organizados”. Os quatrocentos anos restantes, em que o trabalho foi feito de forma “desorganizada”, ela apaga com a borracha do racismo. Os companheiros negros das tendências da esquerda branca têm ciência dessa acrobacia ideológica? Faz-se urgente procurar o “capa” respectivo para a necessária explicação. Recentemente, o Movimento Negro Unificado
      procurou um parlamentar pedindo-lhe ajuda na confecção de um livro didático sobre a história do negro; ele respondeu que “tudo bem, eu ajudo, mas seria melhor escrever um livro sobre a história dos trabalhadores…” Ora, se levarmos em conta que o povo negro tinha apenas dez anos de vida útil, é de se imaginar o grau de preconceito do parlamentar a respeito do trabalho “desorganizado…” O Movimento Negro Unificado nunca negou que na relação entre patrão e operário existe o antagonismo de classes. O que ratificamos é que o Povo Negro não é uma classe, e quem o domina e explora não é “a classe dominante que aí está”. É pior do que isso. O que domina o Povo Negro é uma mentalidade
      escravista posta em prática pela Civilização Branca durante todos esses séculos. Já explicamos isso um milhão de vezes. Esse método que aplicamos explica tudo, até o fato de a esquerda branca, mesmo sem entender nada de movimento negro, continuar questionando a existência do Movimento Negro Unificado. E aí vale tudo, desde a infâmia “o M.N.U. nega a questão de classe” até a união pura e simples das teses de Gilberto Freyre. Ora, não limitemos as mazelas sociais de um país que somente há cem anos deixou de negociar com seres humanos negros à mera questão de classe. O empresário carniceiro que chama a polícia para reprimir uma greve justa dos empregados de sua empresa é o mesmo que pratica a reserva de emprego em benefício do trabalhador branco quando está em jogo uma vaga a ser preenchida entre este e um negro.
      Constatem isso nas empresas aéreas, nas de turismo, nos hotéis de luxo onde as vagas de garçom, que na Africa do Sul são ocupadas pelos negros, estão sempre à espera de brancos para preenchê-las. A polícia paulista que prendeu e matou Robson Silveira da Luz, negro, pobre, sob a acusação de ter roubado uma caixa de maçã, é a mesma que prendeu e jogou num camburão o primeiro-ministro do Suriname Dersi Bouterse, igualmente negro, porém riquíssimo, dono de castelos na Holanda. Antes que baixem o nível de novo afirmando que temos o sr.
      Bouterse como referência positiva do que venha ser um governante negro, afirmamos que ele não faz nem um pouco a cabeça dos militantes do M.N.U. Seu nome apareceu neste texto para que a esquerda branca explique, à luz de sua interpretação, essas “particularidades”…
      Fidalga, aristocrática, a esquerda branca, como já disse, se recusa terminantemente a mergulhar na História do Brasil.
      Por isso, joga a culpa na “classe dominante” quando o empresário chama a polícia para reprimir uma greve de trabalhadores, não se dando conta de que essa atitude autoritária é fruto da mentalidade escravista reinante no país onde trabalho, pelo menos nos primeiros quatrocentos anos contados a partir da invasão branca, nunca foi sinônimo de salário. E quem viveu sob essa condição de trabalhador sem salário e com sua humanidade dilacerada, transformada em coisa, em objeto de compra e venda? Parece incrível, mas a maioria dos militantes da esquerda branca só “estudou” o negro na época do primário e ginásio — para passar de ano. Como esses “estudos” eram através dos livros didáticos escritos a partir da ótica colonial, é comum entre eles distorções como esta: enquanto nós do M.N.U. afirmamos que os africanos, por serem essencialmente políticos, faziam greve de fome em sinal de protesto por sua condição de escravos, esses militantes ainda sustentam a velha história do Banzo, aquela “doença” provocada pela saudade que o pobre negro sentia da Africa… Para encerrar esse capítulo, deixo aqui uma pergunta para aqueles que consideram o Movimento Negro Unificado uma entidade “estreita”, “equivocada” e “divisora da classe operária”: uma empregada doméstica negra pode considerar como membros da classe dominante seus patrões brancos cutislas e engenheiros da Petrobrás?” (Josafá Mota – Movimento Negro Unificado/PE, texto de 1991). Disponível em: http://artigo157.com.br/…/…/2015/12/entrevista-lelia-mnu.pdf
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      Tudo isso para lhe dizer, Alan, que não é exceção. 🙂