Outro dia, enquanto varria as folhas do quintal, dona Zefinha contou. Dona Dag, enquanto mexia a panela do feijão, também já me contou.

Dona Júlia, enquanto sentada frente à maquina de costura, repetiu-me sobre uma época quando o bacalhau era comida de pobre.

As três, em diferentes momentos, necessitaram contar do quanto era discriminado aquele que, em seu barraco, ousasse escaldar o bacalhau e deixasse vaporosamente o cheiro escapar pela porta, janelas e onde mais houvesse buracos na maloca. A vergonha, segundo elas, era acompanhado do medo de alguém desgraçadamente gritar: “tão cozinhando bacalhau é?”

Eu não vivi a época de precisar comer bacalhau às escondidas. Quando me fiz gente e pude apontar quais as comidas me agradavam o paladar o bacalhau já tinha passado para o outro lado. Aos pratos dos ricos, como elas sinalizam.

Não lembro de ter visto um bacalhau inteiro em nossa cozinha, para falar a verdade, nem se quer vi uma posta. Esses papos sobre bacalhau acontecem sempre uma semana depois da semana santa quando dona Dag corre no supermercado para comprar as iscas fininhas na promoção. Ela sempre faz com batatas assadas. Fica uma delícia.

Na memória das três uma história semelhante, no modo de contá-la uma demarcação política precisa: comida de rico, comida de pobre.

Hoje, a história se repete, o alvo da vez: o pão com mortadela. Temos agora uma galera que discrimina e ridiculariza aqueles que comem pão com mortadela.

Me parece contraditório, para quem vive em um país onde a subnutrição, causada pela má alimentação, ainda é uma problemática real.

Até os anos 2000 éramos em 19,9 milhões de pessoas subnutridas. E, apesar de termos saído do Mapa da Fome graças aos programas políticos assistenciais como o Bolsa Família e o Fome Zero, somos ainda um povo que se alimenta de forma limitada, com pouca variedade de alimentos na mesa e, por isso, carentes organicamente – a nível nutricional.

O pão com mortadela que hoje é motivo de piada entre exatos jovens que amam se divertir ao som de batidas de funk em festinhas privadas de inspiração Favela é a refeição de alguns.

Alguns que não podem ainda usá-lo apenas como assunto de descontração em reunião frente à toalhas de mesa, algodão fio 600, saboreando taças de vinho enquanto discutem problemas substanciais como as taxas de retorno de investimentos e declaração de imposto de renda.

Como a deputada Benedita da Silva bem coloca: o pão com mortadela faz parte da vida de milhares e milhares de pessoas que nunca tiveram nada para comer e que no seu momento de desespero quem chega com uma mortadela esta chegando com um presunto parma. Aquelas pessoas que o colocam como simbologia jocosa nunca ficaram com fome. O “zé povinho” que come mortadela é quem está lutando anos e anos como trabalhador, trabalhadora rural e como doméstica.

Abrangendo um outro viés do mesmo problema podemos citar aqui a desproporcional oportunidade educativa, que hoje revela um destoante conjunto numérico referente as pessoas analfabetas ou analfabetas funcionais – e ainda as desagradáveis pessoas que absurdamente não falam inglês.

Aquelas que hoje apontam como preguiça a pouca leitura dos brasileiros mal sabem que fazem parte de um seleto grupo de sortudos que sabem – e tem tempo – para ler, aquelas hoje acham graça em um inglês “mal pronunciado” não se dão conta que o aprendizado ainda não está sobre a força de vontade de cada um, itens como disponibilidade material, auxilio mediador e melhoramentos na educação básica devem emergir à consciência dos que cobram, dos que riem e dos que se horrorizam.

Rir dos que não falam um segundo idioma ou dos que comem pão com mortadela é rir de uma realidade brasileira arquitetada sob uma injusta distribuição material e econômica que sustenta e abriga tais próprios exploradores.

Só ri quem possui barriga suficientemente cheia e os que conseguem rir de uma (falta de) alimentação são exatamente estes que sentam e comem a partir de uma força de trabalho mal remunerada.

Eu me recuso a segurar o peso do sentimento social de vergonha por comer meu pão com mortadela no café da manhã antes de ir para universidade, os amigos que tem vergonha de suas dificuldades em cálculos matemáticos e conjugações verbais não segurem a “vergonha” desse não-saber. Se é mesmo vergonhoso essa vergonha não é nossa.

À nós que não falamos inglês: se avolumar é o primeiro passo para sinalizar que ainda são poucas as pessoas que nesse país fazem parte desse seleto grupo.

Toda vergonha causada pela desproporção social deve ser dispensada e, se possível, sinalizada. Esperar que eu finja entender o que não entendo, que conheço o sabor do que nunca comi ou mesmo que eu me retraia por tudo isso é também uma forma de culpabilizar quem historicamente já é vítima.

Fica incabível pensar o homem de forma individualizada, dos comedores de pão com mortadela ou dos preguiçosos que não leem, é preciso pensar o conjunto social que tais indivíduos pertence, pois assim, verificando o todo específico desenvolvemos análises sobre suas limitações e as regras de conduta que lhes foram impostas.

Aos risonhos de barriga cheia: É o seu conjunto social que vai determinar o modo como vê toda a realidade, do que te cega e do que o faz rir, sabendo que o seu riso é também escarnio de si, provocado pela limitações experienciais.

Imagem destacada: Mulheres Conta Cunha – Cinelândia. Mulher Negra e o Feminismo Fanpage