No meu último texto questionei sobre a nossa liberdade de existir enquanto mulheres, não importando o molde. Obviamente ainda não existe resposta, mas vou tentar prosseguir com a questão.

Claramente nosso objetivo enquanto feministas visa uma liberdade. Definir como essa liberdade funciona, ou restringi-la a uma só possibilidade pra mim é no mínimo inocente (ultimamente prefiro o termo silenciador) e vemos exemplos disso todos os dias. Somos seres plurais em personalidade, possibilidades, desejos e necessidades, creio que simplesmente reconhecer isso já é um grande passo.

Eu enquanto negra de classe média não consigo me considerar tão livre quanto muitas mulheres que conheço. Reconheço em mim mesma o privilégio de algumas possibilidades na vida que familiares minhas não tiveram, que a maioria das mulheres negras como eu não tem. Mas isso não significa que sou imune a opressão, muito pelo contrário, e se formos colocar na ponta do lápis pouquíssimas pessoas são também. A partir do momento que decidi lutar pela minha liberdade através do feminismo, classismo e do empoderamento negro, cheguei em um ponto em que não posso me contentar em expandir somente as minhas possibilidades, ou não seria liberdade.

Tem uma citação de Mandela que gosto muito, e pauta bem o que quero dizer:

“A verdade é que ainda não somos livres; simplesmente conquistamos a liberdade para sermos livres, o direito de não sermos oprimidos. Nós ainda não demos o passo final em nossa jornada, mas o primeiro passo de uma longa e ainda mais difícil estrada. Pois ser livre não é apenas para retirar as correntes de um, mas de viver de forma a respeitar e ampliar a liberdade dos outros. O verdadeiro teste de nossa devoção a liberdade está apenas começando.”

Com isso em mente, eu feminista, coloco nos meus ombros não só a minha própria liberdade enquanto mulher negra, mas a dos outros também: LGBTs, indígenas, palestinos, sem-teto e quem mais precisar, todos dependemos uns dos outros. E ao lembrar que somos todos plurais, cada qual com sua necessidade, fica mais fácil entender a dificuldade para alinharmos todas as nossas lutas.

Igualdade nos salários é um avanço, mas sem igualdade de oportunidades não é o fim do caminho. Legalizar o aborto é um avanço, mas sem a garantia da gratuidade ainda teremos mulheres pobres (e infelizmente em sua maioria, negras) que sem dinheiro, se arriscam com agulhas de tricô. Mais creches e escolas integrais para possibilitar o trabalho de mulheres é um avanço, mas de nada adianta se a jornada de trabalho em casa continua solitária e exaustiva. Criminalizar o machismo e suas violências é um avanço, mas o fim do caminho é acabar com ele de vez. A superação do preconceito racial, religioso vem no mesmo tom, é preciso atingir a raiz do problema.

E é angustiante pensar que toda essa luta serve apenas para nos dar o direito de existir, simples assim. Existir sem medo de ser violentada em cada esquina. Existir e poder escolher como viver sua vida, sem machucar ninguém e sem ser machucada por isso. Escolher quem amar, como e quando amar e ser feliz com o que decidir. Mas a angustia não é uma resposta, precisamos de alternativas.

Entre nós mulheres negras, o caminho da solidariedade pra mim continua sendo um dos mais lógicos para mudar o cenário atual. Para as mulheres em geral sigo a mesma lógica, mas não acredito que isso seja apoiar uma mulher cegamente, mesmo ela estando no papel de opressora. Temos gerações de trabalhadoras domésticas, por exemplo, com patroas que eram praticamente “família”, e mesmo assim vimos por A mais B que esses laços familiares são tão frágeis que muitas vezes submetem a ele os direitos trabalhistas fundamentais dessas mulheres.

Nessas horas a critica deve ser feita, e pode ser dura. Elas ainda fazem parte do patriarcado, que é um inimigo e mais difícil ainda de ser confrontado. Da mesma maneira, do outro lado vejo que mulheres brancas, classe média, burguesas, etc.. que precisam refletir nos momentos de conflito e se reconhecer enquanto opressoras naquele contexto, opressoras que precisam assegurar a libertação de suas iguais que não foram privilegiadas pelo “sorteio” da vida. É preciso se colocar no lugar das suas companheiras negras e buscar verdadeiramente entender a dor de uma realidade que não é sua.

Hoje a realidade da mulher negra é ser mais sexualizada e objetificada do que uma mulher branca, inclusive por homens negros. É ver que quando exigimos o mínimo de respeito para iniciar uma relação as opções se esvaziam e acabamos nos contentando com a solidão. Também é perceber sua fisionomia como algo ruim desde muito criança, é usar a espuma do banho pra sonhar em ser branca. A realidade é que estamos morrendo nos abortos sem o devido acompanhamento, morrendo nos hospitais de periferia por falta de atendimento. Somos a maioria nos piores trabalhos, ganhando menos do que homens e menos que mulheres brancas. Estamos morrendo dentro e fora de nossas casas, de nossos corpos, vitimas do machismo e do racismo. E tudo isso porque nascemos assim, mulheres negras em uma sociedade que nos define com uma palavra que deriva do animal mula, e ainda insiste em chamar isso de elogio.


No fim, acho que se tem liberdade hoje por uma questão de sorte ou de luta. A sorte é ótima, mas é primordialmente excludente (nem todos contamos com ela). A luta pode até ser solitária, mas tende a ser muito mais vitoriosa e libertadora quando é feita na coletividade.

 

Imagem destacada: Afroguerrilha Fanpage. Ato Contra o Genocídio Negro no Brasil, 03/12/15 – São Paulo.
Foto: Vinícius Gomes / Guerrilha GRR