Muitos caracteres estão sendo gastos sobre a solidão que mulheres trans e travestis sofrem, mas surge a demanda de também expormos um outro ponto: de força, de cura e, principalmente, de amor. Não um amor preterido, um amor que faz doer, um amor que te subalterniza, mas um amor que restaure, um amor coletivo, um amor a partir de uma outra narrativa. E daí você pergunta ”Mas o que Beyoncé/Lemonade tem a ver com isso?” e eu lhe respondo: tudo!

Como falei no facebook, sempre tive dois problemas grandes com a persona da Beyoncé: a dificuldade em percebê-la como um ser humano que tem problemas e/ou que pode falhar e a passividade diplomática dela durante grande parte da carreira. O segundo ponto, talvez, fale sobre a posição que ocupo e o que acabo, consequentemente, exigindo de certas pessoas, mas só agora, depois do álbum, vim a perceber o quanto me vejo no silêncio e/ou medo da Beyoncé em mostrar suas cicatrizes e em percebê-la como alguém que compartilhe de alguns dos problemas que vivencio. Me vi porque também tive vezes que coloquei um sorriso enquanto estava quebrada por dentro, me vi porque inúmeras vezes fui um entretenimento para as pessoas, fazendo-as rir, mas estava desejando chorar, me vi porque perdi as contas de vezes que eu não tinha psicológico suficiente para me mostrar forte, mas encontrei força, ao menos, para colocar uma máscara e fingir que tudo estava bem. Que as violências cotidianas não machucavam tanto assim, que a relação em casa sempre foi tão boa quanto é hoje e, principalmente, que eu não me machucava afetivamente falando. Porém, contrário ao que todas as aparências transpareçam, existe um caminho espinhoso em nossas vidas, mulheres trans e/ou travestis negras e racializadas. Existe um histórico de silêncio, de negligência, de pertubação e de muita instabilidade emocional. Momentos que só conseguimos encontrar força uma nas outras. Em compartilhar nossas histórias, nossas dores e de conseguir tirar desses momentos, que poderiam deixar todas para baixo, uma força coletiva que seja depositada em cada uma de nós.

Um dia sentada em um bar com as meninas que fizeram uma palestra junto comigo a convite das Empoderadas, Djamila Ribeiro virou para mim e disse: “chegou o momento de falarmos sobre solidão a partir de um outro viés. Um viés que não estejamos na posição de vítima, mas que nos situe enquanto mulheres fortes, mulheres feministas e, principalmente, mulheres que não aceitariam estar na posição de subalternidade e que, muito provavelmente, seja por isso que estamos sozinhas, afinal, eles não conseguem lidar com mulheres que ocupam esse tipo de espaço e que se impõem dessa forma.”

Ainda falando sobre a Djamila, na entrevista que a mesma fez com Kilomba, a escritora portuguesa é certeira ao dizer:

“É preciso não dar importância a essas vozes, precisamos focar nas nossas competências, no modo como estamos transformando as agendas e o discurso. O que me interessa são as pessoas que dialogam comigo, as outras vozes não me interessam. Como mulheres negras, feministas que descolonizam o pensamento, precisamos aprender a focar na energia certa.”

O que seriam “essas vozes” quando estamos falando da solidão das mulheres trans e travestis? É uma pergunta pertinente e que dediquei 3 textos meus tentando identificar isso, mas chega o momento de ir além, chega o momento de seguir o conselho de Kilomba e focarmos nas nossas agendas, competências e ganhos. No que estamos construindo, no privado e no público e nos vermos para além do slogan de “suficientes”, afinal, não acredito nesse discurso fantasioso da suficiência e com a forma que é colocado, mas como donas de si e, principalmente, como mulheres que não precisam se submeter a certas violências em troca de carinhos vazios. De fato, o que me interessa são as pessoas que estão comigo. Da mesma forma como Beyoncé encontrou em outras mulheres negras, a força que ela precisava para lidar com seus demônios. Demônios esses que, muitas vezes, são compartilhados ou sentidos por outras de nós. É isso que Bairros defende ao afirmar que:

o racismo antinegro, estabelecido globalmente, nos permite incorporar experiências que dizem respeito não apenas a nossa realidade mais imediata, mas também a de outros negros, mesmo que nunca as tenhamos vivenciado diretamente. Há elementos na nossa identidade negra que são, por assim dizer, globais. E isto ocorre mesmo considerando que ela é me- diada por diferenças nacionais, de gênero e de classe social. (BAIRROS, 1996, pg.1)

Lemonade endossa a importância da nossa auto organização. Não só por fins políticos, mas também para uma cura coletiva, um fortalecimento coletivo e para, enfaticamente, sentirmos o amor que nutrimos umas pelas outras. Se as “vozes” citadas por Kilomba nos designaram para lugares específicos, que possamos construir um movimento de ressignificação e reconstrução. Um movimento que nos dê limões, mas que possamos fazer deliciosas limonadas para bebermos juntas e nos refrescar.

Por fim, Ijeoma Oluo com a palavra:

“Quando nossos corações são quebrados e nós estamos chorando, nos dizem que é nossa culpa. Nós somos muito carentes, ciumentas, críticas (…) a expectativa que recai sob as mulheres negras para sofrer em silêncio é passada de geração em geração. E a partir desse profundo e desolador amor nasce uma força que não é esperado que nós tenhamos. Gerações de trabalho, amor e negligência nos fez guerreiras silenciosas. Nossa própria existência é protesto. Beyoncé celebra a beleza e a força da mulher negra trazendo mulheres negras que se mantiveram firmes independente da constante perseguição da sua negritude” (tradução livre)

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BAIRROS, Luiza. “Orfeu e Poder: Uma Perspectiva Afro-Americana sobre a Política Racial no Brasil”, Afro-Ásia, nº 17, 1996, pp. 173-186

RIBEIRO, Djamila. O racismo é uma problemática branca”, diz Grada Kilomba. Disponível em: http://www.cartacapital.com.br/politica/201co-racismo-e-uma-problematica-branca201d-uma-conversa-com-grada-kilomba

Oluo, Ijeoma. Beyoncé’s Lemonade is about much more than infidelity and Jay Z. Disponível em: http://www.theguardian.com/commentisfree/2016/apr/25/beyonce-lemonade-jay-z-infidelity-emotional-project-depths