Hoje presenciamos uma grande discussão sobre o feminismo de um modo geral, em especial nas redes sociais. Acompanhamos discussões que abordam temas como empoderamento feminino, direito ao corpo, legalização do aborto, luta contra a opressão machista, direito à voz, sororidade, exigência de uma representatividade feminina significativa em espaços de poder, entre outras questões.

Acompanhamos campanhas de luta contra o assédio tão presente em nosso dia a dia, contra o machismo, a homofobia, a gordofobia e o racismo que matam todos os dias. Vemos inclusive muitos homens querendo se engajar no movimento feminista e tentando roubar o protagonismo das mulheres na luta feminista.

No entanto, é importante voltar um pouco nosso olhar para o surgimento do movimento feminista analisando as principais pautas reivindicadas, quais foram as mulheres que contribuíram para o surgimento e fortalecimento da luta feminista e como esse movimento se transformou ao longo do tempo de forma a se tornar um movimento mais abrangente que contempla pautas variadas e tem uma maior representatividade na sociedade atual.

Sabemos que o feminismo surgiu tendo como uma de suas principais reivindicações o direito ao voto e ao ingresso no mercado de trabalho. Analisando o contexto norte-americano, podemos verificar que as principais figuras que atuavam como porta-vozes do movimento eram mulheres de classe média alta que dispunham de tempo para organizar encontros e eventos em prol da luta feminista. A principal luta dessas mulheres era contra o patriarcado que impedia sua participação plena como cidadãs na sociedade, relegando-as ao papel de boas mães e esposas.

É importante notar também que essas mulheres dispunham de serviçais para tomar conta de seus lares e seus filhos enquanto lutavam pela libertação das mulheres (mulheres semelhantes a elas, socialmente privilegiadas) das amarras do grande inimigo conhecido como patriarcado. Esse movimento desconsiderou questões que envolviam todas as mulheres em sua complexidade e diversidade e, apesar de sua importância histórica e da conquista de direitos obtida por meio da luta organizada, não contemplou a luta antirracista e não ofereceu um espaço em que as mulheres negras se sentissem acolhidas e atendidas em suas especificidades.

A mudança desse cenário se deu quando feministas negras começaram a se organizar e a exigir o direito à voz e representatividade no movimento. No contexto norte-americano temos figuras como Sojourner Truth, Audre Lorde, bell hooks, Angela Davis, Patricia Collins, Kimberle Creenshaw entre outras figuras de destaque.

No ensaio “As mulheres negras na construção de uma nova utopia”, Angela Davis mostra a importância de um movimento feminista mais abrangente, que lute contra todos os tipos de opressão sem reproduzir nenhuma delas. Ela mostra que é importante reconhecer recortes de gênero, raça e classe, uma vez que todos estão interligados, de forma a que o movimento seja acolhedor de todas as mulheres em suas especificidades e não opressor.

A escritora Audre Lorde, no ensaio “Mulheres negras: As ferramentas do mestre nunca irão desmantelar a casa do mestre” destaca que as diferenças entre as mulheres não devem ser vistas de forma negativa, mas como necessárias, pois podem ser transformadas em forças na luta das mulheres.

Dialogando com Audre Lorde temos Lélia Gonzalez, uma das figuras mais importantes na luta feminista e antirracista no Brasil nas décadas de 70 e 80, que mostra a importância da solidariedade e da organização, ressaltando a importância da luta contra o lugar da marginalização, do desrespeito em relação à capacidade profissional da mulher e contra a estereotipia atribuída à mulher negra.

Atualmente vemos os desdobramentos da luta dessas mulheres e nos sentimos representadas na luta feminista, pois ela nos contempla em nossas necessidades e especificidades. Observamos mulheres negras cada vez mais empoderadas, enegrecendo espaços de poder e tendo um alcance antes inimaginável. Vemos mulheres negras tendo destaque em espaços acadêmicos, nas redes sociais, na organização de eventos em prol da luta feminista, no cenário literário e na mídia, por exemplo. Aquelas que vieram antes de nós abriram os caminhos para uma luta que está em seu auge e tem resultado em diversas conquistas para todas nós.