Texto Original: Moving Beyond Pain

 Traduzido por Charô Nunes e Larissa Santiago

Limonada fresca é minha bebida favorita. Na minha pequena cidade de Kentucky, lindas garotas negras, pardas e brancas montavam suas barracas de limonada e praticavam a arte de fazer dinheiro – Negócios! Como uma mulher negra adulta que acredita no manifesto “Garotas, façam seu dinheiro!”, minha primeira resposta ao álbum visual de Beyoncé, Lemonade, foi “UAU” – isso é um negócio capitalista elevado à máxima potência.

Os espectadores que gostam de sugerir que Lemonade foi criado única e primariamente para a audiência de mulheres negras estão errando o alvo. Mercadorias (ou commodities), independente de suas questões subjetivas, são feitas, produzidas e vendidas para todo e qualquer consumidor. A audiência de Beyoncé é o mundo e nesse mundo dos negócios não existe cor.

O que faz essa produção – essa mercadoria -ser desafiante são suas questões implícitas. Obviamente Lemonade explora definitivamente a imagem do corpo das mulheres negras – trazendo-os pro centro, fazendo que sejam a norma. Nessa narrativa visual, há diversas representações (os corpos das mulheres negras vem em todos os tamanhos, formatos e texturas, assim como cabelões de todos os jeitos). Retratos de mulheres negras comuns do dia-a-dia são superexpostos, representados como se fossem da realeza. À cada mãe dos jovens negros assassinados sem nome e sem identidade, é dado um lugar de destaque. As imagens ordinárias da vida real, corpos acima do peso (1) despidos são colocados dentro de um pano de fundo que inclui uma gama fantástica de representações estilizadas, coreografadas e na moda. Apesar de toda glamourosa referência à alta moda do sul dos EUA, quando o show começa Beyoncé, como uma estrela, aparece numa roupa esporte, o controverso “casaco com capuz”. Concomitantemente, a imagem dançante e pouco vestida da atleta Serena Willians também evoca a moda esportiva. (Falando em commodities, na vida real a nova linha de roupas esportivas de Beyoncé, Ivy Park, está sendo lançada agora mesmo).

Lemonade oferece aos expectadores uma extravagância visual – uma exibição de corpos negros femininos que transgridem todas as barreiras. É tudo sobre o corpo e o corpo como mercadoria. Isso certamente não é radical ou revolucionário. Desde a escravidão aos dias de hoje, corpos de mulheres negras, vestidos ou desnudos, tem sido vendidos e comprados. O que faz essa comercialização diferente em Lemonade é a intenção, sua proposta de seduzir, celebrar e deliciar – desafiar a corrente desvalorização e desumanização do corpo negro feminino. Do início ao fim de Lemonade, o corpo da mulher negra é completamente esteticizado – sua beleza uma poderosa face da confrontação. Isso não é uma proposta nova. Imagens como essa foram primeiramente vistas no revolucionário filme de Julie Dash, Daughters of The Dust, filmado pelo cineasta Arthur Jafa. Muitas imagens ainda em preto e branco de mulheres e da natureza são remanescentes da transformadora e inovadora fotografia contemporânea de Carrie Mae Weems. Ela produziu continuamente imagens radicalmente descolonizadas revisitando o corpo da mulher negra.

É exatamente o amplo escopo da paisagem visual de Lemonade que o faz tão distinto – a construção de uma poderosa irmandade simbólica de mulheres negras que resiste à invisibilidade, que recusa ser silenciada. Isto em si não é uma característica menor- isso desvia o olhar da cultura branca padrão. Isso nos desafia todos a olhar novamente, a revisar radicalmente como nos vemos o corpo negro feminino. Ainda assim esse reposicionamento radical das imagens negras femininas não eclipsam verdadeiramente ou mudam as construções sexistas convencionais da identidade feminina negra.

Ainda que Beyoncé  e seus criativos colaboradores ousadamente ofereçam imagens multidimensionais da vida das mulheres negras, muito desse álbum contribui para manter a estrutura estereotipada e convencional, onde a mulher negra é sempre a vítima. Apesar de se basear na experiência da vida real, Lemonade é uma narrativa ficcional fantasiosa com Beyoncé estrelando como personagem principal. Este trabalho começa com uma história de dor e traição, destacando o trauma que ambas produzem.

A história é tão velha quanto a balada “Frankie and Johnny” (“Ele era meu homem, certo! mas ele me fez mal”). Como a ficção de Frankie, A personagem Beyoncé responde a traição do seu homem com raiva. Ela se satisfaz com violência. E apesar do pai na canção “Daddy’s Lessons” dar a ela um rifle lhe avisando sobre seu homem, ela não atira em seu homem (2). Ela veste um vestido amarelo magnifico, corajosamente andando largada pela rua com um taco de baseball na mão, aleatoriamente quebrando carros. Nessa cena, a personagem semi-deusa de Beyoncé é sexualizada enquanto pratica seus atos de violência emocional, como “Ride of Valkyries” de Wagner. Ela destrói sem vergonha. Entre muitas mensagens misturadas e incorporadas em Lemonade, há uma celebração da raiva. Convencida e sorrindo no seu vestido dourado, Beyoncé é a personificação da fantástica mulher poderosa – a qual é apenas – pura fantasia. Imagens de uma violência feminina minam a mensagem central incorporada em Lemonade, de que a violência em todas as formas, especialmente na mentira e na traição, machuca.

Ao contrário da distorcida noção de igualdade de gênero, as mulheres não aprendem nem aprenderão sobre poder ou sobre criar amor próprio e auto estima através de atos de violência. A violência feminina não é mais libertadora do que a violência masculina. E quando a violência é feita para parecer sexy e erotizada, como na cena da rua com vestido sensual, ela não serve para minar o sentimento cultural onde prevalece que o uso da violência é aceitável para reforçar a dominação, especialmente em relações entre homens e mulheres. Violência não cria uma mudança positiva.

Apesar de Beyoncé e seus colaboradores criativos fazerem uso da poderosa voz e palavras de Malcom X para enfatizar a necessidade de respeito a irmandade das mulheres negras, simplesmente mostrar lindos corpos negros não cria uma cultura de perfeito bem estar onde mulheres negras podem se transformar em mulheres completamente auto realizadas e verdadeiramente respeitadas.

Honrar a nós mesmas, amar nossos corpos é uma fase avançada na construção de uma auto estima saudável. Este aspecto em Lemonade é afirmativo. Certamente, para testemunha Miss Hattie, a avó materna de Jay-Z de 90 anos, dar seu testemunho pessoal de que ela sobreviveu ao tentar tirar sua vida, pegando os limões e fazendo uma limonada, é maravilhoso. Todas as referências para honrar nossos ancestrais e anciãos em Lemonade é inspirador. Contudo, concluir esta narrativa de dor e traição com imagens de cuidado com a família e a casa não serve como um jeito adequado de reconciliação e de curar o trauma.

Concomitantemente, no mundo das artes, uma mulher negra inventiva numa posição poderosa como Beoyncé pode criar ambas imagens e presentear seus espectadores com sua própria interpretação do que aquelas imagens significam. Contudo, esta não pode ser entendida como a verdade. Por exemplo, Beyoncé usa sua voz não ficcional e sua própria pessoa para reivindicar o feminismo, mesmo reivindicando, como ela fez numa recente edição da revista Elle “para dar clareza a verdade do significado” do termo, mas a construção do termo feminismo não pode ser baseada na verdade. Sua visão do feminismo não convida para por fim na dominação patriarcal. É sobre insistir em direitos iguais para homens e mulheres. No fantástico mundo do feminismo não há hierarquia de classe, sexo e raça que destrua as categorias simplificadas de mulheres e homens, não há uma chamada a desafiar e mudar os sistemas de dominação, não há enfase na interseccionalidade. Numa simples visão de mundo, mulheres ganham liberdade para ser como homens que são vistos como poderosos. Mas esta é uma falsa construção de poder para muitos homens, especialmente para homens negros, que não possuem poder de fato (3). E de fato, está claro que a violência e a crueldade dos homens negros para com as mulheres negras é resultado da exploração e opressão patriarcal.

No seu mundo fictício, Beyoncé pode nomear a dor das mulheres negras, pungentemente articulada pela poesia da poetisa britanico-somali Warsan Shire, evocando através dos quadros as palavras impressas: Intuição, Negação, Perdão, Esperança, Reconciliação. Neste mundo fictício, a dor emocional das mulheres negras pode ser exposta e revelada. A esta dor pode ser dada uma voz: este é um estágio vital e essencial na luta por liberdade, mas não traz o fim da exploração e da dominação. Não importa quão duro as mulheres que estão num relacionamento patriarcal com homens trabalhem para a mudança, perdoem e reconciliem, os homens devem fazer o trabalho da transformação por dentro e por fora para que a violência emocional contra as mulheres negras chegue ao fim. Nós não vemos nenhuma sugestão disso em Lemonade. Se a mudança não é mútua então a dor das mulheres negras pode ser ouvida, mas na realidade os homens continuarão infligindo dores emocionais às mulheres (nós podemos ver de fato nas imagens de cuidado com Jay-z concluindo o fim da narrativa).

Somente mulheres negras e todas as mulheres resistindo à romantização patriarcal da dominação nos relacionamentos, pode o amor próprio saudável emergir e permitir que mulheres negras e todas as mulheres se recusem a ser vítimas. Finalmente Lemonade glamoriza um mundo onde a cultura de gênero é paradoxa e contraditória. Isso não resolve. Como Beyoncé orgulhosamente proclama no seu poderoso hino “Freedom”: “Eu tenho meus altos e baixos, mas eu sempre encontrei uma força interior que me fez me reerguer”. Para ser verdadeiramente livre, temos de escolher muito além de simplesmente sobreviver à adversidade, temos de nos desafiar a criar vidas com bem estar e alegrias desejáveis. Nesse mundo, fazer e tomar limonada será um fresco e apimentado deleite, uma mistura vivida de azedo e doce, não a medida de nossa capacidade de aguentar a dor, mas sim uma celebração de nosso movimento além da dor.

–bell hooks

  1. O termo “overweight” foi literalmente traduzido para manter a linha de raciocínio e argumentação da autora, embora não concordemos com ele. Não existe corpo acima do peso, existe aquilo que é ideal para cada uma.
  2. A expressão “seu homem” possivelmente foi usada pela autora para enfatizar que não há uma verdadeira quebra de paradigmas.
  3. Quando a autora usa a expressão “de fato”, contextualizar o fato de que esse poder ou privilégios não são absolutos, mas variam de acordo com os atores e circunstâncias em que se dão as relações.
  • Aline

    Li num artigo esses dias que hoje em dia qualquer pessoa que escreve um livro já recebe o título de experto e isso serve para invisibilizar o trabalho de quem realmente merece esse título. E para ser experta uma pessoa tem que dedicar milhares de horas pesquisando sobre um assunto.
    Eu iria mais longe e diria que hoje em dia, na internet, todos passamos a acreditar sermos expertos em algo e nos julgamos capazes de anular o trabalho de alguém, que se não fez uma pesquisa grande, no mínimo perguntou a quem sabia ou pesquisa sobre.
    Sabendo disso, eu penso que discordar da crítica de bell hooks é possível, mas desqualificar a capacidade e o direito dela de falar sobre algo que não só faz parte da vivência dela, mas também tem sido a área de pesquisa dela há mais de 30 anos, não é possível.
    Dessa maneira perguntar “quem ela pensa que é”, demonstra falta de saber e acima de tudo de saber respeitar o trabalho dos outros. Até porque se a própria bell apesar das críticas, respeitou a obra, reconhecendo o seu significado e titulando-os, porque nós poderíamos nos furtar dessa responsabilidade?
    E por fim, pra quem não sabe “Black Looks”, foi escrito em 1992, quando Beyoncé tinha nove anos de idade. Não há como bell hooks ter escrito algo sobre a Beyoncé nesse livro!

  • Thalita Thomé

    Bell Hooks mostra claramente que não sabe do que Beyoncé está falando em sua obra. Analisar uma obra artística apenas pelo viés do seu possível efeito na sociedade é descaracterizar e despersonificar uma obra que pertence à um artista, e não à sociedade. Beyoncé não tem obrigação sociológica ou acadêmica, embora sua obra influa sobre o imaginário coletivo, seu objetivo não é e não deve ser nunca educar ou transformar a sociedade, pois se este é o objetivo, já não é mais arte. O objetivo da arte é pura e unicamente expressivo e dizer que essa história é ficcional é de uma violência tamanha com Beyoncé que fico me perguntando qual é o problema de Bell Hooks. Ora, qual é a evidência de que essa história é ficcional? Qual é a evidência para a acusação de Beyoncé querer vender corpos femininos como se esse fosse o único objetivo de sua obra? Que pressuposto ridículo é esse de que Beyoncé não fala de si própria em sua obra, como se fosse possível uma criação com tantos detalhes, tantas referências sem experimentar o próprio fato. É reduzir tanto, mas tanto a complexidade humana, que a única coisa que posso dizer do texto de Bell Hooks é que ele fala muito mais de Bell Hooks do que de Beyoncé. Esse, aliás, é o objetivo da arte. Fazer com que, ao entrarmos em contato com alguma obra, algo aconteça internamente. Beyoncé foi tão feliz em Lemonade, criou algo tão dela, de uma fidedignidade artística tão grande, que serve de instrumento para a expressão das pessoas que entram em contato com a obra. Bell Hooks virou artista ao falar de Beyoncé, expôs a si própria e suas limitações (que não são poucas). Demonstrou, em um texto só, que não entende nada de relações humanas, não entende de sentir raiva e expressá-la SEM a utilização de violência (quando expressamos a raiva em arte, não estamos machucando ninguém logo, não é violência), não entende a transformação e o aprendizado humano quando diz que Jay-Z não faz nada para contribuir para o seu relacionamento (“I made you cry when I walked away”, “If WE are gonna heal, let it be glorious” “you showed me your scars” !!!!!) , não entende sobre como padrões familiares doentios repetem-se indefinidamente até que alguém tome consciência do que está acontecendo e quebre o ciclo, não entende sobre opressão intra-familiar, não entende sobre coerção de pessoas que supostamente devem nos proteger, não entende sobre estar em uma posição de reflexão de mãe que precisa mudar o curso da história para que sua filha não reproduza os mesmos padrões doentios à que essa própria mulher foi submetida e não entende nada sobre um processo criativo, não entende a diferença entre traição (cheating) e conspiração (betrayal). Ora Bell Hooks, vc critica Beyoncé por não agir conforme seu ideal de feminismo, mas como é possível que vc própria não utiliza sua empatia para compreender a obra de outra mulher? A quem interessa que vc suba numa torre de marfim e finja que não é um ser humano dotado de emoções que são tocadas por uma obra de arte? Da próxima vez que decidir fazer uma análise acadêmica, não misture as coisas. Faça uma análise acadêmica de materiais acadêmicos, traga todo o seu ser pra análise de uma obra artística. Caso contrário, ao misturar as duas, o resultado é embaraçoso: um texto que se finge imparcial, mas demonstra toda a parcialidade do mundo; um texto que finge falar de uma obra, mas fala na verdade, da própria autora; um texto que finge fazer uma crítica relevante socialmente, mas só é relevante pra autora. Bell Hooks viu na obra de Beyoncé o que não existe e deixou de ver os aspectos presentes. Não somos obrigados à lidar com aquilo que é privado de Bell Hooks quando nem mesmo essa faz a distinção entre aquilo que lhe é privado e aquilo que deve ser público.

  • Keila

    bell hooks fez uma cobrança muito alta a Beyoncé. Fiquei aqui pensando como esta artista negra pode suprir a lacuna descrita pela escritora bell. Será que Beyoncé deve preencher tais lacunas cantando um feminismo de fato libertador? Mas esse feminismo que bell e algumas de nós pregamos é o caminho ou cada uma de nós o reinventamos conforme nossas experiências?
    Estou realmente incomodada com este texto.

    • No livro “Black Looks” ela dá uma alfinetada forte em Beyoncé e acho que há muita cobrança em cima dela por conta sua visibilidade.

  • Obrigada pela tradução do texto da bell hooks!!!! Tinha lido o texto original em inglês e uma outra tradução feita pelo Rafael Whsg. Mas, é diferente (há um cuidado maior) a tradução feita por mulheres negras de uma escritora negra.