Já ficou evidente que o comprometimento com as causas sociais é um alvo distante dos nossos representantes políticos. Salvo raras exceções, o que temos visto é uma ausência de amplos debates e falta de legitimidade nos discursos daqueles que deveriam buscar soluções para as mazelas que atingem as minorias.

O Brasil, nesse curto período de redemocratização (30 anos), caminhou de mãos dadas com o conservadorismo e pouco fez em beneficio daqueles que estão à margem social. Traz na sua conjuntura institucional vícios administrativos do período colonial como a permanência da interferência do privado no público, além da visível alienação histórica em relação ao que foi a ditadura militar e o cerceamento de nossas liberdades individuais e coletivas.   

Existe uma fala preponderante nas redes sociais apontando a necessidade de se retomar as leituras dos livros de história, mas apenas ler os tais livros sem a devida reflexão e recortes de classe, racial e de gênero de nada irá adiantar para interpretar a conjuntura política e social do Brasil de hoje.

É preciso perceber que o modelo patriarcal de família que determinava os papeis dos indivíduos e destinava os lugares que as mulheres podiam ocupar na sociedade daquele período ainda prevalece hoje nas nossas relações políticas e debates sobre direitos e desigualdade de gênero. Nos darmos conta que o coronelismo que formatou nossa sociedade ainda não se extinguiu enquanto forma de defender interesses e privilégios.

Alem do tudo, mais que entender é preciso que boa parte da sociedade aceite que quase quatrocentos anos de escravização dos povos negros trazidos para essas terras para exploração do trabalho e enriquecimento de uma classe dominante, é a principal característica da desigualdade social brasileira. Sendo responsável pelos autos índices de violência, de pobreza e que legitima a divisão sociopolítica do país. Ou seja, que se pare de negar que o racismo estrutural é nossa herança histórica e que não existe nem nunca existiu uma relação “afável” entre a elite branca e a população negra no país de miscigenação forçada.

Dessa forma, ao olharmos para nossa conjuntura política possamos compreender como chegamos a essa vergonhosa realidade, onde mulheres e pessoas negras, que são a maioria da população brasileira, possuem quase nenhuma representação dentro da casa das leis, percebendo que a nós não foi permitido chegar a esses espaços e o pouco que avançamos foi através de muita luta, nada nos foi dado de graça, tudo foi conquistado.

“Eu, por exemplo, entre esquerda e direita, continuo sendo preta”

Essa frase de Sueli Carneiro nos diz muito quando olhamos para o cenário político nacional, pois percebemos como o espaço público enquanto lugar de discussão e disputa de poder ainda está distante da maioria da população brasileira, ou seja, nós negras e negros. Ao olharmos os números do nosso legislativo temos uma dimensão dessa disparidade.

Nas eleições de 2014, pela primeira vez, os candidatos declararam sua cor/raça, na composição da Câmara Federal o percentual chegou a míseros 20%, ou seja, dos 513 deputados eleitos, 410 deles (79,9%) se declararam brancos, 81 deputados (15,79%) se disseram pardos e 22 (4,29%), pretos. No Senado a coisa não foi muito diferente, dos 27 eleitos apenas 5 se declararam pretos ou pardos.

Considerando que auto-declaração nem sempre significa que a sociedade lê o individuo como negro e, muitas vezes, tem mais a ver com uma questão de identidade genotípica do que fenotípica esses números podem mascarar uma realidade de representação ainda mais reduzida. Então, se não há representação legítima, continuamos sendo nós por nós.

No caso das mulheres o cenário também não é animador, os dados apontam que dos 513 parlamentares há apenas 45 deputadas, ou seja, menos de 10% do total, dessas 1,6% se consideram pardas e 0,6% pretas. No Senado são 12 mulheres ocupando as cadeiras. É impossível olhar esses números e não nos questionar sobre a falta de representantes em maior numero defendendo os diretos e buscando garantias sociais para os maiores grupos da população brasileira. Afinal o que tem afastado as mulheres e, particularmente, as negras dos espaços de disputa de poder?

A relação perniciosa entre machismo e racismo é uma das explicações mais plausíveis para esse afastamento. Uma política feita por homens, brancos, héteros e de fundamentação moral religiosa cristã tem mantido na mesa de debates preconceitos das mais diferentes ordens, não por acaso ouvimos com frequência que política é “lugar de macho”. Também temos visto várias manifestações explícitas de violência contra mulheres e homossexuais por parte de “nobres deputados” todos “senhores de bem” e “defensores da família brasileira”.

Ora, num espaço tão insalubre por qual motivo as mulheres tenderiam a querer ocupá-lo, afinal é só mais um espaço onde irá vivenciar tudo aquilo que já sente na pele nas suas particularidades?! Basta ver o caso da nossa representante maior, a presidente Dilma Rousseff e toda violência e misoginia destilada contra sua pessoa.

Não é porque as mulheres não se interessam por política que esses espaços não estão ocupados, elas são atuantes nos mais diferentes movimentos sociais, estão na linha de frente de lutas desde as associações de bairros ate nas organizações sindicais. Apesar de todas as barreiras impostas algumas conquistas vieram, mas temos muito que caminhar. É preciso mudar a realidade da baixa representatividade nos espaços de decisão política, ocupar e resistir. Afinal, consciência política não nos falta e conhecemos bem a desigualdade que nos afeta.

Por uma política que seja mais igualitária e representativa, precisamos de mais mulheres nos partidos e nos espaços políticos desde a câmara de vereadores ate o Congresso Nacional. Porque não basta termos uma presidenta, precisamos ter uma rede de mulheres para dar suporte, voz e vez a todas aquelas que ainda não alcançaram o reconhecimento da sociedade como portadoras de direitos. Hoje não nos basta apenas votar, precisamos ser votadas!