Uma menina negra com um turbante lidera o grupo de outros adolescentes que ocupavam a Assembleia Legislativa de São Paulo. Ela discursa e o grupo repete suas palavras. De forma empoderada, contundente e cheia de força, ela reconhece que o grupo lutou, aprendeu e ensinou, suportou a guerra de (des)informação, o terror psicológico e físico, sob as mãos do estado, que parece pouco interessado em garantir educação de qualidade, inclusive, dificultando a abertura das investigações sobre os desvios de recursos que seriam destinados à merenda escolar – muitas vezes, principal momento de alimentação de meninos e meninas pobres, em sua maioria negros e negras, das periferias. Ela, com os demais jovens, decidiram se retirar daquela que deveria ser uma arena política democrática e escuta dos anseios populares – mas contudo, segue como um espaço de negociação e barganha dos direitos das populações, conduzindo campanhas por meio da mídia, onde a criminalização das lutas sociais e a desvalorização dos direitos humanos são tônicas vigentes.

Circula pela internet a imagem de uma mulher negra com os punhos cerrados, reproduzindo o gesto do Grupo Panteras Negras, nos Anos 70, numa atitude aguerrida e corajosa. Sozinha ela põe-se diante de uma marcha neonazista, enfrentando homens brancos de extrema direita, que propõem  medidas xenofóbicas para com os grupos de imigrantes. Esta mulher afro-sueca teve sua imagem viralizada como um exemplo de coragem, mas também dos enfrentamentos das populações negras que renovam a diáspora. Usando sua voz, a poetiza somali Warsan Shire canta em verso: “Você só deixa seu lar, quando seu lar não lhe deixa ficar. Ninguém deixa seu lar, a menos que seu lar lhe persiga”, no poema Home (Lar). Em constante deslocamento corpos negros abandonam sua terra natal, numa desafortunada busca de casa, em locais onde o olhar de estranhamento e rejeição imperam. Onde os nativos elegem gestores que possam fazer cumprir seu desejo “mandem esses bastardos de volta para casa”.

Em fevereiro, a mulher mais poderosa do mainstream mundial lançou um videoclipe que causou espanto pela força do teor político: afirmação da identidade racial, denúncia da violência policial contra corpos negros, o abandono das vítimas do furacão Katrina nos anos 2000, mulheres negras ocupando a velha casa grande para dançar e celebrar sua existência em liberdade. Dois dias depois, Beyoncè usa o espaço do show do intervalo do Superbowl, um dos mais caros horários da TV americana dada sua absurda audiência, matando dois coelhos com uma cajadada de marketing só: lança seu novo single, que anuncia a turnê mundial, mas também coloca no centro da discussão o empoderamento da mulher negra, evoca a memória de líderes como Malcolm X e os Panteras Negras e denuncia a violência policial. Dois meses depois, a artista lança o visual álbum Lemonade, que aprofunda os apontamentos indicados com Formation. A internet se revira em discussões acirradas, performando o belo tribunal que ela costuma encenar. Oportunista para alguns. Marqueteira para outros. alguns se espantam, mas por trançar os cabelos ela virou negra?  Ela é rica, não pode falar dessas coisas, dizem outros.

Escolhi três mulheres negras de contextos bastante diferentes, mas cuja ação e visibilidade estão reverberando no momento de agora. Sob elas recaem toda sorte de julgamento, como de costume, com sobreposição da indagação sobre se há legitimidade para que possam falar o que fazem. Interessa-me neste texto evocar a autora indiana Gayatry Spivak que lança uma obra que indaga “Pode o subalterno falar?”. Em seu denso texto, a pesquisadora remonta os tantos mecanismos de dominação ideológica que foram estrategicamente usados ao longo dos processos coloniais mundo afora. Um os pontos importantes de sua construção é buscar compreender como se constitui e opera a consciência do subalterno – que não é um algo dado, nem pronto e frequentemente, pode não existir, confirmando o sucesso das operações realizadas pelo velho e bom imperialismo e as normas de gênero, raça, classe, regionalidade.  E ainda que haja consciência de sua condição de subalterno – mulher, negra, cis ou trans, nordestina, africana entre tantas intersecções que possamos agregar aqui – Spivak questiona sobre aquilo que não pode ser dito. Porque mesmo quando há espaço conquistado de fala, quase sempre há uma série de lacunas na fala dessa mulher subalternizada – a porosidade daquilo que não é permitido dizer, do que não se ousa dizer ou que escapa a nossa própria consciência.

A questão da vocalidade – a capacidade de falar, de ter uma voz e exprimir um discurso. Performatizar novos mundos por meio da fala, mas também dos discursos do gesto e do movimento são questões do corpo. Sim, do corpo. A mulher – independente do aspecto racial – sempre foi alocada no lugar do corpo: corpo invólucro para receber o pênis, ou o filho; corpo pecado que leva o homem ao erro; corpo sujo, que não pode ser tocado, tampouco tocar quando menstrua; corpo a serviço para o outro, não para si. Quando agregamos o contorno racial, o corpo ganha ainda mais exclusividade, somando os aspectos da força de trabalho – do período escravocrata, mas também dos tempos presentes – e da falta de humanidade, o que permitiu toda sorte de experimentação, exploração, silenciamento e exclusão. Em tempos de liberdade – ainda que limítrofe – a mulher negra consegue emitir sua voz, quase sempre como um grito – mesmo aquela que domina fatores como mercado, consumo e mídia, sua voz é ainda de uma mulher negra (e é fundamental que assim ainda seja).

Ouvindo a jovem, precariamente, sem microfone, orquestrando seus colegas, exigindo à alimentação básica no ambiente da escola, lembro me que este foi um dos direitos que foi violado por toda minha vida de estudante, em diferentes escolas públicas de Salvador, mas que nem eu sabia que era direito, mas talvez sim um favor concedido pelos governantes, que algumas vezes era possível, outras nem tanto – este bem mais frequentemente.  Seu corpo inteiramente engajado na tarefa de convocar vontades para a luta e pedir o respeito devido. Corpo extremamente vulnerável ao acoite das balas de borrachas e cacetes descerrados sem piedade por tantos homens negros, cuja consciência de subalternidade não fora despertada ainda. Homens que são tratados e treinados para serem apenas corpo, destituídos de voz, pensamento nem escuta daquilo que silenciados não falam. Homens que sendo corpo, atendem aos anseios do ensaio e praticam o banal exercício do mal: crueldade, pequenos poderes a serviço do opressor hospedado dentro de si, além do velho e bom falocentrismo.

Diante da mulher, cuja voz não podemos ouvir, mas a força do gesto realizado, diante da marcha de nazistas renovados, encontramos um corpo de luta. Muito próximo ao de tantas das nossas antepassadas – que emudecidas resistiram. Mas poderá a sociedade europeia escutar o grito desta mulher? Está disposta a construir canais para o diálogo? Está o Estado de São Paulo disposto a ouvir o grito de estudantes das camadas mais populares? Ou o diálogo será sempre o do grito conclamando o mais básico seguido de gestos de força desproporcional, impondo o silêncio em nome da ordem, seguido dos aplausos de uma sociedade que taxa de vandalismo toda luta que não seja financiada pela FIESP.

E quando uma mulher, cuja estética embranquecida em parte de sua trajetória artística ofuscou sua negritude para os olhos menos atentos, usa a potência de sua voz e do corpo para falar seu discurso – que não pode ser esvaziado pela força física, mas por argumentos quase pueris como “por que ela se tornou politizada?”, “mas ela está dentro da indústria”, “ela não sofre violência policial”. Pueris porque são frágeis, facilmente desmontáveis e seguem a serviço da lógica que no fundo diz “era melhor quando ela só fazia música para a gente dançar na boate e mexia o quadril”. Ainda que faça parte da prática discursiva e de celebração das mulheres negras, dançar, mexer e tremer seus quadris em fúria, não precisamos engolir  a velha dicotomia de quem balança a bunda não consegue  pensar – que há tanto tempo, é apenas mais uma das prisões que nos encerraram. Beyoncé ousou falar sobre solidão da mulher negra, sobre as opressões que muitas vezes, nossos irmãos, homens negros, nos devolvem. Ousou ser misândrica e rir disso – pois às vezes, a misandria se faz necessária no processo de libertação da voz feminina. Ousou balançar as estruturas do sistema, por dentro dele, conhecendo os mecanismos de funcionamento. E sim, ficando mais rica com isso. Mas ela ainda é uma mulher negra. E isso incomoda – mesmo os esquerdistas, mesmo os vanguardistas, assim como os de direita, como os conservadores.

Como não podem silenciá-la, criam mecanismos de esvaziar seu discurso e boicotes. Como sempre fizeram. Como continuarão a fazer. E a interdição segue posta – porque nossa voz, assim como nossos corpos precisam se debater e muito, até que se façam ver e ouvir. Spivak afirma que o subalterno não pode ser lido e ouvido. Falta o respeito necessário para tornar possível esse diálogo. Essa constatação me dói. Me debato dentro dela. Esperneio e grito. É o que me faz fazer arte e engajar meu corpo na minha forma de tecer a luta. É preciso mais corpo. Mais potência. Mais criação de estratégias conjuntas e ousadas – para que nosso corpo não sucumba frente a marcha daqueles que querem nos esmagar. Talvez, perfurando o sistema. E o sacudindo por dentro. São muitos talvez.