Traduzido por Aline Djokic

De Rhoda Reddock**

No Caribe não há apenas um conceito de feminilidade, mas sim vários. Em Trinidad e Tobago há pelo menos três noções de feminilidade, uma junção das imagens construídas no decorrer da nossa história colonial: a feminilidade das africanas escravizadas, a das indianas condenadas ao trabalho forçado e a feminilidade do colonialismo britânico.

A independência econômica e individual das africanas começou logo após a abolição da escravatura. Essas mulheres viviam nas ruas, batalhavam nas ruas, comiam nas ruas e dançavam nelas. As indianas, infelizmente eram usadas para se construir um jogo de oposições, ou seja, elas não eram „escandalosas, promíscuas, descontroladas e sem maridos como as africanas“. A indiana era considerada a mulher dócil, passiva, já que vinha da tradição indiana, que reconhecia o homem como „o senhor da família“.

A opinião geral era que ao contrário da africana, cuja família tinha sido destruída pela escravidão, a indiana teria chegado ao Caribe com sua própria família. Isso era usado para reforçar a ideia de que os indianos – ao contrário dos africanos – se desenvolviam e progrediam melhor e formavam „famílias decentes“, porque possuíam „mulheres igualmente decentes“.   

Mas a verdade é que a maioria das indianas não chegava acompanhada de suas famílias. Nos primeiros anos chegaram muito mais homens do que mulheres. E a maioria das mulheres que chegavam realmente não se encaixavam naquela descrição: „Donas de casa recatadas“. Elas eram o que a sociedade denominava „a escória“: mulheres que tinham fugido de um relacionamento abusivo, mulheres grávidas e solteiras, ex-dançarinas de templos, prostitutas do porto, assim como bramanes que não tinham mais chances no mercado de casamento. Para muitas dessas mulheres o Caribe oferecia a chance de alcançar uma liberdade que antes lhes tinha sido negada. A correspondência colonial está cheia de citações da assim denominada: „problemática indiana“.

Esse episódio da história foi por muito tempo mantido em segredo. Se as indianas tentavam se organizar politicamente, ouviam que „não lhes era permitido e que não deveriam se esquecer de que eram diferentes, de que suas histórias era outras, assim como não deveriam se esquecer de suas origens“. Para essas mulheres descobrirem que não eram (como diziam) naturalmente recatadas e passivas trazia grande alívio.

O império colonial britânico começou uma verdadeira campanha com o intuito de instituir uma nova imagem feminina da colônia, que deveria acabar com aquilo que eles denominavam de „indianas dóceis“ e „africanas agressivas“: a instituição da imagem da dona de casa britânica recatada. A partir daí, o clero colonial tentou introduzir a idéia de família apoiada no modelo europeu, estigmatizando a mulher solteira, com o intuito de coibir a independência financeira das mulheres e fazê-las dependentes dos homens. O problema é que o modelo econômico das colônias tornava isso impossível. Além disso a idéia do „homem que sustenta a família“ era uma idéia totalmente desconhecida, o que tem sumariamente a ver com a tradição escravocrata das colônias.

Para os escravizados quem conseguia se sustentar com o mínimo possível era considerado um herói. Apoiados nesse pensamento, heróis eram aqueles que davam o menor lucro possível para o homem branco. Isso, no entanto, era algo que as mulheres negras dificilmente conseguiam fazer, pois eram elas as responsáveis pela criação das ciranças. Os homens negros, porém, podiam fazê-lo sem restrições.

Sem dúvida, principalmente durante os anos 1930, eram as mulheres negras quem sustentavam os homens negros. Para esses „amantes“ era muito importante serem atrativos e poderem satisfazer uma mulher sexualmente.

Eu acredito que a velha regra continua valendo até mesmo hoje em dia, quando as mulheres são mais independentes financeiramente. Se você depende de um homem financeiramente, você coloca sempre um dinheirinho de lado, para o caso de ele lhe abandonar. E se o homem é o único a sustentar a família, você também faz o seu pé de meia. O pé de meia é o dinheiro que você usa para ir embora quando não dá mais ou quando o seu parceiro quer „dar“ em você. E quando você está saindo com um cara e ele não lhe respeita, você pode então simplesmente dizer: „Se cuida, senão eu pego os meus trocados e tchau! Está pensando que eu sou o quê?“

Isso tudo é a herança de uma história de independência financeira e sexual que as mulheres africanas escreveram no Caribe. Mas infelizmente, hoje tudo mudou. Muitos dos ofícios exercidos tradicionalmente por mulheres estão agora em outras mãos. A chegada do Rastafarianismo trouxe uma mudança de status para a mulher negra. Essa religião como messiânica colocou as mulheres numa posição subordinada, enquanto guardadoras culturais à serviço da luta do homem negro por sua masculinidade.

Em todo o Caribe, as mulheres negras eram antes chamadas de tantie (tia), no Rastafarianismo elas passaram a serem chamadas de filhas. É impossível negar que não haja um grande esforço em controlar a sexualidade das mulheres. Uma recente canção jamaicana diz o seguinte: „Soldering is what a young girl wants“ – ou seja, a vagina de uma menina deve ser soldada. As mulheres rastafari têm que se cobrir da cabeça até os joelhos, e as constantes gravidezes são usadas para controlar a mobilidade e a sexualidade delas. Mas é claro que, para essas mulheres, elas estão tendo filhos para o aumento da raça negra em prol da luta para a libertação da África. Mas é preciso entender que o ideal de mulher negra dos rastafari é uma reação ao ideal sexualizado americano, uma reação à Babilônia, e contra o capitalismo, que usa a mulher como objeto sexual. Como dá para perceber a questão é complexa.

Atualmente, a imagem da mulher caribenha sofreu mais uma mudança. Em 1978 uma amiga minha de colégio foi escolhida „Miss Trinidad e Tobago“ e se tornou logo em seguida a primeira „Miss Universo“ negra. Isso foi muito importante para as mulheres negras. No ano seguinte Miss África do Sul ganhou o concurso e a Miss Trinidad e Tobago a coroou.

Durante o seu reinado a Miss Trinidad e Tobago viajou pelo mundo, se encontrou com estrelas do cinema, ficou rica e famosa. Quando ela retornou à Trinidad e Tobago ela tinha se tornado um membro da elite. Se antigamente os primeiros ministros criticavam os concursos de beleza, agora eles eram defendidos. Ela recebeu a maior ordem que alguém pode receber no país, o „Trinidad Cross“. Atualmente esses concursos de beleza são realizados em todos os cantos e recantos do país. Para as meninas, a beleza se tornou a chave para o sucesso.

Eu sempre fui contra os concursos de beleza, e não mudei de opinião mesmo ao ver uma mulher negra ganhar um deles. Quando eu penso nas áreas em que nós mulheres negras precisamos nos validar, a beleza não é uma delas.

E o que mais me preocupa é isso: enquanto a beleza continuar sendo um aspecto tão importante da mulheridade, muitas mulheres vão continuar falhando na tarefa de serem consideradas mulheres.

 

*Tradução livre por Aline Djokic do cap. Rhoda do livro: „Beauty Secrets, women and the politics of appearance“ de Wendy Chapkis, p. 65-68, 1986.

 

Rhoda Reddock

** Rhoda Reddock é professora responsável pelo departamento de Estudo de Genêros na Universidade das Indias Ocidentais em St. Augustine em Trinidad e Tobago. A página dela é esta: https://sta.uwi.edu/crgs/april2007/rhodareddock.asp