Desde a primeira vez que ouvi falar sobre colorismo senti uma rejeição imediata à ideia. Primeiramente tentei justificar minha atitude com o bom e sempre útil argumento de que isso separaria negros de diferentes pigmentações. De fato, alguns discursos mal fundamentados bem podem levar a isso, um desvio do foco na luta contra toda e qualquer forma de racismo poderia ser fatal, ainda mais no contexto brasileiro, em que o mito da democracia racial já nos cega e aliena de maneira tão eficaz.

Mas a verdade é que tive medo de perder meu lugar, a identidade que demorei tanto para construir e que tanto me custou e ainda custa. Fiquei pensando que perderia a identificação com meus irmãos e irmãs e seria considerada tão privilegiada quanto qualquer mulher branca, por ter a pele mais clara e os danados dos cachinhos. O fato é que olhar para o meu próprio umbigo e privilegiar minhas dores ao invés da dor do meu povo fechou meus olhos para o fato de que, como sempre, o buraco é muito mais embaixo.

Em primeiro lugar, pensar que já podemos ver negros em diferentes lugares sociais atualmente é fundamental, dentre outras coisas, para valorizarmos as conquistas de nossas lutas. Desde a abolição, o Brasil e o mundo vem buscando formas de nos convencer de que nossos algozes fizeram a revolução e não nós. Contam que a abolição foi dada, a CLT foi dada, xs chamadxs mulatxs passaram a ser toleradxs por pura caridade dos gentis senhores brasileiros, que também deram ao negro a possibilidade de miscigenar sua prole, clarear a família e limpar úteros negros. Precisamos nos lembrar de que toda e qualquer ação do opressor que pareça ser benéfica para nós, sempre esconde uma estratégia de manutenção de seus privilégios e de nosso lugar de subalternidade.

Portanto, não vejo como privilégio as “facilidades” dxs mulatxs nessa sociedade, o fato de o opressor suportar nosso fenótipo um pouco mais que o de nossxs irmxs, não nos tira da senzala, quando muito, nos coloca na cozinha da casa grande. Porém, não posso negar que essas facilidades existem e tornam menos nocivos os efeitos do racismo para negros menos pigmentados. Ser x segundx na escolha para uma vaga de emprego ou para conquistar o coração da pessoa amada, pode fazer toda a diferença para fugir da marginalidade e da solidão as quais estamos estatisticamente fadadxs.

Por isso, não sejamos ingênuos, não vamos confundir direitos conquistados pela luta coletiva com privilégios, mas também saibamos atualizar nossos discursos e reavaliar nossos locais de fala de acordo com a maneira como nos beneficiamos de nossas conquistas, sempre respeitando as dores dxs nossxs. Me dói ver meninas negras com cabelos 4C desejando meus cachinhos, com os mesmos olhinhos sonhadores com os quais eu cobiçava as longas madeixas lisas das meninas brancas do meu colégio, meritocraticamente público, ou seja, racista, elitista e sustentado pelo dinheiro do povo. É triste saber que a solidão da mulher negra é mais sombria e definitiva para minhas irmãs de pele negra como a noite. A alegria de ver o aumento constante do número de mulheres negras nas universidades é embotada pelos dados que nos mostram que nossos meninos negros carregam alvos em suas testas, maiores quanto mais escura é sua pele.

Nossa luta está apenas começando, mas já colhemos alguns frutos, saibamos celebrá-los e seguir lutando juntos, porém respeitando as particularidades das nossas dores, tão complexas e profundas quanto as raízes do racismo em nossos corações e mentes. Lembremos também que são ainda mais profundas as raízes que nos unem em África e nos mantêm unidxs na diáspora.

NOTA: O termo mulato é usado aqui para se referir exatamente ao conceito e ao lugar social criados para o negro mestiço, sobretudo no período pós abolição. O objetivo desse uso é reforçar o questionamento de um suposto privilégio desse grupo, uma vez que ser mulato significa, desde a etimologia da palavra, apenas uma releitura da mesma subalternidade e animalização a que todo o povo negro sempre foi relegado.