Nada melhor do que se comemorar o “Dia de África”, instituído em 25 de maio de 1963 pela antiga Organização da Unidade Africana, evidenciando a cultura e o conhecimento intelectual-artístico deste continente multifacetário através da Literatura.

Devido a uma abertura significativa do mercado editorial para escritores de literaturas africanas, atualmente, é possível encontrar livros de diversos países, como Nigéria (Chimamanda Adichie, Uzodinma Iweala e Wole Soyinka), Quênia (Ngũgĩ wa Thiong’o) e Angola (Luandino Vieira e Ana Paula Tavares). E há uma explicação lógica por trás disso, já que estudiosos e até mesmo escritores explicitam que, graças às mudanças socioeconômicas que se realizaram no continente, o solo tornou-se fértil e estável para escritores veteranos e novatos. No caso do Brasil, é importante ressaltar a maior visibilidade dada a países lusófonos, como Moçambique e Angola.

Todavia, ainda é pequena a publicação de livros escritos por mulheres: em 2014, a New York Times publicou um artigo com a pretensão de demonstrar o grandioso quadro de novos talentos do continente africano, encaixando Chimamanda e fazendo uma breve consideração sobre sua vida e obra. O problema é que o texto afirmava haver mais mulheres que compunham este grupo, mas não explicitou a obra de mais nenhuma escritora.

Voltando-se para o cenário editorial brasileiro, a situação torna-se mais patética ao procurar escritoras africanas negras: são quase inexistentes livros publicados aqui que se encaixem nesse quesito. Paulina Chiziane é um exemplo disso. Em entrevista ao jornal Expresso, ela conta que “o meu primeiro livro levantou muitas dúvidas: primeiro uma mulher que escreve, depois que fuma, depois que fala de amor… Não deve ser flor que se cheire. Tentavam afastar-me da sociedade, ainda continuo a ser vista como uma aventureira, como uma pessoa que não tem âncora no meio social”.

“Reconhecer que o racismo, aliado ao machismo, conforma uma opressão cruzada que também é estrutural é um grande passo”, afirma a estudiosa Bianca Gonçalves em seu texto sobre as escritoras negras brasileiras. Essa declaração pode ser facilmente transposta para o contexto Brasil/escritoras negras africanas.

Assim, para conhecer um pouco mais da literatura africana publicada no Brasil, é interessante começar com a HQ Aya de Yopougon, da marfinense afropolita Marguerite Abouet, que passou boa parte da sua vida em Paris, sob os cuidados de uma tia-avó. A história narra as aventuras de três jovens que residem na Costa do Marfim, mais precisamente em Yopougon, um dos subúrbios mais populosos de Abidjan.

A importância dessa HQ se dá por meio da perspectiva empregada na construção do enredo: seria muito fácil – e falacioso – mostrar um país de África com todos os inúmeros problemas que presenciamos na mídia, como a fome e a guerra, e esquecer os desejos pessoais e universais que motivam o individuo. São exatamente esses desejos que encontramos na protagonista Aya, que não quer acabar no chamado grupo C (cabelo, costura e caça-marido). Para isso, ela procura convencer a família que precisa dar continuidade aos estudos sendo médica, o que seu pai, Ignace, acha perda de tempo, pois “[…] os estudos avançados foram feitos para os homens”.

Ainda sobre o machismo na sociedade africana, são notáveis as passagens em que Aya luta contra os assédios que vem a sofrer na rua.

Por fim, vale refrisar o quanto é prejudicial à falta de autoras negras africanas nas livrarias brasileiras. Quando será que teremos aqui, por exemplo, uma publicação de Noêmia de Souza, poetisa moçambicana que lutou, através da palavra poética, contra a opressão da mulher e fez voz aos revolucionários que buscavam a independência de Moçambique? Ou livros que já se consagraram como cânones da literatura francófona africana, como Une si longue lettre, da senegalesa Mariama Bâ?

Enquanto essas mudanças não ocorrem, a leitura pode persistir com as autoras negras abaixo que possuem livros publicados no Brasil:

Paulina Chiziane: moçambicana que lutou para conseguir ser aceita e ter suas obras divulgadas. Em Niketche: uma história de poligamia, Chiziane sistematiza as diferenças entre mulheres do norte e sul de Moçambique, evidenciando, dessa forma, os distintos ritos de amor e solidão.

Vera Duarte: jurista e escritora cabo-verdiana, é conhecida como a primeira romancista de Cabo-Verde pelo livro A Candidata, que retrata o período pós-colonial do país de origem.

Chimamanda Adichie: a nigeriana já é bastante conhecida pelo seu discurso no TED “Sejamos todos feministas” e pelo romance Americanah, que narra a história de Ifemelu no seu país de origem e a transição para os Estados Unidos.