Quem é Virginía Leone Bicudo? Ao indagar esta pergunta a meus colegas de universidade, poucos sabem a resposta, nunca ouviram falar. Alguns professores conhecem, outros não. A verdade é que eu também não a conhecia há pouco tempo, mesmo estudando questões sociais e conhecendo o debate em torno das relações raciais no Brasil.

Virgínia Leone Bicudo foi uma socióloga e psicanalista brasileira, uma das primeiras professoras universitárias negras do país, nasceu em 1910 na cidade de São Paulo, filha de Joana Leone, branca, imigrante pobre de origem italiana, e de Teófilo Bicudo, negro e trabalhador doméstico que vivia em uma fazenda em Campinas.

É interessante observamos o contexto histórico da sociedade brasileira em que Virgínia Bicudo viveu, uma vez que nas primeiras décadas do século XX a sociedade brasileira ainda estava marcada pelos resquícios da sociedade escravocrata e a atenção de intelectuais se voltava para pensar o futuro da sociedade brasileira pós-escravidão. O debate que caracterizava este momento, era perpassado pelas ideias do Racismo Biológico, que determinaria a inferioridade do negro e a defesa de políticas de eugenia, como, por exemplo, a obra de Nina Rodrigues (1894); posteriormente, pelas ideias de harmonia racial propostas por Gilberto Freyre (1933). A discussão em torno das relações raciais no final dos anos 1940 tinha adquirido maior visibilidade, devido às mudanças ligadas aos estudos sobre o processo de integração de diferentes populações na sociedade brasileira, como negros, mestiços e imigrantes.

Bicudo, via na ciência sociais um meio para tentar compreender as relações raciais na sociedade brasileira de sua época, o que se tornou tema de sua produção intelectual. Os estudos sociológicos de Virgínia Bicudo como sua pesquisa Estudo das Atitudes Raciais entre Pretos e Mulatos em São Paulo (1945) teve contribuições importantíssimas ao debate das relações raciais para se tentar compreender aquele período os trabalhos desenvolvidos por Bicudo traziam novas perspectivas sobre as relações raciais, pois, se dedicavam a analisar o processo de integração do negro na capital paulista, trabalhando com a questão da identidade, procurando entender como esta se expressa em atitudes e levando em consideração que a identidade se constitui por meio dos processos de interação social.

Mulher, negra e intelectual Bicudo, coloca em debate a tese sobre a existência de uma “harmonia racial” no Brasil, pois, por meio das narrativas de seus entrevistados e suas análises sociológicas, demonstra que, ao contrário do que afirmava parte da intelectualidade brasileira daquele período, ocorria uma exclusão do negro independente da sua mobilidade social, pois também existia um preconceito de cor que independia de seu status econômico.

Quando li a tese de mestrado de Virginia Bicudo e alguns de seus artigos publicados, pensei: “Como eu nunca ouvi falar de Virginia Bicudo?”

Ao procurar por respostas me deparei com a pauta do epistemicídio de negros e negras na produção intelectual, indagada pelo debate do feminismo negro interseccional, da qual se percebe a invisibilidade de intelectuais negras na produção de conhecimento cientifico. A proposta colocada por essa perspectiva parte da crítica à forma como a construção do pensamento científico se dá no ambiente acadêmico ocidental, sobretudo, como a produção intelectual atual corrobora para a perpetuação da subordinação de grupos marginalizados. O fato é que as condições históricas constituirão privilégios sociais do grupo dominante, se entende que uma das consequências foi gerar um discurso hegemônico na produção intelectual.

Eu poderia escrever simplesmente uma critica a esse discurso hegemônico, porém, ciente da constante invisibilidade, conclui que talvez fosse interessante propor uma reflexão diante de um exemplo concreto, no caso a biografia e produção intelectual de Bicudo.

É fundamental destacar a importância de intelectuais negros e negras no Brasil, para que possamos quebrar com o discurso hegemônico em torno do debate sobre as relações raciais, dando espaço para, simultaneamente, o reconhecimento das contribuições de autores negros e autoras negras sob novas perspectivas, colaborando assim para a construção do pensamento sobre múltiplos olhares e respeitando as subjetividades.

Mas, e você, já ouviu falar de Vírginia Bicudo?