Por Dandara Barbosa e Naiara Mascarenhas

REPRESENTATIVIDADE IMPORTA.

Sabemos que em todos os espaços o corpo da mulher sempre foi alvo de mercantilização e objetificação, e isso não é diferente nos concursos de belezas: competições entre mulheres que buscam estar num padrão de beleza aceito pela mídia e sociedade.

Esse padrão, por sua vez, é sempre o europeu: magro, branco, alto, cabelos lisos. A estética branca é a mais valorizada e aceita.

A postura de feministas brancas são sempre repudiar esses concursos de beleza, tendo em vista que neles ocorre a imposição de padrões de beleza que diversas vezes introduzem sentimentos de frustração e baixa autoestima nas maiorias das mulheres. Porém, Antes dos julgamentos, precisamos levar em consideração as diferenças que existem nas realidades das mulheres brancas e das mulheres negras.

As negras:

– representam a maioria das mulheres que são violentadas;

– recebem os mais baixos salários do mercado;

-não são representadas na mídia (e quando são, aparecem de forma hipersexualizada);

– apresentam os menores graus de escolaridade;

– não têm visibilidade nos espaço de concursos de belezas.

Não podemos aceitar, concordar e defender os concursos de beleza, considerando que seus critérios de seleção se sustentam no padrão eurocêntrico de beleza. Porém, não podemos cair no discurso generalizado e raso, que não reconhece os diferentes graus de opressões (intersecções), que subjuga e desvaloriza a mulher negra. Não é aceitável esquecermo-nos do longo processo de escravidão do povo negro no Brasil, que até hoje nos faz sentir as várias heranças escravocratas/racistas em todos os ambientes sociais. Fato comprovado dada a falta de pessoas negras nos espaços de poder.

Mesmo depois de 128 anos após a abolição da escravidão, ainda são reproduzidos os discursos que introduzem uma imagem negativa do povo negro, sempre inferiorizando e desqualificando as características negras presentes no cabelo, pele, nariz, boca. Sabemos que até hoje existe um ideário estético-racista que permeia o imaginário da sociedade, logo percebemos que a luta árdua pela valorização da beleza negra, significa o reconhecimento da importância da representatividade para as mulheres negras. Lutar, ocupar e resistir nesses concursos também significa um ato político.

É necessário desconstruir os padrões de beleza que marginalizam as negras, é preciso mostrar e afirmar nossa estética, pois ela está incluída na construção da identidade negra. Representatividade importa, sim! E esse sentimento tem que existir desde a infância, precisamos corrigir esse processo, para que possamos ter crianças e adolescentes negras/crespas com autoestima elevadas, pois são nesses momentos da vida que estamos em construção pessoal e social e, que assim, essas jovens possam reconhecer sua própria beleza a partir de um sentimento de representatividade e pertencimento que esses concursos podem proporcionar.

DEVEMOS DISPUTAR E OCUPAR TODOS OS ESPAÇOS DE PODER: POLITICO, ECONÔMICO, SOCIAL E TAMBÉM OS ESTÉTICOS.

Portanto, lutar para eleger uma miss negra em um estado que 75% da população é negra – até mesmo no país que a maioria da população é negra – é um ato político, e ganha outra dimensão: a de ir contra esse padrão eurocêntrico imposto pela sociedade racista. Com essa postura, nos apresentamos contra a falta de representatividade da mulher negra, e reivindicamos, nesse ato, nosso espaço de representatividade.

Assim, nós enquanto mulheres negras e tocantinenses iremos sentir um incrível contentamento quando o Tocantins romper com a regra de padrões predominantes, e eleger pela primeira vez, uma miss negra.

 

Sobre as autoras:

Dandara Barbosa, negra empoderada e aquariana, tem 19 anos, Tocantinense, considera uma Jornalista em formação (pois faz faculdade e trabalha na área), militante atuante do movimento negro e feminista, na qual é sua paixão!  

Naiara Mascarenhas, 23 anos, recém formada em serviço social pela universidade federal do Tocantins. Negra, Pisciana, de esquerda e maravilhosamente depravada!