Quero dividir um pouco do que aprendi e venho aprendendo com as mulheres negras sobre relacionamentos. Falo sobre relações entre mulheres e homens. Primeiro porque em um relacionamento homoafetivo ambas, em geral, têm mais coisas em comum. Segundo porque, dada minha vivência, estou mais apta a falar da relação entre mulher e homem.

A primeira coisa que um homem que assume uma relação junto a qualquer mulher negra deve saber é que, a partir desse momento, a luta é dos dois. Quaisquer agressões, sejam elas explícitas ou não, dizem respeito a você também. A mulher negra é a protagonista da sua própria história e tem coisas que só ela sabe e sente, mas se você está ao lado dela saiba que não deverá deixar passar machismo e racismo e que terá que ser também um guerreiro.

Ainda sinto que nunca é demais repetir que às mulheres negras foram reservados lugares estereotipados na sociedade.  Tais como empregada fiel, favelada barraqueira, mulata exportação ou ainda a exótica. Sabemos que todos esses lugares tem fundamentos históricos relacionados aos lugares em que fomos colocadas durante todos esses anos pós-abolição no Brasil. Ainda hoje algumas famílias, herdeiras da aristocracia brasileira, têm nas suas casas mulheres negras descendentes de outras mulheres negras que foram escravizadas e continuaram trabalhando na casa dos senhores, agora patrões. Muitas dessas famílias mais esclarecidas (neste caso o termo esclarecido é mesmo uma boa palavra para se usar. Se não entendeu o porquê sugiro que pesquise um pouco sobre herança racistas na língua portuguesa) até tratam essa mulher negra empregada como se fosse da família. Mas sempre se esquecem que ela é um ser humano que como tal tem a sua própria história e não é apenas uma extensão da história dessa família branca. Do outro lado temos a barraqueira  que nada mais é que mais uma mulher negra forte, que luta pelos seus direitos e pelos direitos dos seus e que compreendeu que para conseguir ser respeitada, muitas vezes precisa ir para o confronto direto. Com isso geralmente é vista simplesmente como louca, exagerada ou barraqueira. O outro estereótipo clássico reservado para as mulheres negras, principalmente as mais jovens, é da mulata (palavra etimologicamente racista) ou exótica (usando de padrões de beleza branca, para definir o que ‘e ou não exótico). Dois termos pelos quais não aceitamos ser chamadas.

O fato é que somos diversas! Transitamos em diferentes lugares e não podemos ser enquadradas em papeis. Se você, homem, está ao lado de uma mulher negra saiba que ela é um universo, assim como qualquer mulher e que seria ignorância querer resumi-la.

Sabemos que sexo e amor são coisas distintas e lindas quando caminham juntas. Nós mulheres negras gostamos de sexo, assim como mulheres não negras, mas existe uma diferença  histórica do que foi feito na vida de ambas. Já é hora de nos conectarmos às nossas raízes e ao nosso sagrado feminino e entendermos que a diferença não é física, é cultural. Nós, mulheres negras, já estamos cansadas de sermos hipersexualizadas e pouco amadas. Não queremos mais ser tratadas como objetos na feira de venda de escravos. Esperando alguém dizer se somos úteis para servir na cama ou na cozinha. Seja sincero sobre suas intenções numa relação com a mulher negra, ela pode ter as mesmas intenções que você, ou não. Basta não se sentir superior a ela na tomada de decisões e assim tudo irá caminhar bem.

Se você é um homem negro, sabe que o racismo é uma constante e que devemos estar sempre alerta na defesa e efetivação dos nossos direitos como seres humanos. Ainda assim, você vai precisar entender o que é estar ao lado de uma mulher negra, você vai precisar eliminar o seu machismo e compreender que não é melhor do que ela pelo fato de ser homem. Você vai precisar respeitá-la, muito, além de amá-la. Vai ter que entender que se hoje você é um homem negro vivo, muito provavelmente isso é responsabilidade também de uma forte mulher negra.

Se você é um homem branco vai precisar ter o coração e mente muito abertos para, minimamente, compreender o que esta mulher negra passou durante toda a sua vida. Que as coisas que ela fala e pelas quais luta são resultado de sentimentos e sofrimentos vivenciados todos os dias por ela e pelas suas semelhantes. Com força e amor não nos tornarmos mulheres amarguradas ou desiludidas da vida. Ao contrário, o sofrimento é nosso combustível! Se uma mulher negra optar por estar ao seu lado, ela certamente acredita na sua capacidade de enxergar além dos seus privilégios como homem branco, ela acredita que poderá ver em você um verdadeiro companheiro.

Seja!

Se você e essa mulher negra vierem a ter filhos, eles terão em si muito do que é essa mulher. Se o filho nascer de pele clara, mesmo sendo negro, automaticamente já terá algumas facilidades, mas só algumas. Se nascer de pele escura poderá ser o primeiro suspeito de furtos na escola, o primeiro suspeito de violência contra seus colegas, o primeiro a ser parado pela polícia, a primeira a ser vista como objeto sexual (e não como uma possível namorada), a primeira a ser solicitada a servir, a primeira a ser desrespeitada pelas suas características físicas, a primeira ou o primeiro a ser morto em situações de conflito.

Se nós mulheres negras, não nos calamos e não nos conformamos é para que isso não mais aconteça. E se você, homem, está ao lado dela, lute também com todas as suas forças para que isso não mais aconteça.

Outro dia, um amigo me disse que quer ver chegar o dia em que ele não precise mais  lutar e possa finalmente viver na serenidade. Eu também quero ver chegar esse dia! Mas enquanto ele não chega, seguimos nos equilibrando na corda bamba da vida, entre a serenidade alerta e a luta pacífica, até o dia em que sejamos finalmente todos respeitados em nossas diferenças!