De Zoé Samudzi Tradução Jessica Oliveira Revisão Daniela da Silva

Publicado originalmente em 06 de março de 2016, em: http://harlot.media/articles/the-frequent-trauma-non-monogamous-dating-while-black

 

Embora a multiplicidade de relações não monogâmicas não seja nova, tampouco uma invenção branca-ocidental, parece que a não-monogamia é constantemente moldada de forma que centraliza a branquitude. Apesar do número de pessoas negras, inclusive eu, que participa de acordos não-monogâmicos ou que não tem objeções a eles, há, muitas vezes, uma grande resistência de nossa parte a um enquadramento no poliamor apresentado em discussões mais corriqueiras. Eu concebia tais práticas românticas “esclarecidas” como um meio de evitar as diversas dinâmicas racializantes e gendrantes desconfortáveis que eu já havia experimentado em relacionamentos anteriores.

Mas o fracasso em descentrar a branquitude e as normatividades violentas imbricadas nela significou, pra mim, que estes espaços ainda se configuram como mais uma constelação, onde minhas necessidades, como uma mulher negra namorando dentro do cis-hetero-patriarcado, não eram ouvidas, tampouco satisfeitas.

Há muitos tipos diferentes de relações não-monogâmicas: relações abertas ou casuais, casamentos, pulação de cerca, poli-fidelidade, poliamor ou poligamia, e a anarquia relacional [2]. Da maneira como tenho tanto praticado quanto entendido, a não-monogamia se destina a ser um relacionamento dissidente que subverte a “natureza” possessiva da monogamia. Eu, pessoalmente, a prefiro, embora também possa facilmente ter relações com um/a único/a parceiro/a. Imagino relacionamentos amorosos divorciados do capitalismo, um sistema econômico baseado na ideia da concorrência acirrada por recursos escassos e (às vezes artificialmente) finitos. Dentro da lógica capitalista, o amor torna-se, de certa forma, um recurso finito, e nós frequentemente reduzimos nossa capacidade de amar à esta ideia de escassez.

Tão grande quanto este colapso da mensagem capitalista sobre relacionamentos pode ser, também a integração e a prática frequente desta “não-monogamia ética” – ou seja, práticas baseadas em acordos e em formas consensuais nas quais se pode explorar o amor e o sexo com várias pessoas – continuam bastante problemáticas. Da mesma maneira em que construções tradicionais falham em eliminar a supremacia branca, muitas pessoas brancas praticam “eticamente” a não-monogamia de formas que perpetuam a mercantilização de seus/suas parceiros/as não-brancos/as.

Ao longo da minha vida – possivelmente por conta das minhas próprias aspirações internalizadas por proximidade à branquitude – me relacionei quase exclusivamente com homens brancos heterossexuais e cisgêneros. E, apesar das disposições políticas alegadamente progressistas desses homens, eu sempre me sentia sexualizada e objetificada de formas desconfortáveis e violentas.

Já fui objeto da fetichização clássica mais evidente quando falavam o quanto amavam meu corpo racializado. Variou de um parceiro me dizendo o quanto ele amava a visão de mulheres negras em sua cama, para outro que me disse o quanto gostava de ter mulheres feministas negras submetendo-se a ele, e um parceiro dinamarquês que me dizia constantemente o quanto ele amava minhas “coxas africanas” ou meus “lábios carnudos africanos” (engraçado que ele nunca me disse o quanto também amava meu “cabelo africano” crespo, encarapinhado [3]).

Já rolou também aquela objetivação mais sutil: este tipo é mais praticado por homens radicais e progressistas, homens que senti estarem mais interessados em minhas opiniões políticas do que na totalidade da minha condição de mulher*. Estes são os homens que têm que “aprender” a namorar mulheres* negras: homens que me transformaram em seu projeto pessoal de educação política, homens que exaustivamente solicitavam que eu explicasse as políticas do meu feminismo negro [4] como que para preencher uma lacuna nas políticas deles, homens que ficavam sintomaticamente em silêncio quando comentários racistas eram feitos por seus amigos/as, enquanto eu era a única pessoa negra no espaço, homens que sempre mencionavam “o que sua namorada negra radical” pensa sobre um determinado tópico, mesmo (e desavergonhadamente) na minha presença.

Eu me sentia como um dos dois itens de algum colecionador: uma versão da Barbie coelhinha sexy, elegante e selvagem puramente para prazeres privados ou para desfilar em público, ou então como uma Barbie sexy e enigmática da Angela Davis distribuindo conhecimento sob comando. Às vezes me sentia como as duas coisas ao mesmo tempo: como uma enciclopédia transável, pronta para ser aberta e consumida à vontade. Muitas vezes me senti como um acessório: um dos “valiosos”, mas mesmo assim como algo em exposição e dispensável.

As pessoas brancas que praticam a chamada não-monogamia “ética”, mas ainda tratam mulheres* negras como cartões comerciais, estão apenas aproveitando da pseudo-liberdade que estas relações proporcionam a elas. Ao invés de valorizar mulheres* negras como seres completos e complexos, somos reduzidas ao capital social-liberal aparente da proximidade à Negritude. Tornamo-nos uma espécie de realização superficial para muitos, um símbolo de status que incentiva nossos/as parceiros/as brancos/as a nos exibir por aí como prêmios para mostrar apenas quão “cabeça-aberta” eles/elas são. Mas para eles/elas estar em um relacionamento não-monogâmico com uma mulher* negra não é o mesmo que tratar a referida parceira com o cuidado, honestidade e respeito que ela merece. Uma trepada casual não é um/a parceiro/a. E nem o capitalismo, tampouco as convenções de relacionamentos conservadores são prejudicados quando Negritude e “alteridade” racializada continuam a ser uma mercadoria (há algo um pouco problemático em dormir com seu opressor).

Esta manutenção invisibilizada e respectiva perpetuação da supremacia branca em relações monogâmicas padrão continuam a marginalizar participantes não-brancos/as de relações não-monogâmicas. Não existe uma cartilha sobre como abrir relações para incluir de forma segura e acomodar em círculos e discussões tradicionais indivíduos racializados, nem transgêneros ou parceirxs não-binários, nem pessoas com diversidade(s) funcional(is), tampouco parceiros/as assexuados/as, sobreviventes de abuso ou outros/as parceiros/as com identidades vulneráveis.

Pelo contrário, vemos um quadro dominante da não-monogamia que muito frequentemente recria normatividades cis, capacitismo e supremacia branca e onde vemos ambos/as parceiros/as primários/as e não primários/as tratados/as de formas que imitam violências discursivas cotidianas.

Descolonizar o amor – e isso deveria ser central em qualquer tipo de relacionamento eticamente não-monogâmico – envolve não somente a remoção dissidente do amor de seu pedestal de finitude, mas também a extensão das hierarquias de identidade que reificam hegemonias. Este processo de descolonizar nosso amor e nossos relacionamentos significa reconhecer as maneiras pelas quais relações poliamorosas centralizam a branquitude, por exemplo, ao ‘colecionar’ parceiros/as com identidades marginalizadas como se fossem cartões comerciais de diversidade, e/ou ao valorizar parceiros/as por diversos modos que eles/elas possam impulsionar o capital social e político e seu rótulo de “radical/liberal”.

Esta não é minha declaração autorizada e autoritária de que eu nunca vou namorar um homem ou uma mulher branco/a de novo, nem sou eu dizendo que é impossível que homens brancos possam vir a ser parceiros/as decentes para parceiros/as racializados/as (e eu sei o quanto estou massageando o ego incrivelmente frágil da masculinidade hegemônica branca ao dizer isso). Mas sou extremamente cautelosa em me aventurar em relacionamentos românticos com eles – e mais desconfiada ainda de como eu poderia ser tratada em um relacionamento não-monogâmico – por conta justamente de minhas experiências contínuas e consistentes de namorar a supremacia branca. Se queremos realmente descolonizar nossas relações e nossas camas, devemos reconhecer como internalizamos a hierarquização e objetificação de identidades marginalizadas e racializadas em nossas vidas pessoais. Só desta forma poderemos realmente criar tais relações equitativas e horizontais que esta proposta defende.

 

[1] Sabendo que a questão também é vivida por mulheres trans e sapatonas Negras, queremos enfatizar que quando nos referirmos à mulher nesta tradução estamos nos referindo a mulheres cis, trans e lésbicas, bem como a todos os corpos e subjetividades Negras para quem a vivência de várias formas de afeto tem sido negada e/ou preterida. N.da T.

[2] é a prática de formação de relacionamentos que não se constituem por e não se vinculam à normas além do que as pessoas envolvidas mutuamente concordarem. Se um relacionamento anarquista tem vários/as parceiros/as íntimos, ele pode ser considerado como uma forma de poliamor, mas distingue-se pela premissa de que não precisa ser uma distinção formal entre as relações sexuais, românticas ou platônicas. Anarquistas relacionais olham para cada relacionamento (romântico ou não), individualmente, ao contrário de categorizá-los de acordo com as normas da sociedade, tais como “apenas amigos/as”, “em um relacionamento”, ou “em um relacionamento aberto’.

[3] Sobre cabelo encarapinhado: http://ameseucrespo.blogspot.com.br/2012/03/cabelo-cacheado-ou-cabelo-encarapinhado.html

[4] O termo usado pela autora é womanist feminism. Segundo Raquel da Silva Barros (2011) “O Womanism esta diretamente relacionado ao “feminismo negro”, bem como à preocupação com o bem-estar e a integridade de todas as pessoas, homens e mulheres.” Mais sobre o termo em: http://www.africaeafricanidades.com.br/documentos/14152011-16.pdf e  https://quilombouniapp.wordpress.com/2012/03/22/africana-womanism-o-outro-lado-da-moeda/