Hoje em dia felizmente temos presenciado o aumento do número de mulheres negras escrevendo, desde poemas e contos, a ensaios e romances. Isso se dá principalmente devido ao surgimento de coletivos de mulheres e saraus nas periferias de grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo. Nesses espaços as mulheres negras são empoderadas e participam ativamente, exercendo a sua voz e lutando contra a opressão do machismo e do racismo que busca silenciá-las de maneiras diversas.

Sabemos que uma mulher negra encontra muitas barreiras ao longo do processo de se tornar escritora. Nossas histórias geralmente são desvalorizadas e nossa escrita é constantemente desqualificada por um cânone literário que privilegia a escrita de homens brancos de classe média alta com ampla formação acadêmica, muitos dos quais nos retratam de forma estereotipada e nos tiram a condição de sujeitos.

Sendo assim, é importante acompanhar e valorizar o trabalho dessas mulheres que estão lutando cotidianamente pelo direito de contar suas histórias, de reinventá-las, adquirindo suas obras e divulgando-as com nossos pares.

Paulina Chiziane, escritora moçambicana de etnia tsonga, escreveu um ensaio intitulado “Eu, Mulher”. Nesse ensaio ela conta sua trajetória como mulher negra na busca pela afirmação e resistência como escritora em uma sociedade marcadamente machista que estabelece locais pré-definidos para as mulheres e resiste quando elas lutam para ocupar um lugar diferente e exigem o direito de fala.

Paulina mostra como a mulher é desvalorizada na sociedade em que vive e responsabilizada por qualquer desgraça que venha a se abater sobre o povo, sendo amaldiçoada por isso. Desde cedo a mulher é vista como uma força de trabalho pela família e, tão logo menstrua, é entregue a um marido. Mas ainda assim, a escritora compara a mulher à terra pela força que possui.

Paulina conta que foram as histórias de sua avó que despertaram nela a escritora, mas que nessas histórias as mulheres só tinham duas possibilidades, ou eram boas e submissas ou feiticeiras. As primeiras eram recompensadas com um bom casamento, já as feiticeiras eram punidas com a esterilidade ou ficavam solteironas. Começou escrevendo frases, diário, poemas e cartas de amor.

Casou-se e foi infeliz, presa no silêncio e na solidão, conforme relata. Voltou a escrever novamente e a condição social da mulher se tornou seu tema principal. Quis gritar o silêncio que enclausurava tanto a ela quanto a outras mulheres. Quando começou a escrever seu primeiro livro, “Balada de amor ao Vento”, foi vista com ceticismo e desprezo por muitos, principalmente pelos homens, que a encaravam como uma mulher frustrada e louca.

Paulina “cometeu” duas transgressões: ser mulher e artista. E o preço foi alto, muitas pessoas evitaram se relacionar com ela por considerarem-na má influência, e os homens passaram a assediá-la com frequência em troca de ajuda para publicar suas obras.

A autora não se mantém financeiramente com a carreira de escritora, tem uma família para cuidar, uma casa para manter e um emprego formal de oito horas por dia, mas segue firme na carreira de escritora porque para ela a escrita é uma forma de estímulo e de consolo, por isso busca manter-se ativa na escrita e escreve durante as madrugadas.

Paulina afirma que seus escritos têm um caráter de urgência, pois vive em uma zona de guerra. Ela diz que trabalhar numa atmosfera de morte é sua forma de resistir e que ninguém tem o direito de interromper os seus sonhos.

Ser uma mulher negra escritora em um contexto de opressão como o nosso é uma forma de resistência e de empoderamento não só de nós mesmas, mas de todas as mulheres negras que nos cercam direta ou indiretamente. Paulina lança um importante questionamento: será que quando escrevemos contribuímos para o desenvolvimento da mulher e da sociedade? Ela diz que às vezes acredita que sim, que estamos plantando a semente da coragem e da vontade de vencer no coração das mulheres. Sendo assim, sigamos nossa trajetória de “escrevivência”, como nos diz Conceição Evaristo, sendo sujeitos de nossa fala, de nossa história, de nossas vivências, não sendo submetidas ao olhar do outro, mas construindo o nosso próprio olhar em nossas narrativas.

Imagem – Mozafricaview