Eu assisti A Cor Purpura quando eu tinha dez anos de idade. Minha mãe havia alugado, era alguma data comemorativa, pascoa ou ano novo, não vou me lembrar. Mas estávamos reunidos, meus pais, irmãos e meus avós estavam presentes e isto acontecida apenas nas datas comemorativas.

 

Assisti e alguma coisa em mim estalou, possivelmente porque o filme tinha em sua grande maioria personagens negros, e os personagens brancos eram só um marcador de uma violência sutil, logo deve me ter parecido irrelevante por qualquer razão. Mas me marcou mesmo porque diferente do que passava nas novelas, existia ali uma violência muito familiar (até no nome vejam só) – era a violência doméstica.

 

Nunca mais assisti ou li A Cor Purpura novamente, mas lembrava até da musiquinha cantada na brincadeira das palmas. Não sabia sobre o que o filme era aos 10, fui entender que é sobre a solidão da mulher negra aos 33, fui rever o filme aos 35.

Na madrugada do dia de hoje, sem dormir, voltando do hospital para tratar a gripe do meu filho de nove anos, lidando com o barulho do gato que vai ser castrado hoje e precisava de jejum, com o retorno ao hospital depois de uma longa espera sem atendimento, com o trabalho “oficial” para fazer que não pode atrasar porque tem prazos sérios. Lidando com isso tudo aí e a vida normal eu revi A Cor Purpura.

 

Logo eu que me recuso a ver filmes sobre a escravidão, não vi 12 anos de escravidão, não terminei Amistad, me recuso a ver de novo Tempo de Matar, não vi What’s Happened Miss Simone, não vi Vênus Negra. Minhas mãos tremem diante de alguns títulos que passo por aí, um tremor real. Como é algo que posso evitar, evito com todas as forças. Mas desta vez parecia até uma sugestão. Zapeando passo uma, duas, três vezes pelo filme e ele está lá, bem no comecinho, o plano era cochilar então tanto faria em que canal estava, mas o sono não veio.

Faz uns quarenta minutos que o filme passou, Nettie e Celie já se encontraram a quarenta minutos atrás, a criança está medicada e vendo seus vídeos no Youtube, eu estou sentada trabalhando e meu peito e garganta queimam.

 

Queimam por que não importa a época em que o filme se passa, agora ele também é sobre mim, sobre as violências que passei, sobre evitar de toda a forma o sorriso que hoje é feio, sobre estereótipos que aniquilam, sobre a verdade dos outros sobre a violência em Sophia, é sobre a solidão da mulher negra de fato, é sobre dores silenciosas.

 

Fico pensando em como foi para minha mãe ver isto. Ela separada da irmã por situações da vida, sendo em muitos casos Nettie, em outros tantos Celie. Sentada na sala da própria casa, cuidando dos filhos dela e do irmão, e logo chegariam outros que pouco entenderiam o significado deste esforço, mas ainda assim chegariam, e ainda chegam. O peso dos julgamentos, das suposições, o enfrentamento. E o que eu vi esta mulher viver e fazer, vocês não têm ideia, do poder, da necessidade, do instinto de proteção e sobrevivência. E não, ela nunca foi “só” isso, embora nestes 35 anos de vida eu a tenha visto chorar apenas 5 vezes na vida, cinco, contados nos dedos, e só penso o tamanho da bigorna que ela arrasta pela vida por não ter tido o direito de ser outros sonhos, outras sutilezas, outras possibilidades.

 

Vinte cinco anos depois de ver o filme pela primeira vez constato que minha vida seguiu o caminho da história que contam sobre nós. Estereótipos machistas, racistas, de violência perpetuados também entre mulheres – Brancas e Negras – não por maldade creio eu, mas pelo simples desconhecimento do tamanho de certas feridas, da dimensão de certas armas.

 

Penso cada dia mais nesta tal solidão, hoje meu trabalho mais importante, e talvez por isso o mais demorado de toda a minha vida é também sobre isso. Ele é significativo e não é meu, é de uma outra mulher negra, que não sei como se sente no dia de hoje, mas a solidão também deve ser companhia constante, bigorna cada vez mais pesada. Não é apenas sobre afeto este trabalho, não se engane.  Ela está longe, e eu sou péssima em skypes, videos, snap, Youtube porque ali não tenho como esconder a minha imagem, mas se um dia você ler isso minha amiga, independente do nosso contato, da nossa distancia, independente do nosso trabalho e das fluências: “Sister you’ve been on my mind” e agradeço por estar ousando tentar tocar nesse assunto que deveria ser mais caro para nós mulheres negras.

 

Ainda trabalho todo dia para entender o que eu fiz comigo e o que fizeram de mim. A umas duas semanas atrás enquanto pesquisava sobre mulheres na tecnologia, fui acolhida por um grupo de mulheres negras, que pensa e discute o assunto, e descobri que tenho qualificação para receber salários absurdos, conhecimento suficiente para educar batalhões, que sou boa no que faço, que sei mais do que acreditava saber e que carreira é algo importante para mim. Até este ponto eu acreditava apenas ser rasa em todos os aspectos do conhecimento, acreditava que não saber atalhos o suficiente num programéco de computador poderia definir um profissional. Que qualquer salario basta, desde que me sustente e a meu filho, que minha vida é ir de doméstica a operadora de telemarketing (profissões completamente dignas e sustentáveis, pouco valorizadas, diga-se de passagem, mas só constroem alguém quando esta não é a única e exclusiva opção que uma pessoa tem e quando ela é preparada para acreditar que pode sempre ser absolutamente qualquer coisa). Trabalho com desenvolvimento WEB a 14 anos, mas nunca olhei para isso como profissão, quase nunca recebi por isso, era a colega que fazia um favor enquanto passava roupas por 50 reais na casa da irmã mais rica e separa os pares de meia do cunhado um por um para comprar uma caixa de leite. Após encontrar estas mulheres, preenchi corretamente um perfil profissional na internet: Web Developer Sênior porque é quem eu sou. Nada menos que isso. E isso também é sobre a solidão da mulher negra, sobre ter achado aceitável ouvir de um chefe homem branco que “Eu deveria entender que não poderia ser promovida para a a área de T.I da empresa embora eu fosse excelente porque minha APARÊNCIA não era compatível com a área” eu ouvi, achei razoável e disse apenas “Sim, eu entendo”. Eu sou a pessoa que recebeu um emprego de bandeja, havia possibilidade de estudo e eu me achava obviamente rasa em todos os assuntos, o que me mantinha de fato inibida diante de qualquer possibilidade, descobri que recebia menos que o estagiário por 8 horas de trabalho duro, que eu fazia enquanto meu pai se estrebuchava com um câncer terminal agravado e eu recebia ligações desesperadas da minha mãe que cuidava do meu filho na época de que precisava de ajuda e ela de fato precisava, todos nós. E eu ouvi que o maior dos meus problemas, que me ancorava além de uma mania de perseguição, era minha Baixa Estima, nisso a pessoa acertou, mas não justificava me pagar pela minha querência por mim mesma, certo? Errado, eu achava completamente compreensível, aceitei numa boa parecia uma verdade absoluta, continuei achando uma oportunidade única na vida, tentei me agarrar com unhas e dentes ao local, mas o câncer ainda venceu.

 

Eu fui convencida de que se eu fizesse trabalhos de excelência, se superasse expectativas, tempo, condições sub-humanas de esforço e qualidade de vida, meu valor seria visto e reconhecido. Foi assim por onde eu passei, está em mim, mas hoje, depois de ver o filme de novo repenso que a única pessoa que está apta para dizer quem eu sou e qual o meu valor sou eu. Eu sei quem eu sou, do que eu sou capaz, onde eu posso chegar e não preciso de alguém me aprovando ou validando quem eu sou. Hoje eu sou Web Developer Sênior, uma mulher preta na tecnologia e eu sou muito boa no que eu faço, pena que nem todo mundo acredita e ainda me fala como eu devo desenvolver meu trabalho para que ele seja melhor para mim e para pessoa, nestes casos faço o que me pedem, mas ciente de que vai sair ó – uma bosta. Eu ficava preocupada, fazia de tudo para não contrariar um “cliente” mesmo sabendo que a solução iria ficar pior do que o proposto, a pessoa deveria ser melhor qualificada do que eu certo ou errado de novo, só ficava ruim, mas quem confia na palavra da preta, gorda, conversinha fiada de mãe, mas quer saber, não é de verdade um problema meu. Mas deixa na minha mão e prometo que você vai chorar de alegria com aquilo que eu sou capaz de fazer. Mas essa descrença em mim, na possibilidade de estar em espaços que não são direcionados para mim, também é sobre a solidão da mulher negra, estereotipo de força braçal apenas, resiliência, aceitação.

 

Só aos 35 anos, com um tempo para me rever, me avaliar, me testar, eu me permiti fazer uma pós-graduação porque talvez eu consiga, aliás eu sei que consigo. E neste EU CONSIGO agradeço demais o grupo de pessoas que encontrei pela Alemanha – graças a ponte de amor da Luciana de Oliveira e do Paulo Nazareth (estar em Minas, naquele momento, naquele evento e por tudo que veio depois disto) – Este grupo de pessoas melhorou muito minha visão sobre quem eu sou e como disse o Renato Silva: Não falem em português com ela porque ela entende tudo, ela só não sabe que sabe. – Obrigada Renato, de fato EU SEI, mas isso é história para outro post, cheio de saudade e luta alias. A experiência na Alemanha, um assunto do qual eu pouco falei, porque acreditei que ali não era meu lugar, que não era para mim, que alguém tinha cometido um erro.

 

Enfim.

 

Mas escrevo e meu peito ainda queima, queima porque vim escrever em um espaço lindo, meu exclusivo, que estava protegido por uma senha (mantendo a solidão no que me afligia, afinal pra que falar se ninguém escuta mesmo), mas que nasceu para que eu trabalhasse minha imagem no espelho, e a verdade não é só porque ando com medo da morte, e eu ando, mesmo, nunca estive tão adoecida em toda a minha vida. Mas era uma situação secreta por medo do fracasso, do julgamento, e da vergonha de não ter minha fala reconhecida em qualquer outro espaço por estar me rendendo a uma sociedade que fede e me adequando a ela. Era secreto porque eu não precisaria dizer em voz alta que eu quero retirar mais de 40 quilos do meu corpo porque não quero parecer furiosa, eu não estou furiosa e na internet, por carta, por mensagem não existe UM TOM de voz que vocês não suportam, o que existe é a sua mente mergulhada naquilo que vocês veem de mim, e dos outros. Não importa o quão conectado com questões sociais, afetivas, o quanto vocês amem alguém ou queiram o bem, vocês veem o outro como vocês querem ver. Vejam só, não importa de fato o que eu penso sobre a minha própria pessoa, eu ainda estou num universo social que tem a própria visão de mundo sobre quem eu sou, e isso incomoda, porque não falo de um universo social alternativo, geral vestida com camiseta da CBF, falo sobre você, meu amigo, meus amores, minha família. É por vocês que eu gostaria de ser vista como quem eu sou, por baixo das camadas adiposas que fazem com que o mundo e VOCÊS me vejam como uma mulher negra, grande e furiosa. São em grande parte vocês mulheres negras, mas tudo bem, eu sei o que fizeram da gente, e isso também é sobre a solidão da mulher negra. Para variar eu entendo cada xingamento, cada agressão, cada injustiça, cada fofoca cruel, entendo porque afinal não é o que ensinaram a gente a fazer? Nos bastar sozinhas? Estereótipos não valem muito mais do que conhecer pessoas? Não foi EXATAMENTE o que fizeram comigo? Com Você? Sim, isto é muito sobre a solidão da mulher negra.

 

THE COLOR PURPLE, Oprah Winfrey, 1985, (c) Warner Brothers/courtesy Everett Collection

THE COLOR PURPLE, Oprah Winfrey, 1985, (c) Warner Brothers/courtesy Everett Collection

 

Mas um fato sobre a minha solidão e quem convive com ela, eu não tiro mais fotos, não tenho espelhos nem de maquiagem além de um no banheiro porque os meninos da casa precisam desses, moramos em uma casa sem espelho porque não quero, não gostaria e evito de passar por um. Mulher negra gorda estereotipada como a imagem da fúria, do fracasso, de uma preguiça inexistente, da ausência da possibilidade de amor real (que não seja atrelado por um status qualquer, figurinha colecionável, dinheiro, casa). Isto é o que me ensinaram a vida inteira, o que me entregam em uma badeja para que eu sinta, toque e viva dia após dia. E aqui sou de novo Celie, e não vou sorrir sem controlar quais dentes aparecerão. Não acredito em qualquer palavra do que dizem para mim. Mono ou não mono, com negros ou brancos, homens, mulheres ou pessoas não binárias. Sou pária, a imagem do abandono na mãe solteira/sozinha/separada. E obvio isto também é sobre a solidão da mulher negra.

 

Acho que eu vou parando de escrever por aqui porque o peito já não queima tanto, é possível respirar fundo de novo sem engasgar, vou entrar no dilema público ou não público. Sou assim, sempre fui…mas são novos tempos. É possível que eu também mude.

 

Passei a vida toda detestando o roxo, o lilás, o purpura, imagino que não tenha qualquer relação com o filme ou o que ele represente, acho que vou dar uma chance para ele, pelo menos pra olhar pra ele mais adiante.

 

– Deus deve ficar furioso quando você passa pela cor púrpura no campo, e nem se dá conta.

-Está dizendo que Ele só quer ser amado (..) ?

-É, Celie. Tudo no mundo quer ser amado. A gente canta e dança e grita porque quer ser amada.

A cor purpura.

 

Não sei se vou seguir escrevendo, mantendo um blog, falando de qualquer coisa que seja. Mas sempre fui blogueira, me perdi da escrita, mas não quero ter mais nada tomado nesta vida.